sábado, 30 de outubro de 2010

Último dia


“Todo brasileiro tem um blog.”

O gajo disse isso enquanto tragava um cigarro no Bairro Alto. Achei piada. É verdade, nunca tinha ventilado essa hipótese simples. Fiz uma varredura rápida na memória, busquei amigos e conhecidos, e, de fato, a regra de todo brasileiro ter um blog vingava. Era (quase) perfeita. 

Só eu tenho três. Ao mesmo tempo. Já tive outros três, em tempos diferentes. O pioneiro de tudo foi o Crônicas Esporte Clube (CEC), de 2005 – 14 de setembro de 2005, para ser mais exato. O post inaugural tinha o título de “Quarteto do óbvio” e falava da nova aposta de Parreira na união de Ronaldinho, Kaká, Adriano e Ronaldo na Seleção Brasileira pré-Mundial da Alemanha.

Ao longo do CEC, redescobri o prazer da escrita sobre futebol. Estava influenciado por Armando Nogueira, Juca Kfouri, Nelson Rodrigues, João Saldanha e as mesas redondas da ESPN Brasil. Conheci o Leandro Afonso Guimarães, companheiro de 7 Cronistas Crônicos, nesta fase.

Os textos de esporte duraram até o final de 2007. Em abril de 2008 surgiu o Inutensílio do Mundo, que respira até hoje. Às vezes com ajuda de aparelho. Era uma forma de expor a minha poesia, boa ou má. Uma forma silenciosa de transformar o meu lixo, a minha merda, em adubo... e fazer crescer um jardim a partir daí. Lá se vão 155 versos na “gaveta” do blog. Outros tantos (mais de 100) ainda estão guardados.

Junto do Inutensílio veio o Bola Rolando. A idéia era voltar a discutir futebol em tópicos soltos – no estilo de “O livro do desassossego”, do Fernando Pessoa. Numerava a divagação em vez de dar título. Em três meses escrevi 41 textos. Coisas como: “Costumo dizer que o futebol se confunde à vida. Não sei onde começa um e outro. Quem surgiu primeiro: o jogo ou a humanidade. Leiam Homo Ludens, de Johan Huizinga. Só vai ‘piorar’ as coisas. Somos uma partida com o cronômetro sempre rodando, ele nunca pára. Estou aos 25 minutos.”

Calma lá. Antes de tudo isso teve o Dois em Xeque, um espaço honrosamente partilhado com a Mayara Paz. Conhecemo-nos no Ceub, onde cursamos Jornalismo e estagiamos na agência de comunicação da faculdade. A vontade de debater as relações e os sentimentos levou-nos a criar o bate-papo virtual. A cada domingo uma crônica dela (em vermelho) e minha (em azul) sobre um tema comum. A visão feminina e masculina.

Além da agradável repercussão, era superdivertido tratar dos assuntos. Os amigos começaram a ler e ter acesso ao que pensávamos de mais íntimo, o que achávamos de traição e posse, quais eram as nossas carências, as coisas que nos faziam feliz, nossos desejos carnais e traumas amorosos. O Dois em Xeque foi uma maneira leve de organizar os meus pensamentos emocionais, exprimir as minhas emoções racionalmente.

Larguei o blog para cruzar o Atlântico. Nascia o D’além Mar, este D’além Mar. O rebento foi alguns meses antes de ter a certeza de que faria o mestrado em Lisboa, antes de ser aceito e ter o visto em mãos, antes de confirmar uma nova guinada na trajetória. O D’além Mar me acompanhou nas angústias e nas descobertas e, como diz o subtítulo, foi um relato livre das estórias, sensações e experiências de se viver no Velho Continente.

Às vezes volto a Agosto de 2008 e vou lendo com carinho este diário de bordo. Porque É um diário – de viagens, de aventuras, de deslumbramentos, de encontros e desencontros, de choros, de gargalhadas, de pessoas, de lugares, de belos momentos, de solidões reconfortantes, de obstáculos difíceis, de expectativas, de frustrações, de convicções, de delírios, de prosas e poesias. O D’além Mar é um diário da minha alma a milhares de quilômetros do Brasil.

(Hesitei ao escrever Brasil... “milhares de quilômetros de casa” talvez soasse melhor, talvez fosse mais direto. Mas não: a minha casa, descobri, é a escrita. A minha casa por dois anos foi o blog e, hoje, decido deixá-la.)

O que quero dizer é que este é o último dia. É o término de algo que comecei há dois anos e dois meses. Custa-me – mais que qualquer um de vocês, caros leitores e parceiros de instantes plenos, podem ter certeza. Tem os 7CC. Toda quinta-feira estou lá. Mas saibam de uma coisa, como já repeti várias vezes: o adeus é transcendental, enquanto o até logo mantém a mesmice.

Em breve, invento outro blog. Afinal, eu sou brasileiro, pá! Vale, chicos?

6 comentários:

Leandro Afonso Guimarães disse...

"A minha casa, descobri, é a escrita. A minha casa por dois anos foi o blog e, hoje, decido deixá-la".

Se por um lado dá para (quase) sentir a dor, por outro fica a boa certeza: ainda teremos muitos textos seus, Gustavo.

Sandryne disse...

Eu já te disse isso antes, de outra forma, mas tenho que admitir aqui pois esse texto me irritou e entristeceu. Não me conformo com isso, respeito você, mas como sei que prezas pela democracia das palavras, das expressões, então lá vai: não gostei nem um pouco disso, e vou sentir muita falta desse lugar.

Gustavo Jaime disse...

Este lugar continua aqui. Pode visitá-lo sempre que quiseres, Dine. Serás bem-vinda em todas as vezes. =)

Juliana Toledo disse...

Este é um espaço que vale a pena. Pela leitura, pelas experiências... Agora, não seja um mendigo, sem casa, sem escrita. Trate logo de inaugurar outro espaço para que possamos continuar a devorar textos tão maravilhosamente escritos por você! ;) Parabéns!!!!

Vanessa disse...

Acabou? Agora que eu comecei a desfrutar? So sad.

Poliana Macedo disse...

Obrigada pelas dicas Gustavo.. Obrigada mesmo! Irei absorve-las.. Abrirei-me para o mundo! :D