
O gajo disse isso enquanto tragava um
cigarro no Bairro Alto. Achei piada. É verdade, nunca tinha ventilado essa hipótese
simples. Fiz uma varredura rápida na memória, busquei amigos e conhecidos, e,
de fato, a regra de todo brasileiro ter um blog vingava. Era (quase) perfeita.
Só eu tenho três. Ao mesmo tempo. Já tive outros
três, em tempos diferentes. O pioneiro de tudo foi o Crônicas Esporte Clube (CEC), de 2005 – 14 de setembro de 2005,
para ser mais exato. O post inaugural
tinha o título de “Quarteto do óbvio” e falava da nova aposta de Parreira na
união de Ronaldinho, Kaká, Adriano e Ronaldo na Seleção Brasileira pré-Mundial da
Alemanha.
Ao longo do CEC, redescobri o prazer da escrita
sobre futebol. Estava influenciado por Armando Nogueira, Juca Kfouri, Nelson
Rodrigues, João Saldanha e as mesas redondas da ESPN Brasil. Conheci o Leandro Afonso Guimarães, companheiro de 7 Cronistas Crônicos, nesta fase.
Os textos de esporte duraram até o final de 2007. Em abril de 2008 surgiu o Inutensílio do Mundo, que respira até hoje. Às vezes com ajuda de aparelho. Era uma forma de expor a minha poesia, boa ou má. Uma forma silenciosa de transformar o meu lixo, a minha merda, em adubo... e fazer crescer um jardim a partir daí. Lá se vão 155 versos na “gaveta” do blog. Outros tantos (mais de 100) ainda estão guardados.
Os textos de esporte duraram até o final de 2007. Em abril de 2008 surgiu o Inutensílio do Mundo, que respira até hoje. Às vezes com ajuda de aparelho. Era uma forma de expor a minha poesia, boa ou má. Uma forma silenciosa de transformar o meu lixo, a minha merda, em adubo... e fazer crescer um jardim a partir daí. Lá se vão 155 versos na “gaveta” do blog. Outros tantos (mais de 100) ainda estão guardados.
Junto do Inutensílio
veio o Bola Rolando. A idéia era
voltar a discutir futebol em tópicos soltos – no estilo de “O livro do
desassossego”, do Fernando Pessoa. Numerava a divagação em vez de dar título.
Em três meses escrevi 41 textos. Coisas como: “Costumo dizer que o futebol se
confunde à vida. Não sei onde começa um e outro. Quem surgiu primeiro: o jogo
ou a humanidade. Leiam Homo Ludens, de Johan Huizinga. Só vai ‘piorar’ as
coisas. Somos uma partida com o cronômetro sempre rodando, ele nunca pára.
Estou aos 25 minutos.”
Calma lá. Antes de tudo isso teve o Dois em Xeque, um espaço honrosamente partilhado
com a Mayara Paz. Conhecemo-nos no Ceub, onde cursamos Jornalismo e estagiamos
na agência de comunicação da faculdade. A vontade de debater as relações e os
sentimentos levou-nos a criar o bate-papo virtual. A cada domingo uma crônica dela
(em vermelho) e minha (em azul) sobre um tema comum. A visão feminina e
masculina.
Além da agradável repercussão, era superdivertido
tratar dos assuntos. Os amigos começaram a ler e ter acesso ao que pensávamos
de mais íntimo, o que achávamos de traição e posse, quais eram as nossas
carências, as coisas que nos faziam feliz, nossos desejos carnais e traumas amorosos.
O Dois em Xeque foi uma maneira leve
de organizar os meus pensamentos emocionais, exprimir as minhas emoções racionalmente.
Larguei o blog para cruzar o Atlântico. Nascia o
D’além Mar, este D’além Mar. O
rebento foi alguns meses antes de ter a certeza de que faria o mestrado em
Lisboa, antes de ser aceito e ter o visto em mãos, antes de confirmar uma nova
guinada na trajetória. O D’além Mar me
acompanhou nas angústias e nas descobertas e, como diz o subtítulo, foi um
relato livre das estórias, sensações e
experiências de se viver no Velho Continente.
Às vezes volto a Agosto de 2008 e vou lendo com
carinho este diário de bordo. Porque É
um diário – de viagens, de aventuras, de deslumbramentos, de encontros e
desencontros, de choros, de gargalhadas, de pessoas, de lugares, de belos momentos,
de solidões reconfortantes, de obstáculos difíceis, de expectativas, de frustrações,
de convicções, de delírios, de prosas e poesias. O D’além Mar é um diário da minha alma a milhares de quilômetros do
Brasil.
(Hesitei ao escrever Brasil... “milhares de
quilômetros de casa” talvez soasse melhor, talvez fosse mais direto. Mas não: a
minha casa, descobri, é a escrita. A minha casa por dois anos foi o blog e,
hoje, decido deixá-la.)
O que quero dizer é que este é o último dia. É o
término de algo que comecei há dois anos e dois meses. Custa-me – mais que
qualquer um de vocês, caros leitores e parceiros de instantes plenos, podem ter
certeza. Tem os 7CC. Toda quinta-feira
estou lá. Mas saibam de uma coisa, como já repeti várias vezes: o adeus é transcendental, enquanto o até logo mantém a mesmice.
Em breve, invento outro blog. Afinal, eu sou
brasileiro, pá! Vale, chicos?
6 contribuições:
"A minha casa, descobri, é a escrita. A minha casa por dois anos foi o blog e, hoje, decido deixá-la".
Se por um lado dá para (quase) sentir a dor, por outro fica a boa certeza: ainda teremos muitos textos seus, Gustavo.
Eu já te disse isso antes, de outra forma, mas tenho que admitir aqui pois esse texto me irritou e entristeceu. Não me conformo com isso, respeito você, mas como sei que prezas pela democracia das palavras, das expressões, então lá vai: não gostei nem um pouco disso, e vou sentir muita falta desse lugar.
Este lugar continua aqui. Pode visitá-lo sempre que quiseres, Dine. Serás bem-vinda em todas as vezes. =)
Este é um espaço que vale a pena. Pela leitura, pelas experiências... Agora, não seja um mendigo, sem casa, sem escrita. Trate logo de inaugurar outro espaço para que possamos continuar a devorar textos tão maravilhosamente escritos por você! ;) Parabéns!!!!
Acabou? Agora que eu comecei a desfrutar? So sad.
Obrigada pelas dicas Gustavo.. Obrigada mesmo! Irei absorve-las.. Abrirei-me para o mundo! :D
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