terça-feira, 26 de outubro de 2010

Olhos nos olhos


Um médico que não encara o paciente, que não olha nos seus olhos para entender suas carências, que abdica do humanismo em prol da frieza asséptica, que ignora a condição emocional do outro, um médico desses está fadado à mediocridade profissional. À estupidez natural. Um médico desses há de babar no próprio jaleco.

Qualquer criança já recebeu a advertência materna: ― Olhe para mim quando eu estiver falando com você, moleque!

O moleque é direito autoral, copyright da minha mãe. Era a famosa frase que ela ralhava entre os dentes ao me pregar um sermão. Blábláblá merecido ou não, incisivo ou amistoso, efêmero ou eterno, o fato é que eu tinha de pousar as minhas retinas nas da dela. E sem achar ruim ou virar a cara.

Numa fase de revolta adolescente – desculpem a redundância –, desenvolvi um contragolpe fulminante, quase digno daquele Arsenal campeão inglês de 2003-04. Olhos nos olhos, tensão no ar, dedo em riste e..., sutilmente, eu franzia o nariz. Isso mesmo: erguia-o como se fosse um cão no instante de rosnar. Apertava um pouco a vista, cerrava a sobrancelha e a tríade bastava para deixar dona Sandra possessa. Louca de raiva.

Fiz isso algumas vezes e depois perdeu a graça. Ou me esqueci de repetir. Talvez tenha entrado “nos eixos”. Amadurecido. Sei lá. O certo é que aprendi a lição: olhar nos olhos da outra pessoa enquanto ela estiver falando. Passei a valorizar o ensinamento como princípio ético da boa conversa, da mais pura educação.

Na escola, foquei-me no olhar compenetrado. Era o aluno atento. Minha vista percorria a frente da sala, fazia companhia aos professores. Por respeito. Na faculdade, aprimorei a arte – e, já de barba, desfilava um ar nojento de pseudo-intelectualidade. Com as mulheres, investi nos diálogos munidos da sinceridade da visão. Ouvia-as com a pupila, entendia-as com a íris, contemplava-as com a alma.

Vieram as entrevistas, a vida profissional, bate-papo com nomes conhecidos e com pessoas desconhecidas: sempre fazendo questão de ter os olhos fixos nos olhos alheios, numa via de mão dupla de credibilidade. E passou a ser um vício incontrolável – comprar pão, alugar um filme, pegar o ônibus, roubar um beijo... para tudo eu fazia questão de manter olhos nos olhos.

Por isso, quando assumi o papel de paciente, achei estranho os médicos me ignorarem. Eu contava a minha história e eles mantinham a cabeça baixa, a vista nos papéis, o interesse em tomar notas. Um médico que se preze busca a cura no olhar do paciente. Penetra-o sem o bisturi ou raio laser.

Quando findei o relato, com a sensação esquisita de que fazia um favor à saúde, vi o rosto do doutor. O par de olhos verdes do homem de branco varreu todos os lados do consultório e, quando esbarrou nos meus, notei certo espanto. Sem nem notar, eu franzia o nariz. Sem tirar os olhos dos dele.

Um comentário:

Fábio disse...

Conclusão: Você se apaixonou pelo doutor de olhos verdes! rsrsrsrs