Um médico que não encara o paciente, que não
olha nos seus olhos para entender suas carências, que abdica do humanismo em
prol da frieza asséptica, que ignora a condição emocional do outro, um médico
desses está fadado à mediocridade profissional. À estupidez natural. Um médico
desses há de babar no próprio jaleco.
Qualquer criança já recebeu a advertência
materna: ― Olhe para mim quando eu estiver falando com você, moleque!
O moleque
é direito autoral, copyright da minha
mãe. Era a famosa frase que ela ralhava entre os dentes ao me pregar um sermão.
Blábláblá merecido ou não, incisivo
ou amistoso, efêmero ou eterno, o fato é que eu tinha de pousar as minhas
retinas nas da dela. E sem achar ruim ou virar a cara.
Numa fase de revolta adolescente – desculpem a
redundância –, desenvolvi um contragolpe fulminante, quase digno daquele
Arsenal campeão inglês de 2003-04. Olhos nos olhos, tensão no ar, dedo em riste
e..., sutilmente, eu franzia o nariz. Isso mesmo: erguia-o como se fosse um cão
no instante de rosnar. Apertava um pouco a vista, cerrava a sobrancelha e a
tríade bastava para deixar dona Sandra possessa. Louca de raiva.
Fiz isso algumas vezes e depois perdeu a graça.
Ou me esqueci de repetir. Talvez tenha entrado “nos eixos”. Amadurecido. Sei lá.
O certo é que aprendi a lição: olhar nos olhos da outra pessoa enquanto ela
estiver falando. Passei a valorizar o ensinamento como princípio ético da boa conversa,
da mais pura educação.
Na escola, foquei-me no olhar compenetrado. Era o
aluno atento. Minha vista percorria a frente da sala, fazia companhia aos
professores. Por respeito. Na faculdade, aprimorei a arte – e, já de barba, desfilava um ar nojento de pseudo-intelectualidade. Com as mulheres,
investi nos diálogos munidos da sinceridade da visão. Ouvia-as com a pupila,
entendia-as com a íris, contemplava-as com a alma.
Vieram as entrevistas, a vida profissional, bate-papo
com nomes conhecidos e com pessoas desconhecidas: sempre fazendo questão de ter
os olhos fixos nos olhos alheios, numa via de mão dupla de credibilidade. E passou a ser um vício
incontrolável – comprar pão, alugar um filme, pegar o ônibus, roubar um beijo... para tudo
eu fazia questão de manter olhos nos olhos.
Por isso, quando assumi o papel de paciente, achei estranho os médicos me ignorarem. Eu contava a minha história e
eles mantinham a cabeça baixa, a vista nos papéis, o interesse em tomar notas.
Um médico que se preze busca a cura no olhar do paciente. Penetra-o sem o bisturi
ou raio laser.
Quando findei o relato, com a sensação
esquisita de que fazia um favor à saúde, vi o rosto do doutor.
O par de olhos verdes do homem de branco varreu todos os lados do consultório
e, quando esbarrou nos meus, notei certo espanto. Sem nem notar, eu franzia o
nariz. Sem tirar os olhos dos dele.

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Conclusão: Você se apaixonou pelo doutor de olhos verdes! rsrsrsrs
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