Decidi aprender uma língua nova. Sabem como é:
ultrapassei os 50% dos 27, num ritmo galopante até os 30 e, se não for agora, se
adiar isso por preguiça ou cobiça, receio perder a chance que a jovialidade
ainda me oferece. É que o tempo é arisco, meus caros, é traiçoeiro, é fugidio.
Sem namorada, sem casa, sem emprego, sem inspiração
literária e sem meu cartão do banco (isto já é uma outra história!), fuxiquei
na internet e encontrei um curso de catalão. Minha consciência, e alguns
amigos, estranharam: “Você podia aprimorar o inglês, investir no espanhol,
interessar-se pelo francês, pelo alemão, pelo italiano... mas não, colocou
nesta teimosa cabecinha que é o catalão, justo o catalão”, esbravejou meu alter
ego.
De médico e louco todo mundo tem um pouco. Outros,
como eu, têm muito. Então cá estou entre os jo
sóc e os fins demà do idioma. Ainda
só sei o básico. João és el meu amic,
me’n vaig a casa e són les set menys quart. Arranho uma ou
duas sentenças após quatro módulos de “aulas”. O catalão é tão próximo do
português – tanto ou mais que o castelhano – que se torna até fácil.
Também não pensem que é só na Catalunha que o
idioma é posto em prática. Não senhores! Mais de 10 milhões o utilizam. O
catalão é a língua oficial de Andorra. Repito: de Andorra! Ou seja, quando for
para lá, irei me comunicar com classe e desenvoltura, como se fosse um... um...
uma pessoa que nasce em Andorra. Conseguem vislumbrar o meu empreendedorismo
cognitivo?
Já era para eu estar em Barcelona, essa é a verdadeira
verdade em abraçar o catalão com tanta força, de cravar minhas unhas nas suas
costas e aconchegar o rosto no seu ombro. Meu coração salta, dá um duplo twist
carpado, um mortal ao inverso quando ouço falar das Ramblas, do Parc Güell, do
Montjuic, da Gràcia. Nunca entenderei bem o porquê desta ligação tão íntima e
visceral – não há o que entender, há o que ser vivido.
"Barcelona é uma cidade feiticeira. Mete-se-nos na pele e rouba-nos a alma sem darmos por isso." (Carlos Ruiz Zafón)
Aprendo catalão para descodificar as mensagens
que Barcelona sussurra nos meus sonhos. Aprendo catalão para sentir o insentível, absorver o inabsorvível, narrar o inarrável. Poucas vezes na existência
temos tanta certeza emocional de algo. Poucas vezes damos autonomia à intuição,
cerramos os olhos para sermos conduzido pelo vazio.
Esta simplicidade é o meu sangue. Este desleixo,
o descomprometimento, a irresponsabilidade, a subversão perante o ordenado, a
regra, o senso, o mesmo é o meu afrodisíaco.
A minha paixão não está propriamente nas coisas, nos gestos, nos atos. Não
reside em ter ou ser. A minha paixão não é estado de espírito, não é mensurável, não
é valorada. A minha paixão é.
Enquanto eu ainda a for.
* Texto de
13-10-2010

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