sábado, 30 de outubro de 2010

Último dia


“Todo brasileiro tem um blog.”

O gajo disse isso enquanto tragava um cigarro no Bairro Alto. Achei piada. É verdade, nunca tinha ventilado essa hipótese simples. Fiz uma varredura rápida na memória, busquei amigos e conhecidos, e, de fato, a regra de todo brasileiro ter um blog vingava. Era (quase) perfeita. 

Só eu tenho três. Ao mesmo tempo. Já tive outros três, em tempos diferentes. O pioneiro de tudo foi o Crônicas Esporte Clube (CEC), de 2005 – 14 de setembro de 2005, para ser mais exato. O post inaugural tinha o título de “Quarteto do óbvio” e falava da nova aposta de Parreira na união de Ronaldinho, Kaká, Adriano e Ronaldo na Seleção Brasileira pré-Mundial da Alemanha.

Ao longo do CEC, redescobri o prazer da escrita sobre futebol. Estava influenciado por Armando Nogueira, Juca Kfouri, Nelson Rodrigues, João Saldanha e as mesas redondas da ESPN Brasil. Conheci o Leandro Afonso Guimarães, companheiro de 7 Cronistas Crônicos, nesta fase.

Os textos de esporte duraram até o final de 2007. Em abril de 2008 surgiu o Inutensílio do Mundo, que respira até hoje. Às vezes com ajuda de aparelho. Era uma forma de expor a minha poesia, boa ou má. Uma forma silenciosa de transformar o meu lixo, a minha merda, em adubo... e fazer crescer um jardim a partir daí. Lá se vão 155 versos na “gaveta” do blog. Outros tantos (mais de 100) ainda estão guardados.

Junto do Inutensílio veio o Bola Rolando. A idéia era voltar a discutir futebol em tópicos soltos – no estilo de “O livro do desassossego”, do Fernando Pessoa. Numerava a divagação em vez de dar título. Em três meses escrevi 41 textos. Coisas como: “Costumo dizer que o futebol se confunde à vida. Não sei onde começa um e outro. Quem surgiu primeiro: o jogo ou a humanidade. Leiam Homo Ludens, de Johan Huizinga. Só vai ‘piorar’ as coisas. Somos uma partida com o cronômetro sempre rodando, ele nunca pára. Estou aos 25 minutos.”

Calma lá. Antes de tudo isso teve o Dois em Xeque, um espaço honrosamente partilhado com a Mayara Paz. Conhecemo-nos no Ceub, onde cursamos Jornalismo e estagiamos na agência de comunicação da faculdade. A vontade de debater as relações e os sentimentos levou-nos a criar o bate-papo virtual. A cada domingo uma crônica dela (em vermelho) e minha (em azul) sobre um tema comum. A visão feminina e masculina.

Além da agradável repercussão, era superdivertido tratar dos assuntos. Os amigos começaram a ler e ter acesso ao que pensávamos de mais íntimo, o que achávamos de traição e posse, quais eram as nossas carências, as coisas que nos faziam feliz, nossos desejos carnais e traumas amorosos. O Dois em Xeque foi uma maneira leve de organizar os meus pensamentos emocionais, exprimir as minhas emoções racionalmente.

Larguei o blog para cruzar o Atlântico. Nascia o D’além Mar, este D’além Mar. O rebento foi alguns meses antes de ter a certeza de que faria o mestrado em Lisboa, antes de ser aceito e ter o visto em mãos, antes de confirmar uma nova guinada na trajetória. O D’além Mar me acompanhou nas angústias e nas descobertas e, como diz o subtítulo, foi um relato livre das estórias, sensações e experiências de se viver no Velho Continente.

Às vezes volto a Agosto de 2008 e vou lendo com carinho este diário de bordo. Porque É um diário – de viagens, de aventuras, de deslumbramentos, de encontros e desencontros, de choros, de gargalhadas, de pessoas, de lugares, de belos momentos, de solidões reconfortantes, de obstáculos difíceis, de expectativas, de frustrações, de convicções, de delírios, de prosas e poesias. O D’além Mar é um diário da minha alma a milhares de quilômetros do Brasil.

(Hesitei ao escrever Brasil... “milhares de quilômetros de casa” talvez soasse melhor, talvez fosse mais direto. Mas não: a minha casa, descobri, é a escrita. A minha casa por dois anos foi o blog e, hoje, decido deixá-la.)

O que quero dizer é que este é o último dia. É o término de algo que comecei há dois anos e dois meses. Custa-me – mais que qualquer um de vocês, caros leitores e parceiros de instantes plenos, podem ter certeza. Tem os 7CC. Toda quinta-feira estou lá. Mas saibam de uma coisa, como já repeti várias vezes: o adeus é transcendental, enquanto o até logo mantém a mesmice.

Em breve, invento outro blog. Afinal, eu sou brasileiro, pá! Vale, chicos?

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Imagem poética


Roubei a expressão do título de Rubem Alves. Além da tatuagem no braço (Tempus fugit é o nome de um dos seus quase 40 livros), o escritor-psicanalista inspirou-me neste outro termo: imagem poética.

Adoro a alusão. As relações que os dois verbetes desencadeiam, juntos. Como numa engrenagem mental. Usufruo das palavras para falar deste aperto que sufoca o meu peito nos últimos dias. Estava a pensar no tchau, em tudo que foi aqui vivido, minuciosamente vivido, para que as recordações fossem as melhores possíveis. Fossem imagens poéticas.

Dois anos podem ser resumidos assim: intensidade. Sei que não é o ponto final, mas custa deixar para trás as experiências e amizades. Já escrevi sobre isso inúmeras vezes – no papel e na minha cabeça. Já pensei e pensei e pensei que trata-se de um até logo, de coisa temporária, de uma pausa forçada. É como se parássemos o filme na metade para ir ao banheiro.

Meu coração está pequenino. Tenho dificuldades em respirar – e, desta vez, não é culpa da maldita asma. É falta de ventilação na alma, coisa que nenhuma bombinha de aerossol resolve. Estou ofegante, ansioso, confusamente consciente de que completei meu objetivo ao vir a Portugal. Que o superei.

Vocês foram maravilhosos. Vocês são fenomenais. Cada fragmento da minha história lisboeta recebeu uma pincelada de beleza, um toque de graça convosco. Desculpem a pieguice, desculpem este texto cor-de-rosa. É que falar deste tipo de coisa sem ser meloso é mais difícil que um mestrado na Nova.

Guardo-os na lembrança com carinho sublime. As imagens poéticas infindáveis. Bastará eu fechar os olhos e estarei a fazer palhaçadas para todos rirem. Como aconteceu muitas vezes. E acontecerá mais outras tantas.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Olhos nos olhos


Um médico que não encara o paciente, que não olha nos seus olhos para entender suas carências, que abdica do humanismo em prol da frieza asséptica, que ignora a condição emocional do outro, um médico desses está fadado à mediocridade profissional. À estupidez natural. Um médico desses há de babar no próprio jaleco.

Qualquer criança já recebeu a advertência materna: ― Olhe para mim quando eu estiver falando com você, moleque!

O moleque é direito autoral, copyright da minha mãe. Era a famosa frase que ela ralhava entre os dentes ao me pregar um sermão. Blábláblá merecido ou não, incisivo ou amistoso, efêmero ou eterno, o fato é que eu tinha de pousar as minhas retinas nas da dela. E sem achar ruim ou virar a cara.

Numa fase de revolta adolescente – desculpem a redundância –, desenvolvi um contragolpe fulminante, quase digno daquele Arsenal campeão inglês de 2003-04. Olhos nos olhos, tensão no ar, dedo em riste e..., sutilmente, eu franzia o nariz. Isso mesmo: erguia-o como se fosse um cão no instante de rosnar. Apertava um pouco a vista, cerrava a sobrancelha e a tríade bastava para deixar dona Sandra possessa. Louca de raiva.

Fiz isso algumas vezes e depois perdeu a graça. Ou me esqueci de repetir. Talvez tenha entrado “nos eixos”. Amadurecido. Sei lá. O certo é que aprendi a lição: olhar nos olhos da outra pessoa enquanto ela estiver falando. Passei a valorizar o ensinamento como princípio ético da boa conversa, da mais pura educação.

Na escola, foquei-me no olhar compenetrado. Era o aluno atento. Minha vista percorria a frente da sala, fazia companhia aos professores. Por respeito. Na faculdade, aprimorei a arte – e, já de barba, desfilava um ar nojento de pseudo-intelectualidade. Com as mulheres, investi nos diálogos munidos da sinceridade da visão. Ouvia-as com a pupila, entendia-as com a íris, contemplava-as com a alma.

Vieram as entrevistas, a vida profissional, bate-papo com nomes conhecidos e com pessoas desconhecidas: sempre fazendo questão de ter os olhos fixos nos olhos alheios, numa via de mão dupla de credibilidade. E passou a ser um vício incontrolável – comprar pão, alugar um filme, pegar o ônibus, roubar um beijo... para tudo eu fazia questão de manter olhos nos olhos.

Por isso, quando assumi o papel de paciente, achei estranho os médicos me ignorarem. Eu contava a minha história e eles mantinham a cabeça baixa, a vista nos papéis, o interesse em tomar notas. Um médico que se preze busca a cura no olhar do paciente. Penetra-o sem o bisturi ou raio laser.

Quando findei o relato, com a sensação esquisita de que fazia um favor à saúde, vi o rosto do doutor. O par de olhos verdes do homem de branco varreu todos os lados do consultório e, quando esbarrou nos meus, notei certo espanto. Sem nem notar, eu franzia o nariz. Sem tirar os olhos dos dele.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O clima


O clima. Na falta de assunto, falamos do clima. Eu já escrevi muito sobre o clima e sobre como o clima influenciou o meu humor em Portugal. Não só o meu – o de toda a gente. E, agora, por causa do clima, resolvo partir.

Hoje o dia amanheceu cinzento. Um bando de nuvens má dispostas no céu, e o asfalto estava úmido. Garoou à noite. Neste momento já faz sol, um tímido e introspectivo sol. Mas não posso contar que será sempre assim. Começou o Outono e daqui a nada é a estação das temperaturas baixas e do guarda-chuva.

O clima. Na falta de assunto, falemos do clima. O doutor pediu para eu sair bem agasalhado e cobrir o nariz com um cachecol. O ar frio em contato com as vias respiratórias pode ser um incômodo para mim. Para alguém que talvez cultive uma asma – e eu preveria cultivar um jardim japonês, uma aventura espanhola ou uns charutos cubanos.

Amanhã, quem sabe, as nuvens cinzentas transformem-se em céu limpo, em céu azul. Não me importo de o sol ser taciturno, de despontar com certa preguiça e aquecer com parcimônia. É Primavera e as flores vão ganhar os pátios, os quintais, as janelas. Uma coisa de cada vez – como o clima costuma fazer.

O clima. Na falta de outras metáforas, usemos o clima.

domingo, 24 de outubro de 2010

O que é que a vida vai fazer de mim?


Ela é sete anos mais velha que eu, e me ensinou a ter paciência. Não que seja uma grande diferença de idade a nossa, mas pesa. Sou urgente. Ela é serena. Já fui mais urgente. Já fui urgente e ansioso, o que é pior. Aprendi a controlar a ansiedade – nunca totalmente, porque o frio na barriga também é vital. Sou urgente, querendo viver várias vidas na minha vida.

Não sei por que, nem sei bem quando, coloquei na cabeça que morreria aos 54. Meus parentes e amigos acham descabido o prelúdio. A reação costuma ser: “Deixa de ser besta, Gustavo! Que morrer aos 54 o quê!”. Sei lá, é um feeling... Independentemente disso, morrendo aos 50 ou batendo as botas aos 90, acho que meu jeito de levar a vida será igual.

Conservei a paciência em estufa apenas para continuar plantando as minhas vontades à vontade. No tempo delas. Sinceramente, não sei seguir uma trama convencional. Desculpem lá. É verdade: as obrigações e a rotina nascem da responsabilidade, e às vezes me questiono o quão irresponsável sou ao me esquivar dessas coisas. Mas é assim que me sinto pleno, que meus planos assumem vários terrenos.

A ideia é simples: a gente perde muito tempo perdendo-se no que já está perdido. Não prego podar os compromissos; rego o comprometimento com a existência.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Quando tudo muda


Este espaço tem os dias contados. Está mesmo fadado ao fim. Se não ao ponto final, pelo menos a um intervalo forçado, a um ponto e vírgula, um até logo. Confesso que não sei o que farei com o espaço. Lá se vão mais de dois anos de convivência. Tudo mudou agora – e os relatos vão perder fôlego, assim como eu.

Em breve, cruzarei o oceano de volta. Não porque quero, vejam lá. Mas porque tem coisas que a gente simplesmente não controla. E assim a vida faz graça, por mais desgraçada que seja a piada que a vida nos conta. Estou tentando absorver, como sempre, as sutis palavras do poema de Caeiro – aquele que já cansei de repetir, que já repeti até cansar, que li numa segunda-feira nublada de novembro em plena solidão da Praia Mole, em Florianópolis:

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda

Porque quando tudo muda, temos sempre dois caminhos: ceder ou mexer. Prefiro a segunda opção. Prefiro recriar estratégias, reinventar circunstâncias, repovoar os sonhos. Muito do que queria há cinco anos simplesmente já não tem mais peso, não tem mais cor. Sou diferente porque a adversidade colocou-se na minha frente e eu soube caracterizá-la.

Tenho de regressar, de dar um passo atrás para dar dois adiante. Como numa pista de dança. Vou contornando os percalços, tentando não me fazer notar. Como se eles fossem cães bravos. E enquanto esta minha vontade da intensidade continuar, enquanto a coragem me fizer companhia, enquanto a sede do novo ditar as escolhas que faço, serei inconsequente e irresponsável.

Porque quando tudo muda, temos de mudar também. A graça é essa.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Ao pintor de palavras



“Quem te deu este direito? Cadê a permissão para romper a minha calma, invadir a minha tranquilidade – que tanto lutei pra conquistar? Você veio sem avisar, decorou meia dúzia de palavras bonitas, sussurrou tonterías ao meu ouvido... e achou que bastava.

“Eu tenho ele. Ele é real, é de carne e osso. Você não. Você é um sonho, somente uma ilusão distante e passageira: com este jeito seguro, com esta convicção leviana e tão sem razão. Nós construímos uma história e, pela primeira vez na vida, sinto-me cuidada. Ele é real. Você não.

“Poderia dar certo, é verdade. O tempo diria. Talvez nunca saberemos. O único e verdadeiro amor é o impossível – foi você quem me ensinou, lembra-se? Num daqueles e-mails. E se senti qualquer coisa por ti, se te quis com ardor naquela noite e contemplei o teu sorriso belo, foi bem melhor tudo permanecer na fantasia. A realidade é um veneno, é um tapa na cara, uma bofetada em cheio. Apaguei os teus recados.

“Melhor assim. Estou feliz... você pensou o quê? Que iria acabar tudo? Que deixaria ele, que trocaria o certo pelo duvidoso? Você esteve longe – e agora está a quilômetros e quilômetros de distância. Passou. Já passou. Não há porque tocarmos de novo neste assunto. És um pintor. Un pintor de palabras. E está fadado à arte, nada mais. Está fadado ao romance apenas no papel.”

domingo, 17 de outubro de 2010

Aula de catalão*


Decidi aprender uma língua nova. Sabem como é: ultrapassei os 50% dos 27, num ritmo galopante até os 30 e, se não for agora, se adiar isso por preguiça ou cobiça, receio perder a chance que a jovialidade ainda me oferece. É que o tempo é arisco, meus caros, é traiçoeiro, é fugidio.

Sem namorada, sem casa, sem emprego, sem inspiração literária e sem meu cartão do banco (isto já é uma outra história!), fuxiquei na internet e encontrei um curso de catalão. Minha consciência, e alguns amigos, estranharam: “Você podia aprimorar o inglês, investir no espanhol, interessar-se pelo francês, pelo alemão, pelo italiano... mas não, colocou nesta teimosa cabecinha que é o catalão, justo o catalão”, esbravejou meu alter ego.

De médico e louco todo mundo tem um pouco. Outros, como eu, têm muito. Então cá estou entre os jo sóc e os fins demà do idioma. Ainda só sei o básico. João és el meu amic, me’n vaig a casa e són les set menys quart. Arranho uma ou duas sentenças após quatro módulos de “aulas”. O catalão é tão próximo do português – tanto ou mais que o castelhano – que se torna até fácil.

Também não pensem que é só na Catalunha que o idioma é posto em prática. Não senhores! Mais de 10 milhões o utilizam. O catalão é a língua oficial de Andorra. Repito: de Andorra! Ou seja, quando for para lá, irei me comunicar com classe e desenvoltura, como se fosse um... um... uma pessoa que nasce em Andorra. Conseguem vislumbrar o meu empreendedorismo cognitivo?

Já era para eu estar em Barcelona, essa é a verdadeira verdade em abraçar o catalão com tanta força, de cravar minhas unhas nas suas costas e aconchegar o rosto no seu ombro. Meu coração salta, dá um duplo twist carpado, um mortal ao inverso quando ouço falar das Ramblas, do Parc Güell, do Montjuic, da Gràcia. Nunca entenderei bem o porquê desta ligação tão íntima e visceral – não há o que entender, há o que ser vivido.
"Barcelona é uma cidade feiticeira. Mete-se-nos na pele e rouba-nos a alma sem darmos por isso." (Carlos Ruiz Zafón)
Aprendo catalão para descodificar as mensagens que Barcelona sussurra nos meus sonhos. Aprendo catalão para sentir o insentível, absorver o inabsorvível, narrar o inarrável. Poucas vezes na existência temos tanta certeza emocional de algo. Poucas vezes damos autonomia à intuição, cerramos os olhos para sermos conduzido pelo vazio.

Esta simplicidade é o meu sangue. Este desleixo, o descomprometimento, a irresponsabilidade, a subversão perante o ordenado, a regra, o senso, o mesmo é o meu afrodisíaco. A minha paixão não está propriamente nas coisas, nos gestos, nos atos. Não reside em ter ou ser. A minha paixão não é estado de espírito, não é mensurável, não é valorada. A minha paixão é.

Enquanto eu ainda a for.

* Texto de 13-10-2010

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Londres, 24-09-10


A capital inglesa é uma saga. Às vezes, uma daquelas ficções científicas que assistimos na infância. Londres gera um fascínio descabido, possui uma pluralidade de costumes e rostos que desata da cidade qualquer nó de vínculo com a ilha. Londres ainda pertence à Inglaterra por uma mera coincidência geográfica.

Tudo flerta com a diversidade, com a mistura. Das pessoas às lojas. O mais impressionante, apesar de tudo, é que as coisas funcionam com eficiência maquinal. Há uma lei de conduta implícita que dura cerca de dois séculos – enquanto isso, a imigração em Portugal deve beirar as duas décadas de existência.

O visual da urbe, tradicional e cinematográfico, também rouba a cena. A imagem imponente do Big Ben, às margens do Tâmisa, dá um realce poético ao frenesi pós-moderno. Londres para nestas horas de puro deleite contemplativo. E a fog, o clima chuvoso, o ar bucólico... tudo isso são afrodisíacos infalíveis.

Por azar, não consegui pegar a troca da guarda no Palácio de Buckingham. Nem cruzei a famosa faixa de segurança da Abbey Road. Mas nada para se lamentar. Vi desde os lépidos esquilos no Green Park aos principais pontos turísticos da capital (entre eles, os estádios Stamford Bridge, Emirates e Wembley). Passeei pelas ruas abarrotadas de gente, peguei um daqueles ônibus clássicos, bebi cerveja nos pubs, comi uns pratos típicos, pratiquei meu inglês tupiniquim, me perdi e me encontrei.

Londres permite. E se esperava muito, me surpreendi com o mais. Viajar é ter a mente e o coração abertos. Experienciar é mesmo isso.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Manchester, 22-09-10


Antes de iniciar propriamente o texto, um (desa)conselho: evitem dormir no Manchester Airport. Eu sei, eu sei... quem, afinal, iria querer dormir em tal recinto? Eu quis. Para poupar pounds. E me dei mal. A estrutura é péssima, as cadeiras são mais desconfortáveis que uma cama de um faquir e a cada 15 irritantes minutos uma voz do além trata-nos de lembrar os cuidados com a bagagem e com o carro estacionado. Uma chatice!

Bem, melhor passar logo para a parte da cidade. Será? Manchester é de uma monotonia lancinante. Pequena em seu centro, a Picadilly Gardens, acaba por reservar poucas e insossas atrações. A roda gigante que move o lugar não tem quê nem porquê. Está lá, logo atrás da Catedral. Vale o contraste somente.

O auge está no seu povo, sempre disposto e “da rua”. Como todo bom inglês que se preza, não dispensa uma sacola de compras, o fish & chips, a cerveja. Manchester lembra Liverpool, que tem alguma coisa de Dublin. Não necessariamente nessa ordem. Talvez seja pelas curtas distâncias.

Tem também, lógico, a presença maciça e numerosa do Manchester United. Visitei o imponente Old Trafford, que de velho leva apenas o nome. A arena é requintadíssima, supermoderna e bem aparelhada. O que me intriga é que os estádios brotam no seio dos bairros, entre casas e comércios – o Orlando Scarpelli, casa do Figueirense, em Florianópolis, também é assim.

Quero ver o que o Brasil vai apresentar de estrutura para o Mundial-2014. Ao analisar o que a Inglaterra dispõe fico até assustado com a nossa preparação. Aliás, a começar pelos nossos aeroportos.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Liverpool, 20-09-10


“Um pouco sem graça”. Foi o que pensei à primeira vista. Liverpool não é atrativa. Nem tem atrações. É simples, com seu cotidiano convencional de uma cidade convencional. A magia ficou no século passado e leva seis letras: Beatles.

Quando percebi isso é que tudo ganhou um novo prisma. Um prisma melhor. Porque, de resto, não há qualquer sedução especial. Sim, é divertido reparar naquelas residências típicas inglesas, que só via em filmes. Ou tentar compreender o traiçoeiro sotaque nativo, às vezes mais similar (para mim) ao alemão que ao inglês.

A Albert Docks é um alento, e depois são ruas e ruelas voltadas para o consumismo, com nomes sugestivos: White Chapel, Church Street... Nesse English Way of Life difícil comer alguma coisa que não seja óleo. Vai desde o tradicional burger até o famoso fish & chips. De preferência na companhia de uma pint da australiana Foster’s.

Mas voltando aos Fab Four, tirei um dia só para o passeio. Visitei a exposição fixa da história da banda, fui à rua (Mathew Street) onde o quarteto praticamente iniciou sua empreitada ao sucesso, estive em Penny Lane, na escola primária em que John e Paul estudaram, em Strawberry Field, na casa da infância e adolescência de Lennon, na St. Peter’s Church... enfim, uma overdose de Beatles.

Porém estar em Liverpool e não seguir a trajetória do quarteto é o mesmo que ir a Roma e não visitar o Coliseu, ao Rio e deixar de subir ao Cristo Redentor, a Paris e desprezar a Torre Eiffel, a Barcelona e sentir pouca – ou nenhuma – vontade de lá viver. Só por isso vale a pena. Precisa de mais?

domingo, 10 de outubro de 2010

Dublin, 19-09-10


Uma palavra, tão-somente, parece escassa para descrever a “movida” irlandesa. Dublin é distinta, é diversa, riquíssima em sua pluralidade. O frenesi, o vaivém de pessoas dos mais amplos mundos, não cessa nem em um domingo chuvoso. Apelidei-a de “Little London” justamente por esse aspecto. Espero para ver na capital inglesa o que deparei em Dublin, mas em proporção muito, muito maior.

De tradicional a cidade não tem nada. Cai, aliás, na mesmice de grandes urbes, sem o encanto da novidade. A arquitetura antiga, em alguns setores, traz uma certa nostalgia, sem tanto entusiasmo. As ruas são largas, uma extensa avenida beira o Royal Canal e os habitantes parecem saídos de uma metrópole.

O ambiente, de fato, é cosmopolita. Há um orgulho irlandês no povo, mas não inclina para a intolerância ou o preconceito. Até pelo contrário: Dublin aceita, preserva e valoriza a diferença. Por isso, e pela tranquilidade de entrar no país, cada vez mais brasileiro aventuram-se por lá. O português com sotaque tupiniquim é comumente ouvido na cidade, tanto à luz do dia quanto na crazy night da Temple Bar – em Edimburgo é mais fácil encontrar um anão indígena perneta que alguém do Brasil.

Aliás, é nessa rua com nome do pub mais famoso da cercania, que tudo acontece. Desde um show improvisado ao relento, com miúdas eufóricas ao ver um par de rapazes cantar Twist and Shout e Californication, até uma briga na porta de um bar, com todo aparato policial prontamente acionado (ainda flagrei um segurança de uma boate aos beijos com uma cliente!). Só Dublin mesmo.

Sem contar o desfile de tipos... digamos... esquisitos. A concorrência é forte, seja por qual for o posto. Melhor que assistir ao espetáculo de perto é assistir ao espetáculo de perto com uma Guinness. Até porque falando em Guinness, um dos melhores passeios pela capital irlandesa é na fábrica da cerveja mais famosa do mundo. Paga-se 11€ pela visita, mas além da história da marca, de saber mais sobre o processo de produção e o universo criado por Arthur Guinness em 1759, pode-se degustar uma pint no final da visita em um bar suspenso, com vista panorâmica da cidade.

Eu, como sou merecedor, saboreei a minha. Para não dizer que sou azarado, ainda ganhei outra. O local estava para fechar e o empregado trouxe a saideira, the last one. Ainda duvidei: — For free? E eis que diante do yes dele o gosto de Dublin soube ainda melhor. Cheers, fellows!

sábado, 9 de outubro de 2010

Edinburgh, 17-09-10


Não quero nem imaginar como é o inverno daqui. Se no verão, e ainda é verão oficialmente, o frio já instaurou-se convicto e ando a “fungar” o nariz, em janeiro congelaria. Mas o céu está limpo e o sol engana um pouco a sensação gélida.

Edimburgo é encantadora. Tem aspecto de cidade interiorana, pacata, velha. E olha que é a capital! As pessoas são bem dispostas e as construções lembram o período industrial. A arquitetura georgiana cede lugar à modernidade em uma ou outra ocasião. É tudo sóbrio e sombrio – melancalimente inspirador.

A Escócia tem uma história estimulante. Nada da lengalenga de William “Mel Gibson” Wallace. Procurem sobre o cão Bobby, sobre Maggie Dickson, “Bloody” Mackenzie, os serial killers da Victoria Street e a Pedra do Destino. Aliás, se a Grã Bretanha é hoje constituída por Inglaterra, País de Gales e Escócia, todos ligados pela terra, a tendência é que um braço de mar separem-nos.

No entanto isto já é falar sobre o futuro. Amanhã vamos a Dublin.

***

Coisa que gosto é misturar-me aos moradores. Parecer um deles, andar na rua com a convicção dos caminhos. Não gosto de turistar. Desconfio de tardes num museu, de enquadramentos a estátuas, de deslumbres arquitetônicos.

Gosto de ruas ermas, de parques aconchegantes, de cafés triviais. Quanto mais seguro eu percorrer a cidade, quanto menos recorrer ao mapa (ainda que custe me perder por aí), melhor. Particularidades de um flanneur.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Para a posteridade

Lá se vão mais de 20 dias sem publicar nada aqui. Desde que o blogue nasceu, é o maior período de marasmo criativo, de vazio virtual. Adianto: não foi falta de inspiração – produzi muito nos últimos tempos, mas optei pela caneta e papel.

Durante a epopeia de duas semanas no Reino Unido, carreguei um bloquinho para cima e para baixo. Ele e um livro formidável, que ganhei no meu aniversário (em abril, vejam lá!) e recomendo a qualquer ser vivo alfabetizado – também aos mortos que não sabem ler. Chama-se O Jogo do Anjo, do catalão Carlos Ruiz Zafón.

Bem, existem alguns textos em banho maria para serem servidos neste espaço nos próximos posts. Aguardo o momento certo – ou seja, quando descarregar as fotos que ilustram as aventuras vividas na Escócia, Irlanda e Inglaterra. Acalmem os ânimos que as histórias passam longe de uma fábula medieval. São apenas impressões desses lugares singulares.

Vou tentar iniciar os relatos o mais rápido possível. Imagino que tenha quatro ou cinco leitores ávidos por novidades. Não mais que isso – meus pais e minha irmã já figuram na seleta lista. Assim como as viagens por Portugal, Espanha, Grécia e Marrocos, preciso cravar na pedra virtual do blogue as experiências colecionadas.

Ainda que sirvam pouco para alguém além de mim. Servem, pois, para a posteridade. Para a minha curta e reles posteridade.