domingo, 15 de agosto de 2010

Toda racionalidade será castigada


Fernando era de uma racionalidade estéril. Fastidiosa, por vezes. No simples ato de atravessar a rua, olhava três vezes para cada lado. Só colocava o pé direito à frente quando tinha certeza de tudo: da luz vermelha, dos carros parados, da passada dos outros transeuntes, do tempo possível de travessia.

Em seu trabalho, Fernando chegava rigorosamente no horário. De uma pontualidade britânica. Nunca atrasava. Faltar? Só com aviso documentado. Era gerente de vendas em uma firma de materiais hidráulicos. Fora alçado ao cargo em poucos meses na empresa – apesar de já andar nesta mesma função há anos –, graças ao seu primor profissional.

Amou duas vezes. Na época do colégio, a Laís: uma menina de sorriso fácil, olhos de gato e pele de índia. Laís era mais nova que Fernando dois ou três anos. Ele costumava sair durante as aulas para espreitar a garota no recreio. Diante do espelho, em casa, ensaiava um olá cerebral. “Ia ser assim, assim e tal”, repetia. Laís ria baixinho e cochichava algo com as amigas quando via o rapaz de gel no cabelo se aproximar. Fernando fingia segurança, desviava o rumo e regressava à sala embaraçado.

O outro amor veio na empresa. Ainda era estagiário e caiu vertiginosamente por Carla, a secretária. Ela já era uma mulher: tinha a idade da irmã mais velha de Fernando. Davam-se bem, como nunca. Ele acordava cedo, preparava o almoço e guardava uma surpresa para Carla: um doce, um CD, um ingresso para o cinema. Viam-se todos os dias, e às folgas também.

Uma tarde de abril, o senhor Hélio chamou Fernando ao escritório. As coisas andavam mal na firma e teriam de dispensar pessoal. Três de seus subordinados iriam para o olho da rua a partir de segunda-feira. Fernando nada podia fazer. Comunicou-os o despedimento com uma lógica impecável.

Carla também foi. E Fernando só descobriu na manhã de segunda. Sua mesa vazia. Tentou contato, mas a moça passou a viver um luto – não queria saber de ninguém. Fernando insistiu numa conversa por dias, sempre considerando as razões de Carla. Depois resolveu dar espaço. Trabalhava mal, dormia pouco e suas refeições, agora, eram sem graça.

Uma noite de junho, encorajado por uns goles de tinto, lá foi ele ao apartamento dela. Tocou no 301 e nada. Recuou para ver as luzes apagadas. Sacou o celular do bolso e só ouviu a mensagem para deixar o recado. Afundou o dedo no 301. Então uma velha moradora não se conteve: saiu à janela e disse que a mocinha mudara-se; que a mocinha fez um pequeno bazar, arrumou as suas malas e foi para uma cidade de Minas, onde tinha conseguido emprego com o primo do tio de uma amiga.

Fernando sentou-se no meio-fio e pôs-se a chorar. Perdera o que coloria a sua monotonia diária. E tinha sido incapaz de expressar essa admiração, o encanto, o amor que crescia dentro dele. Passou 30 minutos sem reação – levantou-se e seguiu timidamente a sua vida racional e solitária. Carla chegou poucos minutos depois: tinha ido à locadora e trazia The Notebook na mão, para aguentar a noite sozinha.

Um comentário:

sss disse...

Desencontros... fazem da vida ilógica, mas uma grande fonte de canções.

Sara