segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Paisagens que colaram na retina



Se há uma coisa que Lisboa esbanja, além da boa comida, é o visual. Há sempre um ponto alto em que se contempla a cidade – de dia ou noite – e o Tejo. Porque a imponência do rio que deságua no Atlântico não é mito ou poesia. Melhor: não é somente mito e apenas poesia.

Dos miradouros espalhados pelas Sete Colinas tenho a noção  exata do que me despeço em breve. É do São Pedro de Alcântara, ponto comum de moradores e turistas, que irei sentir mais falta. Aquele belvedere cativou-me pela sua simplicidade e localização, seu espírito acolhedor e mistura instigante, seu ritmo cultural e lindas frequentadoras. Claro: e pela vista.

Situado do lado de cá, olhando da direita para a esquerda, pode-se ver o Tejo, a Sé Catedral, o Castelo de São Jorge, a Igreja da Graça, o Miradouro de Nossa Senhora do Monte, o Jardim do Torel, o Marquês de Pombal. Acho que decorei essa paisagem. Ela já colou-se na minha retina.

Tem ainda três... não, cinco... quer dizer, seis outros topos impressionantes. Um é no Elevador de Santa Justa. Quer subindo-o de maneira convencional, quer pelo acesso do Convento do Carmo, vale a pena a visita. Já lá fui umas tantas vezes – sozinho, levado ou acompanhando. Faço questão deste passeio quando estou de cicerone (ainda que há muito isso não aconteça).

Depois tem a Pollux. É uma loja de departamento na Rua da Madalena. Uma espécie de Ikea português. No cume do seu não muito alto prédio há um café. A dica é pedir uma torrada, um galão e levar um livro para esperar o pôr-do-sol. Mas só dá para ser admirado no outono/inverno. Fecha às 19h e, no verão, esse horário ainda ostenta um céu clarinho-clarinho.

Para os lados da Sé existem dois miradouros muita giros. Primeiro, o de Santa Luzia. A melhor altura para sentar e curtir um som africano é na primavera. As árvores estão carregadas e o visual é espetacular. Um pouco adiante tem o Portas do Sol, com uma agradável esplanada, mas que sinceramente lembro pouco. Ah, e já quase ia esquecendo da famosa vista do Chapitô (já na subida do Castelo).

Bem, para fechar – porque citei um a mais que prometi – tem o melhor belvedere do lado de lá. É o de Nossa Senhora do Monte. Para chegar é preciso carro ou disposição. Como não tenho o primeiro, me sobra o segundo. A ladeira de acesso é das mais íngremes que já vi (só perde mesmo para a casa de uma garçonete que andei aos beijos em Floripa. Mas ao contrário do Cristiano Ronaldo, não engravidei ninguém).

Tanto esforço vale para "fincar a bandeira" no topo. E se vale! Aquilo é mesmo um Olimpo: tem-se a visão completa e perfeita de Lisboa. Sente-se um deus. Antes de ir embora tenho de visitar o miradouro. Sei que dará um aperto imenso no peito, mas é o jeito. Será mais uma bela paisagem para colar na minha retina. Para sempre.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Pensamentos altos de um anfitrião



Eu aprendi a dissimular. É que com esse artifício a dor é mais amena. Aprendi a evitar o eterno, ainda mais quando o assunto é despedida. Crer num reencontro pode ser enganar-se, mas conforta. E, afinal, estamos sempre a inventar contos para nós mesmos – que mal faz?

Já vejo a cidade com outros olhos. Não de saudosismo, mas da saudade. Recebi um casal de amigos crus de Lisboa e relatar o que os espera é quase como viver de novo dois anos que mais parecem 10. O tempo que voa e escorre entre os dedos é o mesmo que parece prolongar-se por séculos.

Revisito as Sete Colinas com um misto de sensações estranhas. Sinto-me aliviado por transcender, por prosseguir meu caminho – afinal, sou feito de movimento. Mas preservo este vazio das coisas simples que juntei nesta aventura: amigos, memórias, valores e fantasias.

Não me arrependo de escolher o adeus. Nem irei me arrepender num dia adverso, numa noite de solidão. Quando piso o próximo passo, esqueço de olhar pra trás. Não vale a pena. O meu melhor empreendimento responde pelo nome de experiência. Pode não trazer uma carreira de sucesso ou segurança financeira, mas a bem da verdade nunca foi essa a minha determinação.

Ainda sou mais dissimular o peso e subverter a vida que deixar-me ceder à preocupação. Tudo é muito fugaz.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Trabalhos que me dignificaram

Parece nome de quadro do Fantástico. Mas não. É mesmo um ou outro ofício em Portugal que contou à minha experiência de vida. Por exemplo, os empregados de mesa tiveram um ilustre colega por sete meses: eu!

Não é falta de modéstia. Desempenhei bem a função de tirar e servir café na Cacao Sampaka. Para quem nunca tinha feito isso, saí-me com extraordinário desempenho para a coisa. O saldo foi algumas louças destruídas, uns cortes e machucados, várias e várias mesas postas e retiradas, simpatia distribuída, amizades feitas e lembranças inesgostáveis – e inesquecíveis.

Para além de tudo, diverti-me demais. Era duro acordar cedo aos fins de semana, debaixo de chuva e/ou frio, pegar dois metros e andar mais um bocado para chegar ao Centro Comercial das Amoreiras. Só que isso era viver. E vivi com absoluta plenitude. Ainda voltei a trabalhar (por um mês) no mesmo local, alguns meses depois de sair, na loja de chocolates. Foi outra deliciosa diversão.

Tive, ainda, o estágio e as colaborações para o jornalismo. N’O Jogo, aguentei uma semana de trabalho não-remunerado. Das 7h às 15h fazia o clipping. Das 16h à 0h era responsável por notas sobre o mundo do futebol internacional. Impossível suportar o ritmo – ainda mais quando o que fazia no diário desportivo era ínfimo e pouco valorizado.

Quanto aos frilas, também nada muito pomposo. Em fevereiro do ano passado, cobri um dérbi lisboeta: Sporting 3-2 Benfica. Estar na tribuna de imprensa do Alvalade foi uma experiência transcendental que espero repetir por muitos estádios europeus. Desta vez, durante o Mundial-2010, fiz dois “ambientais” – antes e depois – do embate Brasil-Portugal para a Zero Hora. O pessoal de Porto Alegre gostou dos textos.

Por fim, hoje em dia divido a labuta na MediaMonitor, todo santo dia de 13h às 21h, com umas traduções do português PT para o BR. É mais um meio de ganhar uns trocos e estar próximo ao idioma que tanto admiro e considero. Porque pelo menos no trato com a palavra escrita eu me garanto. Ah, e em tirar café, agora, também!

sábado, 21 de agosto de 2010

As pessoas que conheci



Ganhei uma família em Portugal. Tem pai, mãe, irmã, tios, primos, cunhado. É que na nossa fantasia diária, no imaginário que criámos para poder superar dores e partilhar alegrias, acabámos por nos unir e sermos um todo.

Não sei nem por onde começar, mas não acreditava tanto neste poder. Quintana disse que o amor é quando a gente mora no outro: e posso afirmar, com convicção cósmica, que cada um de vocês vive em mim – cuidadosamente dentro das minhas memórias e emoções. Cada um de vocês soube me fazer uma pessoa melhor. Rir das minhas graças sempre foi mais que mostrar os dentes – foi devolver-me este meu jeito brincalhão e divertido, que eu há muito tinha esquecido que era tão revigorante.

Acabei de assistir à A Vida é Bela, com Roberto Benigni, e me senti um pouco como ele. Um parvo que aguça a magia ao redor porque acha que a vida é, de fato, de uma beleza única. Um sujeito que divide no coração estes contos que colecionámos juntos por aí. Muito obrigado...

... Ju, pela felicidade e intensidade em todas as pequenas coisas da vida;
... Sol, pelo carinho materno e por abrir a porta naquela manhã de outubro;
... Dani, pela preocupação constante e a honestidade, pelas cervejas e amizade;
... Joel, por ser também do Flamengo e por partilhar a vulnerabilidade dos poetas;
... Sofia, pelo ritmo frenético e pela amabilidade tão própria da Margem Sul;
... Jana, pelo jeito louquinho de ser, a ótima viagem a Barna e os dilemas;
... Gui, por conservar este jeito puro e devolver à Ju a crença no amor;
... Rebeca, pelas conversas ininterruptas e as descobertas lado a lado;
... Anabela, pelo amadurecimento que nos instigou e o apego mesmo à distância;
... Ernesto, pelos momentos de sabedoria e as polémicas acalentadas;
... Joana, pelo fósforos grandes, as estórias a lápis e o enlace de solidões;
... Sarinha, pela espontaneidade e os gelados do Fragoletto;
... Fra, pela também desaprovação ao Felipe Melo e o humor sarcástico;
... Jorge, pelas piadas de duplo sentido e o único jogo de futebol em Lisboa;
... Nico, pelo respeito, pelo sushi e as parvoices ditas como se fosse um miúdo;
... Rui, pelas rameirasshots e o excelente coração que tens;
... Rita, pela sua abertura à minha alegria e a paciência;
... Tiago, pelas anedotas sem graça que tornava-as engraçadas;
... Marcelo, pelos sítios apresentados e os clipes curtidos no Facebook;
... Guilhoto, pelas filosofias de vida trocadas e a maturidade;
... Helena, pela ótima chefe que sempre foste, compreensiva e sincera;
... Dago e Lari, pelas portas da casa aberta, os passeios e brindes.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Lugares onde vivi


Foram cinco. Não arregalem os olhos assim. Sim, estou na sexta moradia em Lisboa em pouco menos de dois anos. Mas não se surpreendam: viver em quarto é por aí...

A começar que inexiste contrato. É verbal. No máximo, uma caução de um mês. Pronto. Aconteceu alguma coisa de mau na casa ou simplesmente encheu o saco daquele pedaço, pumba!, adeus. Um ensinamento vital é: quanto menos tralha juntar, melhor.

Estive na Penha de França três meses. Era um apartamento “familiar”. Tinha a Paula, uma mulher um tanto intrometida na história dos moradores. O meu quarto era o da empregada, colado à cozinha. Não dava muito certo.

De lá, pulei para Arroios. Um espaço enorme na Pascoal de Melo, uma perpendicular à Almirante Reis, próximo ao Portugália. Quem conhece sabe. Passei ótimos tempos naquela casa. Um tanto bagunçada, é verdade. Mas foram bons. Em certo período – éramos cinco: eu, Marcelino, João, José e Cláudia –, o apartamento acomodou 10 pessoas. Pior de tudo foi quando coisas minhas começaram a sumir da geladeira.

Arrumei as malas e fui morar em... bem, aquilo é perto de Picoas. Foram alguns meses antes da viagem ao Brasil e, coincidentemente, quando regressei, havia uma vaga. Ao todo, fiquei meio ano lá. Teve ainda a Travessa da Madalena, cafofo (no bom sentido) que a Sol e o Dani abriram para mim enquanto matavam saudades de Recife.

Por último, o melhor de todos: Príncipe Real. E no verão! Ou seja, uma excelente localização, com um belo jardim logo à frente, poucos metros do Bairro Alto e do Miradouro de S. Pedro de Alcântara... tudo isso a um preço razoável. Pena que as coisas escorregaram quando menos parecia. Faz parte da aventura de ir-e-vir.

Agora cá estou a 10 minutos do trabalho, ao pé do Campo Mártires da Pátria. Mais uma vez, na casa da Sol e do Dani (que desta vez estão em Londres). Agradecê-los neste texto é o mínimo que posso fazer. Vou é lançar um convite: quando forem para qualquer cidade onde eu estiver, dispensem hotel. Farei questão de tê-los como visita. Nem que seja para revezarmos o sono.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

O post número 390



Daqui a um mês estarei longe de Lisboa e darei início ao fim de dois anos em Portugal. Não é hora de lamentos, recordações ou despedidas. Cada coisa tem o seu tempo e é preciso respeitar isso. O fato é que quero começar a registrar as minhas impressões gerais e específicas da terrinha. Como forma de “diário” mesmo, porque este blogue caiu num marasmo vertiginoso.

Bem, ainda não é hoje, afinal estou irremediavelmente cansado. Ler cada um dos 389 posts é um quebra-cabeça divertido e emocional, por isso vou tentar ser fiel a uma espécie de amadorismo descritivo. Em outras palavras, não vou entrar no âmbito da prestação de serviços, da análise formal, do manual de instruções.

Serei mesmo o que sempre fui: o que escrevo e o que calo.

domingo, 15 de agosto de 2010

Toda racionalidade será castigada


Fernando era de uma racionalidade estéril. Fastidiosa, por vezes. No simples ato de atravessar a rua, olhava três vezes para cada lado. Só colocava o pé direito à frente quando tinha certeza de tudo: da luz vermelha, dos carros parados, da passada dos outros transeuntes, do tempo possível de travessia.

Em seu trabalho, Fernando chegava rigorosamente no horário. De uma pontualidade britânica. Nunca atrasava. Faltar? Só com aviso documentado. Era gerente de vendas em uma firma de materiais hidráulicos. Fora alçado ao cargo em poucos meses na empresa – apesar de já andar nesta mesma função há anos –, graças ao seu primor profissional.

Amou duas vezes. Na época do colégio, a Laís: uma menina de sorriso fácil, olhos de gato e pele de índia. Laís era mais nova que Fernando dois ou três anos. Ele costumava sair durante as aulas para espreitar a garota no recreio. Diante do espelho, em casa, ensaiava um olá cerebral. “Ia ser assim, assim e tal”, repetia. Laís ria baixinho e cochichava algo com as amigas quando via o rapaz de gel no cabelo se aproximar. Fernando fingia segurança, desviava o rumo e regressava à sala embaraçado.

O outro amor veio na empresa. Ainda era estagiário e caiu vertiginosamente por Carla, a secretária. Ela já era uma mulher: tinha a idade da irmã mais velha de Fernando. Davam-se bem, como nunca. Ele acordava cedo, preparava o almoço e guardava uma surpresa para Carla: um doce, um CD, um ingresso para o cinema. Viam-se todos os dias, e às folgas também.

Uma tarde de abril, o senhor Hélio chamou Fernando ao escritório. As coisas andavam mal na firma e teriam de dispensar pessoal. Três de seus subordinados iriam para o olho da rua a partir de segunda-feira. Fernando nada podia fazer. Comunicou-os o despedimento com uma lógica impecável.

Carla também foi. E Fernando só descobriu na manhã de segunda. Sua mesa vazia. Tentou contato, mas a moça passou a viver um luto – não queria saber de ninguém. Fernando insistiu numa conversa por dias, sempre considerando as razões de Carla. Depois resolveu dar espaço. Trabalhava mal, dormia pouco e suas refeições, agora, eram sem graça.

Uma noite de junho, encorajado por uns goles de tinto, lá foi ele ao apartamento dela. Tocou no 301 e nada. Recuou para ver as luzes apagadas. Sacou o celular do bolso e só ouviu a mensagem para deixar o recado. Afundou o dedo no 301. Então uma velha moradora não se conteve: saiu à janela e disse que a mocinha mudara-se; que a mocinha fez um pequeno bazar, arrumou as suas malas e foi para uma cidade de Minas, onde tinha conseguido emprego com o primo do tio de uma amiga.

Fernando sentou-se no meio-fio e pôs-se a chorar. Perdera o que coloria a sua monotonia diária. E tinha sido incapaz de expressar essa admiração, o encanto, o amor que crescia dentro dele. Passou 30 minutos sem reação – levantou-se e seguiu timidamente a sua vida racional e solitária. Carla chegou poucos minutos depois: tinha ido à locadora e trazia The Notebook na mão, para aguentar a noite sozinha.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Sede de experiências



Ora, meus amigos, se sumi esta semana foi porque estive em contato com a vida. Mas não vou enchê-los com filosofias baratas de sensações difusas. Para os poucos que (ainda) seguem as minhas peripécias d’além mar, orgulha-me dizer que construí um mundo particular nos (quase) dois anos em Lisboa.

A começar pela própria cidade. Chegar sem saber de nada, totalmente nu e exposto a tudo, é das sensações mais assustadoras que há. E, curiosamente, um afrodisíaco natural infalível. Recordo de quando pisei o solo português: meu coração saltou à boca e vi que realizava um objetivo sonhado – apesar de ter noção que aquilo era o início de tudo, nunca o fim.

Depois vamos para as pessoas que me cercam. É precioso sentir que ainda há gente de boa índole, de espírito agregador no mundo. Com o perigo de esquecer alguém, prefiro não citar nomes. Mas hoje valorizo a partilha, o abraço (físico ou simbólico), o companheirismo. Somos uma família aqui, que se ajuda e fortifica. E é tão bom sentir-se cercado de excelentes almas.

Tem também a questão do emprego. De ganhar a vida com honestidade e suor. Ralei sete meses em um café, com a maior energia. Era duro, era penoso, era desgastante. Às vezes arrastava-me de volta para casa – mas nunca perdi o sorriso e a simpatia ao atender os clientes. Aprendi muito.

Veio, então, o clipping. Fazer o que um estagiário de comunicação faz no Brasil. Não que seja um ofício menor. Longe disso: é de uma relevância gigantesca – tal qual a saudade de sujar a mão com jornais. Conheci o universo da imprensa lusa e, mais enriquecedor, conheci figuras inesquecíveis. Hoje, para além disso, traduzo (isso mesmo!) textos do português de Portugal para o do Brasil.

São conquistas. Árduas e merecidas. Conquistas que motivam-me a buscar mais e mais desafios. Satisfeito? Talvez nunca fique. Mas é tal qual a sede: por mais que a sacie naquele momento, ela sempre voltará. E então vou tomar outro copo d’água.

domingo, 8 de agosto de 2010

A (não) revelação de querer ser pai

Pai. Tantos a evitarem e eu a querer. Mas ssshhhh, não contem a ninguém. Acho que isto não ajuda lá grande coisa nos dias de hoje. Digo na paquera, na conquista, no flerte (os portugueses têm um termo pesado para esta saborosa aproximação: engate).

O fato é que as mulheres andam a fugir de filhos. Andam a esquivar-se de homens à moda antiga, dos gentlemen sonhadores. São uns bobos, uns manés, uns desatuais, uns livros na era dos iPads. O aspirante a pai, ainda que nem namorada tenha, é um quasímodo.

Mas olha, não contem a ninguém que revelei tudo isso. Até porque ia falar de outra coisa neste texto e acabei por ser pego no impulso da data. Sim, porque hoje é Dia dos Pais no Brasil. Meu progenitor que o diga: não o parabenizei ainda (são 21h30 em Lisboa e quatro horas a menos em Brasília).

Uns tempos atrás avisei-o das minhas peripécias. Ou da continuidade das minhas peripécias, para ser justo com a conjuntura. E de algo que nunca posso reclamar é do apoio dele nas minhas decisões mais estapafúrdias. Penso, analiso, pondero e comunico: ele sempre tem palavras de incentivo, sempre faz questão de frisar que está comigo para o que der e vier.

Não só ele: minha mãe e irmã também. Mas o tema é pai, ainda que fosse escrever sobre uns singelos presentes que andei por aí a ganhar e de uma visita guiada a uma praia estrelada – afinal, tanto o receber quanto o contemplar são dois poemas em prosa que ainda vou partilhar. Meu pai, tenho certeza, fica orgulhoso desta maneira que tento conduzir a minha trajetória: abraço cada momento.

Por isso, e por diversas razões a mais, queria ser pai. Tudo bem que não paro quieto em um canto. Estou em mudança contínua, atrás de aventuras dentro e fora de mim, inquieto por absorver, sorver, ver, er, r. Até a última gota. Mas o amor – ah, o amor! – é a maior dessas aventuras. Inclusive na forma da paternidade. Só que, vejam lá, não contem a ninguém...

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Nostalgia, nostalgia



Ando um bocado nostálgico. Talvez assim já esteja há tempos. Repito-me, de fato. Passei a reler os primeiros textos do blogue, quando todos estes devaneios portugueses ainda eram mera sensação nebulosa, uma especulação fluida d’além mar. Naquelas despretensiosas linhas estavam as expectativas e os sonhos da nova saga; constavam os medos e as interrogações de um recomeço.

A gente supera tudo. Essa é a verdade calcificante. Supera a saudade e a carência. Supera os estudos e a falta de grana. Supera a puxada de tapete e a porta na cara. Supera a solidão, estar perdido, má educação, frio intenso, azar e cara feia. E foi tanta coisa que passei... pensando muito bem agora, com as emoções, sinto orgulho de mim.

Desculpem, leitores, o egocentrismo. Desculpem no que este espaço se tornou. Estou um bocado nostálgico e demasiado narcisista. Olhar para trás e ver o quanto parecia árduo, incerto, improvável às vezes, é sentir que arrisquei, que ousei, que vivi. Daí, então, a satisfação de colecionar histórias, acumular contos – e pontos – na minha trajetória.

Faltam 60 dias. Não sei como vou aguentar uma (nova) despedida. Tenho me especializado em adeuses. Mas irei superar. Assim todos acabámos por fazer. E cada um toma o seu rumo na vida, cada um segue para o seu lugar. O duro é perceber que tudo tem o seu prazo, o seu tempo, o seu fim... ainda que não acabe por completo.

Estou um bocado nostálgico de tudo que fui vivendo nesses últimos dois anos – assim mesmo no gerúndio. De tudo que aprendi neste ínterim, das amizades que cultivei, das pessoas que cruzaram o meu caminho, das adversidades que venci, dos momentos que criei. Isso não se mede. Estou nostálgico agora, buscando reviver na memória tudo o que passei – tudo que passámos, meus amigos.

Deixa o aperto para amanhã.