sábado, 24 de julho de 2010

Qualquer texto é merda. Qualquer merda é bem-vinda.


Há qualquer coisa de repetição nas palavras que me enerva. Dizem que a redundância é vital para fixar uma ideia. O cronista há de bater o martelo muitas vezes até cravar o prego das suas convicções. Mas não quero ser enfadonho, chato, insistente.

Andei por ler antigos textos deste blogue. Blogue não, diário. De bordo, talvez. Recordo que comecei a escrever com o intuito de publicar um livro com as memórias desta jornada. E, de fato, há muita peça boa aqui – mas já não existe valor editorial, peso literário.

É verdade que publica-se qualquer merda hoje em dia. Estive a ver títulos de obras na última vez na Fnac do Chiado, com a Sofia e o Ricardo. Chegámos à conclusão que tão banal quanto plantar uma árvore e fazer um filho é dar a luz a um livro. De capa dura e estilizada. E julgam livros por aí: pela capa.

Talvez Bernardo Soares estivesse certo e nunca serei nada mais que um desassossegado autor de obras inexistentes. “Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida”, ensinou o guardador de livros da Rua dos Douradores. Só me resta sonhar com minhas linhas sendo exploradas com carinho enternecedor.

Enquanto deliro, “sou o intervalo entre o sou e o que não sou”. Traço planos e repito vontades. Eu não sei ser são, ser menos, ser vazio dessas inquietações plenas e crescentes. Vou caminhando pelas ruas de Lisboa tentando colar na retina as imagens que já fazem parte da rotina nos últimos 22 meses. E, prestes a fechar dois anos, preparo um novo adeus.

Não sei bem onde vou chegar com esse vai-e-vem. Mas preciso. Como respirar e escrever: preciso – e sei que sentem isso em mim também, partilham disso ao mirar bem dentro dos meus olhos. Tenho medo, não se surpreendam com a declaração. Tenho medo não da partida ou da chegada; não da novidade, do recomeço, do desbravamento. Tenho medo de que esse ímpeto nunca cesse, que nunca finde a necessidade de ir e vir.

Preciso postar mais coisas de Lisboa. A cidade tem tanto a ser apresentada e debruço-me sobre mim com um narcisismo leviano, fútil, inepto. Prometo fazer de Agosto um mês de nostalgia presente. Até porque o futuro reserva mudanças. E assim que tiver definido-as comunico. Por enquanto, sonho. E planejo. E abasteço o meu recipiente vital com poesia em forma de ideias. Ou, em outras palavras, com energia sensorial.

Nenhum comentário: