terça-feira, 20 de julho de 2010

No banco da praça


Um dia desses sentei-me ao meu lado no banco da praça. Estava sozinho e jogava migalhas de pão aos pombos. Tinha o ar calmo, uma naturalidade típica em todos os gestos: os fios de cabelo já estavam grisalhos, as costas pareciam pesar, as mãos, por vezes, tremiam sem controle.

Olhei para mim com certa ansiedade juvenil. Eu havia chegado aos 70 e, afinal, como seria o meu dia-a-dia? Trabalhava ou já teria me aposentado? Conservava o prazer pela escrita ou havia abdicado das letras? Era casado ou solteiro? Solitário ou avô? Ainda deleitava-me com o futebol ou estava farto do jogo?

Confesso que sempre imaginei a minha velhice repleta de entusiasmo, de netos, de energia, de sorrisos mútuos e permanentes. O que via, porém, com melancolia presente, era um futuro tão parecido com o hoje.

Talvez, naquele banco ao meu lado, eu estivesse apenas a refugiar-me de uma casa cheia de crianças a correr e a gritar, de mulheres em suas conversas de salão, da televisão no programa de sempre, do cão a me chamar para brincar. Ou seja, de uma saudável confusão.

Talvez fosse isso. Mas, quem sabe, e essa hipótese não se pode descartar, fosse viúvo. Tivesse perdido recentemente minha companheira de anos, aquela que ajudou-me a superar momentos ruins, agarrou os meus braços nas alegrias, esteve sempre comigo. E meus filhos morassem no exterior, assim como já morei, e eu gastasse horas a fio aos fins de semana alimentando pombos e tecendo poemas mentais.

Quiçá eu nunca tenha casado. Afinal, andasse sozinho. Tivesse tido paixões prosaicas, amores sublimes e impossíveis. E os amigos, aos domingos, entre suas famílias, me convidassem para almoçar em vossos lares, mas eu agendasse qualquer desculpa previamente, inventasse compromissos imaginários para não parecer um intruso na felicidade real. E, com medo de sentirem pena de mim, me afastasse mais e mais.

Talvez, mesmo com as dores nos joelhos e um cansaço mortificante, preferisse pôr-me a caminhar sem rumo. Para sentar num banco de praça, ao lado de um rapaz de bloquinho na mão, e pensar, enquanto despedaçasse um pão, como deve ser a vida dele. E que era eu ali, uns anos atrás.

3 comentários:

Soraya Barreto disse...

Que lindo Gu!

Mary Jo disse...

Imagino-me várias vezes no futuro. Aliás em cada pessoa que passa por nós na rua há algo que nos faz pensar nisso. Sobretudo os mais velhos.
O que mais desejo é envelhecer não sentada num banco do jardim, mas à beira mar. Sentar na areia e molhar os pés. Olhar para o lado e ver uns outros pés, também já marcados pelo tempo, e de seguida enconstar a cabeça ao ombro já cansado que durante anos poderá amparar-me. =)

(seria mágico, não seria?)

beijooooooo

Leandro Afonso Guimarães disse...

Belo, Gustavo. Belo!

O texto, com essa questão de futuro, força da imagem e divagações, lembra demais o curta LA JETÉE (1962), de Chris Marker.

São 28 minutos, apenas com imagens a princípio estáticas, só que com força, minimalismo e final absurdos. Daria uma ótima sessão dupla com seu texto.

Abraços!