quarta-feira, 14 de julho de 2010

Ela e ele


Estava ela com seu cigarro pela metade, escorada no parapeito do miradouro. Fuçava o céu, e a fumaça que soprava entre os lábios misturava-se às nuvens. Esperava. Sem lamentos ou pressas – pensava no que havia feito no dia, o que faria no amanhã. Esperava alguma coisa que nem ela sabia dizer o que era.

Ele manteve-se inerte, sentado no banco como quem conta favas. Tinha o copo meio cheio, de uma cerveja já quente. Era verão. Verão apenas não: era muito verão. Reparava no vaivém das pessoas, seus encontros, seus adeuses. E acumulava todos os sentimentos presentes. Jogou o resto da bebida no chão.

Ela caminhou até o ponto e pegou o primeiro ônibus. Não tinha rumo, não tinha vontade de regressar à casa – lá, ninguém a aguardava. Desenhou corações na janela embaçada, lembrou um poema do Neruda, buscou no celular um contato para mandar mensagem. Não encontrou destinatário.

Aquela rotina já o desgastava. Não era do tipo que apreciava a mesmice. Mais que isso: era do tipo que necessitava de mudanças. Quase um vício. Abdicou do itinerário comum e decidiu caminhar. O frio trincava-lhe os dentes, expurgava-lhe a alma, congelava-lhe as esperanças.

Há muito ela não ia ao café austríaco. Criou coragem para sair do quarto. Estava enclausurada, metida entre almofadas e romances, por dias e dias. Ele era frequentador assíduo. Pedia sempre torrada e capuccino. Abria o jornal de trás para frente e pescava as notícias boas.

Sentaram-se perto um do outro. Ela, no sofá verde-abacate. Ele, em uma das mesas cinzentas. Trocaram curiosidades nos olhares, confidências mudas. Ela esboçou um sorriso. Ele perdeu a concentração na leitura.

Estavam a poucos metros. Duas solidões que se abraçam, que se enroscam, se deglutem. Ela preparou o tabaco. Ele prescindiu do capuccino: pediu uma pilsen e pôs-se a ler o horóscopo. Ela dissimulava o acanhamento brincando com o cabelo.

Não trocaram uma única palavra. Cruzaram desejos claros, mas enganaram-se com desculpas silenciosas. Ele levantou-se. Ela transpirou. Ele caminhou em sua direção. Ela trocou as pernas cruzadas. Ele titubeou, desviou os olhos, sacou a carteira do bolso, pagou a fatura e saiu pela porta.

Ela permaneceu sozinha, no desamparo, no desassossego. Podia ter agido, puxado conversa, sorrido com mais veemência. Fez sinal pela conta. O empregado trouxe uma folha com um nome e um número de telefone. Era dele.

No sábado seguinte, esperava-o escorada no parapeito do miradouro, com seu cigarro quase vazio. De um banco, ele observava, com o copo perto do fim. Ela era ele. Ele era ela.

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