quinta-feira, 29 de julho de 2010

A alma é imortal


— Nelson... bom dia.
— Olá Gustavo. Como foi lá?
— Desculpa não ter dito nada ontem. Fui celebrar o êxito com os amigos.
— Então quer dizer que tudo correu bem...
— Sim, sim. Dezesseis, Nelson. Tirei 16, de 20. Mas isso representa pouco, ou quase nada. O mais gratificante foi ver que gostaram da tese, de como estava escrita, da abordagem e do tema. Criticaram, é verdade, a parte técnica, a metodologia, o pouco caráter acadêmico do trabalho.
— Toda unanimidade é burra, meu caro. E, afinal de contas, o artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros, não é verdade?
— Gênio ou imbecil, a verdade é que sinto-me um aprendiz. Fiquei contente em poder te representar e apresentar a professores-doutores que te conheciam por alto, aguçá-los a vontade de ler mais da sua obra, de buscarem mais textos seus.
— ...
— Sabe, Nelson, depositei muito de mim neste trabalho, das minhas glórias e tragédias, e o fiz com a paixão que o senhor diz que bebiam um copo d’água em 1911. Tive a sorte da leiteria de Castilho com um júri bem disposto e preparado. Mas, afinal, sem o mínimo de sorte não consegue-se nem chupar um chicabon, não é? E, acima de tudo, procurei enxergar mais que a bola, este reles, este ínfimo detalhe. Busquei ver o futebol sob a sua ótica e constatei o que uma vez revelaste ao Otto Lara: que a alma é, de fato, imortal.
— ...
— Nelson, não precisa de palavras. O senhor é um gênio indubitável. Digo e repito: um gênio. Podia virar-se para Michelangelo, Homero, Dante ou Pelé e cumprimentá-los, com íntima efusão: “Como vai, colega?”. Assim como Michelangelo é o Nelson da pintura, da escultura, assim como Pelé é o Nelson da bola, Nelson é o Pelé das crónicas desportivas, é o Michelangelo dos contos do cotidiano.
— ...
— Obrigado, mestre.

2 comentários:

Sandryne Barreto disse...

Poxa, Gustavo...compartilha o telefone do cara, queria tanto trocar uma idéias com ele também! Parabéns, de novo, meu nobre! Você verdadeiramente merece. Xero.

Sandryne Barreto disse...
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