sábado, 31 de julho de 2010

E agora, Gustavo?



Agora que tudo completou-se, que terminei o que tinha começado, que cumpri a minha obrigação quando, dois anos atrás, decidi vir para Portugal, agora que coloco um ponto final nesta trajetória tão rica, renascem as perguntas: – Então, o que você vai fazer?

Pertinente, muito pertinente. E juro que responderia se soubesse ao certo. Vou cair no mundo, vou abrir de novo as asas e retomar um gosto que me percorre por inteiro: o de viajar. Tenho planos e metas, sonhos e desejos. Por essa trilha de pedregulhos, sinuosa e desabitada, é que curto caminhar.

Sim, meus caros, minhas ideias fervem. Talvez já tenha decidido o rumo, mas prefiro o silêncio – aquele silêncio que faz quando as nuvens, de passagem, tapam o sol. O meu frio na barriga também existe, também é real. Mas ele motiva-me, instiga-me a continuar. O que encontrarei do outro lado da porta?

Por enquanto é de Lisboa que sou feito. E será assim por agosto, o ápice do verão. Nesta altura, confesso, é quando tenho mais saudade de Floripa. Ando com uma nostalgia praiana: do Matadeiro, Campeche, Moçambique, Brava e até Mole e Joaca. Uma nostalgia boba, que abraça tudo de uma vez – sem preferências.

Mas também já olho ao redor com um pesar leve, uma lágrima contida. É que será difícil abandonar tanta paisagem marcante, elementos que deixaram os cartões postais para enfeitar o meu cotidiano. Vou deixando um bocadinho de mim nos lugares, absorvendo um bocadinho dos lugares, e isso, ao final, tece o meu caráter.

“Metade de mim é partida. A outra metade é saudade.”

quinta-feira, 29 de julho de 2010

A alma é imortal


— Nelson... bom dia.
— Olá Gustavo. Como foi lá?
— Desculpa não ter dito nada ontem. Fui celebrar o êxito com os amigos.
— Então quer dizer que tudo correu bem...
— Sim, sim. Dezesseis, Nelson. Tirei 16, de 20. Mas isso representa pouco, ou quase nada. O mais gratificante foi ver que gostaram da tese, de como estava escrita, da abordagem e do tema. Criticaram, é verdade, a parte técnica, a metodologia, o pouco caráter acadêmico do trabalho.
— Toda unanimidade é burra, meu caro. E, afinal de contas, o artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros, não é verdade?
— Gênio ou imbecil, a verdade é que sinto-me um aprendiz. Fiquei contente em poder te representar e apresentar a professores-doutores que te conheciam por alto, aguçá-los a vontade de ler mais da sua obra, de buscarem mais textos seus.
— ...
— Sabe, Nelson, depositei muito de mim neste trabalho, das minhas glórias e tragédias, e o fiz com a paixão que o senhor diz que bebiam um copo d’água em 1911. Tive a sorte da leiteria de Castilho com um júri bem disposto e preparado. Mas, afinal, sem o mínimo de sorte não consegue-se nem chupar um chicabon, não é? E, acima de tudo, procurei enxergar mais que a bola, este reles, este ínfimo detalhe. Busquei ver o futebol sob a sua ótica e constatei o que uma vez revelaste ao Otto Lara: que a alma é, de fato, imortal.
— ...
— Nelson, não precisa de palavras. O senhor é um gênio indubitável. Digo e repito: um gênio. Podia virar-se para Michelangelo, Homero, Dante ou Pelé e cumprimentá-los, com íntima efusão: “Como vai, colega?”. Assim como Michelangelo é o Nelson da pintura, da escultura, assim como Pelé é o Nelson da bola, Nelson é o Pelé das crónicas desportivas, é o Michelangelo dos contos do cotidiano.
— ...
— Obrigado, mestre.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Pior para os fatos



— Alô, Nelson? Oi Nelson, é já amanhã!
— Gustavo... eu sei, Gustavo. Já havias me dito.
— Ah, desculpa a insistência. É que mandei um e-mail e o senhor não respondeu. Achei que nem visse os e-mails, que nem ligasse para essa coisa de informática.
— De fato, não vi mesmo. Nem sei usar aquilo. Foi o Armando... o Armando que leu para mim. Ele entende mais dessas tecnologias. Já eu, eu sou um imbecil de babar na gravata. Um quadrúpede de 28 patas!
— Não importa, Nelson. Já sabes: é amanhã! Amanhã! Vais lá estar?
— Não posso.
— Mas...
— Eu sei, eu sei. Dirá que o trabalho é sobre mim. Ou sobre as minhas crônicas. Vocês, jovens, são uns cretinos fundamentais, têm o hábito de se acharem importantes. O jovem só pode ser levado a sério quando fica velho. O trabalho não é sobre mim, é sobre os personagens que descrevi.
— Eternizou, eu diria. Graças à sua capacidade perpétua de admirar-se.
— Juntei o que os idiotas da objectividade teimam em separar.
— Jornalismo e literatura?
— Não. Esporte e teatro. O jogo e a alma. Em futebol, o pior cego é o que só vê a bola.
— És mesmo um monstro moral, Nelson! Podes não estar presente na sala, mas vai ser como se estivesse. O estudo foi muito gratificante. Só espero que tire uma boa nota. Se eu não conseguir...
— ... se não conseguir, pior para os fatos!

sábado, 24 de julho de 2010

Qualquer texto é merda. Qualquer merda é bem-vinda.


Há qualquer coisa de repetição nas palavras que me enerva. Dizem que a redundância é vital para fixar uma ideia. O cronista há de bater o martelo muitas vezes até cravar o prego das suas convicções. Mas não quero ser enfadonho, chato, insistente.

Andei por ler antigos textos deste blogue. Blogue não, diário. De bordo, talvez. Recordo que comecei a escrever com o intuito de publicar um livro com as memórias desta jornada. E, de fato, há muita peça boa aqui – mas já não existe valor editorial, peso literário.

É verdade que publica-se qualquer merda hoje em dia. Estive a ver títulos de obras na última vez na Fnac do Chiado, com a Sofia e o Ricardo. Chegámos à conclusão que tão banal quanto plantar uma árvore e fazer um filho é dar a luz a um livro. De capa dura e estilizada. E julgam livros por aí: pela capa.

Talvez Bernardo Soares estivesse certo e nunca serei nada mais que um desassossegado autor de obras inexistentes. “Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida”, ensinou o guardador de livros da Rua dos Douradores. Só me resta sonhar com minhas linhas sendo exploradas com carinho enternecedor.

Enquanto deliro, “sou o intervalo entre o sou e o que não sou”. Traço planos e repito vontades. Eu não sei ser são, ser menos, ser vazio dessas inquietações plenas e crescentes. Vou caminhando pelas ruas de Lisboa tentando colar na retina as imagens que já fazem parte da rotina nos últimos 22 meses. E, prestes a fechar dois anos, preparo um novo adeus.

Não sei bem onde vou chegar com esse vai-e-vem. Mas preciso. Como respirar e escrever: preciso – e sei que sentem isso em mim também, partilham disso ao mirar bem dentro dos meus olhos. Tenho medo, não se surpreendam com a declaração. Tenho medo não da partida ou da chegada; não da novidade, do recomeço, do desbravamento. Tenho medo de que esse ímpeto nunca cesse, que nunca finde a necessidade de ir e vir.

Preciso postar mais coisas de Lisboa. A cidade tem tanto a ser apresentada e debruço-me sobre mim com um narcisismo leviano, fútil, inepto. Prometo fazer de Agosto um mês de nostalgia presente. Até porque o futuro reserva mudanças. E assim que tiver definido-as comunico. Por enquanto, sonho. E planejo. E abasteço o meu recipiente vital com poesia em forma de ideias. Ou, em outras palavras, com energia sensorial.

terça-feira, 20 de julho de 2010

No banco da praça


Um dia desses sentei-me ao meu lado no banco da praça. Estava sozinho e jogava migalhas de pão aos pombos. Tinha o ar calmo, uma naturalidade típica em todos os gestos: os fios de cabelo já estavam grisalhos, as costas pareciam pesar, as mãos, por vezes, tremiam sem controle.

Olhei para mim com certa ansiedade juvenil. Eu havia chegado aos 70 e, afinal, como seria o meu dia-a-dia? Trabalhava ou já teria me aposentado? Conservava o prazer pela escrita ou havia abdicado das letras? Era casado ou solteiro? Solitário ou avô? Ainda deleitava-me com o futebol ou estava farto do jogo?

Confesso que sempre imaginei a minha velhice repleta de entusiasmo, de netos, de energia, de sorrisos mútuos e permanentes. O que via, porém, com melancolia presente, era um futuro tão parecido com o hoje.

Talvez, naquele banco ao meu lado, eu estivesse apenas a refugiar-me de uma casa cheia de crianças a correr e a gritar, de mulheres em suas conversas de salão, da televisão no programa de sempre, do cão a me chamar para brincar. Ou seja, de uma saudável confusão.

Talvez fosse isso. Mas, quem sabe, e essa hipótese não se pode descartar, fosse viúvo. Tivesse perdido recentemente minha companheira de anos, aquela que ajudou-me a superar momentos ruins, agarrou os meus braços nas alegrias, esteve sempre comigo. E meus filhos morassem no exterior, assim como já morei, e eu gastasse horas a fio aos fins de semana alimentando pombos e tecendo poemas mentais.

Quiçá eu nunca tenha casado. Afinal, andasse sozinho. Tivesse tido paixões prosaicas, amores sublimes e impossíveis. E os amigos, aos domingos, entre suas famílias, me convidassem para almoçar em vossos lares, mas eu agendasse qualquer desculpa previamente, inventasse compromissos imaginários para não parecer um intruso na felicidade real. E, com medo de sentirem pena de mim, me afastasse mais e mais.

Talvez, mesmo com as dores nos joelhos e um cansaço mortificante, preferisse pôr-me a caminhar sem rumo. Para sentar num banco de praça, ao lado de um rapaz de bloquinho na mão, e pensar, enquanto despedaçasse um pão, como deve ser a vida dele. E que era eu ali, uns anos atrás.

sábado, 17 de julho de 2010

Pegadas


Sim, já há uma vida aqui. Já há aquela vez que morei na Pascoal de Melo, aquela outra em que voltávamos todos juntos da faculdade, a vez da visita à Amadora, do frango com leite de côco do mestre Tito, do carnaval animado no Chapitô, do piquenique com jazz, do show do Jorge Palma em Belém, da neblina na praia de Carcavelos, da surpresa no Parque Eduardo VII, da festa junina na Travessa da Madalena, da Susie V e seu teclado nervoso no Largo de São Miguel... nossa, quanta coisa!

Já há uma vida nesta cidade. Os amigos que fiz, as histórias que escrevi. Há tanto a recordar, e me peguei varrendo a memória, enquanto passava despretensioso pelas fotografias tiradas cá. Vejo as viagens, as despedidas, os aniversários, as ramboias, e consigo perceber o quanto fui feliz em Portugal. Ou melhor: o quanto sou feliz – ainda que em alguns momentos batam a solidão e a carência de estar numa cultura distinta, num modo diferente de encarar o dia-a-dia.

Estou com uma espécie de saudade do presente. Saudade do que encaro agora, repleto de sentimentos, às vezes antagônicos. Não é fácil entender-se, ter de se reconhecer nas situações mais diversas, aceitar alguns modos de agir, de estar, de ser. É um processo árduo, uma terapia de choque.

Se estivesse na mesma realidade que cresci (Brasília) ou na cidade que escolhi para viver (Floripa), nenhuma dessas portas internas teria se aberto. Em breve pretendo dar outro passo, rumar para outro caminho de busca das minhas vontades. Ou fuga dos meus receios. Nunca sei bem em qual critério essas andanças se encaixam. Enquanto tento descobrir, movimento-me.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Ela e ele


Estava ela com seu cigarro pela metade, escorada no parapeito do miradouro. Fuçava o céu, e a fumaça que soprava entre os lábios misturava-se às nuvens. Esperava. Sem lamentos ou pressas – pensava no que havia feito no dia, o que faria no amanhã. Esperava alguma coisa que nem ela sabia dizer o que era.

Ele manteve-se inerte, sentado no banco como quem conta favas. Tinha o copo meio cheio, de uma cerveja já quente. Era verão. Verão apenas não: era muito verão. Reparava no vaivém das pessoas, seus encontros, seus adeuses. E acumulava todos os sentimentos presentes. Jogou o resto da bebida no chão.

Ela caminhou até o ponto e pegou o primeiro ônibus. Não tinha rumo, não tinha vontade de regressar à casa – lá, ninguém a aguardava. Desenhou corações na janela embaçada, lembrou um poema do Neruda, buscou no celular um contato para mandar mensagem. Não encontrou destinatário.

Aquela rotina já o desgastava. Não era do tipo que apreciava a mesmice. Mais que isso: era do tipo que necessitava de mudanças. Quase um vício. Abdicou do itinerário comum e decidiu caminhar. O frio trincava-lhe os dentes, expurgava-lhe a alma, congelava-lhe as esperanças.

Há muito ela não ia ao café austríaco. Criou coragem para sair do quarto. Estava enclausurada, metida entre almofadas e romances, por dias e dias. Ele era frequentador assíduo. Pedia sempre torrada e capuccino. Abria o jornal de trás para frente e pescava as notícias boas.

Sentaram-se perto um do outro. Ela, no sofá verde-abacate. Ele, em uma das mesas cinzentas. Trocaram curiosidades nos olhares, confidências mudas. Ela esboçou um sorriso. Ele perdeu a concentração na leitura.

Estavam a poucos metros. Duas solidões que se abraçam, que se enroscam, se deglutem. Ela preparou o tabaco. Ele prescindiu do capuccino: pediu uma pilsen e pôs-se a ler o horóscopo. Ela dissimulava o acanhamento brincando com o cabelo.

Não trocaram uma única palavra. Cruzaram desejos claros, mas enganaram-se com desculpas silenciosas. Ele levantou-se. Ela transpirou. Ele caminhou em sua direção. Ela trocou as pernas cruzadas. Ele titubeou, desviou os olhos, sacou a carteira do bolso, pagou a fatura e saiu pela porta.

Ela permaneceu sozinha, no desamparo, no desassossego. Podia ter agido, puxado conversa, sorrido com mais veemência. Fez sinal pela conta. O empregado trouxe uma folha com um nome e um número de telefone. Era dele.

No sábado seguinte, esperava-o escorada no parapeito do miradouro, com seu cigarro quase vazio. De um banco, ele observava, com o copo perto do fim. Ela era ele. Ele era ela.

terça-feira, 13 de julho de 2010

A Copa do quarto - 15



Eu juro que é o último texto sobre futebol. Eu juro. Já disse que juro? Mas vocês que não me conhecem não entendem. Vocês que me conhecem já não entendem. Eu me conheço e não entendo. Então vai entender... O futebol é meu ópio, sim senhor, e podem bradar contra esta “causa menor” que não me atinge: adoro causas menores.

Não é à-toa que, para falar do ludópedico esporte, escolho um gênero inferior: a crônica. Ora essa, se vamos passear pelo esgoto, nada melhor que vestir-se maltrapilho. (Agora a sério: coitada das pessoas que só veem maquiavelismo no futebol, e também conseguem enxerger – e repercutir o discurso comum – de que o jogo foi entregue às traças do negócio, ao dinheiro escuso, aos empresários maliciosos e interesses de poder)

A Copa do Mundo movimenta bilhões de dólares, assim como o cinema, a música, a literatura. Porém meu interesse é poético, é mágico, transcendental. Conversava com um senhor português no jardim do Príncipe Real, sábado. A Espanha não havia sido campeã, a Alemanha e Uruguai ainda não tinham feito aquele jogaço, e eu revelei que era jornalista desportivo.

Mecânico como um robô, ele levantou os cânceres que infestam o futebol. Aceitei, concordei e rebati: não é por essa face que olho o esporte bretão. Nem o lado da arbitragem eu tenho ânimo – e, mesmo, autonomia – para opinar. Sempre irritou-me discutir lances triviais do apito, esquemas conspiratórios de manipulação de resultados. Posso ser alienado, o que seja.

Custa-me estar sempre a buscar o “antagonismo”. Neste Mundial, vibrei com o balé de Xavi e Iniesta, os gols de Villa, a eficácia de Müller, Özil, Podolski e Klose, o arrebatamento mágico de Forlán, a precisão de Sneijder. Reclamei da violência do Felipe Melo, do pragmatismo de algumas equipes, do excesso de covardia de uns técnicos. Tudo dentro do campo – tanto no âmbito terreno quanto sagrado.

Lá se foi mais um Mundial e, apesar da overdose de bola, não deixei de gostar do esporte. Apesar de lidar com tanta ladainha (ainda usam aquela do “pão e circo”), de encarar a reprodução vazia de clichês, minha paixão pelo futebol só foi alimentada. Explicava ontem a um amigo: não me entristece o fim da Copa, porque sei que se durasse mais de um mês já andaria feito um zumbi pelas ruas. E tem as ligas nacionais, a Libertadores, Champions League, Copa América, Eurocopa ao longo de outros quatro anos.

Agora, às vésperas de 2014, virá de novo o frio na barriga. E podem saber que desta vez será muito mais intenso. A todos fica o convite: nos vemos no Brasil!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A Copa do quarto - 14

Lá está: a Espanha campeã. Com justiça. Mas quem disse que justiça participa do futebol? Não gosto de atribuir merecimento. É tirar a componente mágica do esporte e rebaixá-lo ao plano terreno. O jogo vai além. Nelson dizia que, no futebol, o pior cego é o que só vê a bola.

Concordo. Tire a poesia do ludopédio e estamos fadados à mesmice – também em campo. Se gostei da Espanha ter sido campeã? Claro que sim. Mas não vou dizer muito bem o porquê. Porque vou escorregar nas minhas justificativas. Explicarei que é devido ao estilo mais vistoso da Fúria – a refinada troca de passes, o balé de chuteiras.

A Espanha mereceu (ops!), mas a Holanda também era candidata legítima. Infelizmente, preocupou-se em conter o tiki-taka com pá-pum. Fez muitas faltas. Faltas violentas. Em suma, os holandeses felipemelonaram o título. O segundo lugar foi honroso. Parabéns à Laranja.

Admito, porém, que a fiesta foi tímida. Em Lisboa, pelo menos. A colônia espanhola em Portugal é numerosa, o que soa estranho. Parece que a ficha ainda não caiu, que os vizinhos experimentaram um estado litúrgico. A verdade é que, como argumentou meu amigo Leandro Guimarães, a Fúria está armada de bons talentos. Inclusive para 2014.

Só que isso é uma outra história. Para uma outra Copa do quarto

sexta-feira, 9 de julho de 2010

A Copa do quarto - 13

Acho que nem Alladin para um pedido tão certeiro. O mundo pedia Brasil x Argentina na decisão, a Alemanha queria revanche de 2002 com os canarinhos, a Espanha precisava superar a desconfiança por ficar sempre pelo caminho, a Holanda parecia mecânica demais para alcançar uma final, Uruguai sonhava, Gana delirava, Itália, Inglaterra e França invocavam milagres.

No fim, deu o que sonhei, o que nas noites gélidas de inverno, no calor lancinante do verão, me confortava – para ser um bocado melodramático. Deu Holanda x Espanha. Perfeito! Perfeito! Já posso morrer em paz. Já cumpriu-se a minha hipótese de assistir aos alaranjados diante dos encarnados num duelo pela Taça FIFA.

Porque a minha ligação holandesa, já tentei explicar-vos, é inexplicável. Data de 1800 e pouco. É o único anti-esclarecimento que posso supor. Penso que a partir do tetra tupinambá que admirei Bergkamp, Overmars e companhia. Wim Jonk foi um dos grandes meio-campistas que vi atuar – e 99% das pessoas cá nem vão saber de quem falo.

Pela Espanha a relação é mais recente, mais emocional (a holandesa é algo espiritual, de vidas anteriores), mais do sangue. Sangue vermelho e latino que corre nestas veias. Excluindo o fascínio pelo país e pelo povo, pela beleza e simpatia das mulheres, por Barcelona e Madrid, pela culinária, eis que adentramos no plano do tiki-taka.

Mas o que se pasa? – estarão perguntando os desinformados. Ora, tiki-taka é o estilo de jogo espanhol. Um relógio, que faz girar os ponteiros e dita o ritmo em campo. Xavi, Iniesta, Xabi Alonso e Busquets são a engrenagem deste sistema. Aprecio táticas, encanta-me perceber como, de maneira lógica, as peças se movem dentro das quatro linhas. Mas a tática aliada à mágica é ainda mais formidável. Formidável!

Pouco importa quem vença neste domingo. Pouquíssimo. São duas seleções que enchem-me de orgulho gostar de futebol, que é muito mais que um esporte: é um jogo. Tirem-me o futebol, excluam a Copa do Mundo, e me verão com febres amazônicas, com uma melancolia pungente e inesgotável. É que já aprendi a andar e a falar com esse sentimento.

terça-feira, 6 de julho de 2010

A Copa do quarto - 12

A Copa tem mais três jogos para definir o campeão. São mais quatro no total, se contarmos a disputa do terceiro lugar. Depois, só no Brasil, em 2014. Confesso que já estou eufórico pelo Mundial verde-amarelo, mas nem vale a pena discorrer sobre isso.

Hoje tem Uruguai-Holanda. Amanhã é dia de Alemanha-Espanha. Quero a Laranja e a Fúria na decisão – e seria minha glória. Desde sempre, e admiti isso há uns posts, sou fascinado pelo futebol holandês. Tem alguma coisa de encanto inexplicável, de vidas passadas. Devo ter morrido de ataque cardíaco na final da Copa de 74. Só pode.

Minha relação com a Espanha é mais recente. E mais enraizada, digamos. De adepto do Real Madrid no fim dos anos 90 e início de 00, passei a fervoroso amante do Barça. Ainda tive lá as minhas “rixas” homéricas nos confrontos entre os blaugrana de Ronaldinho e os merengues de Zidane. Pendia para o lado francês, apesar de toda a magia brasileira.

De uns tempos para cá, e os responsáveis chamam Messi e Xavi, tornei-me culé. Ou seja, enveredei para o Barcelona. A capital catalã tem uma parcela existencial e clara nesta decisão. E, pela cidade – não só por ela, como também por Madrid e Sevilla –, criei vínculos profundos com o país. Gosto do ambiente, das construções, da gastronomia, da cerveja, das pessoas, do “c” com a língua entre os dentes. Adoro a Espanha – pronto, agora sou expulso de Portugal!

Por isso, minha Copa tem Holanda e Espanha em campo no domingo. Mesmo que lá não estejam, em chuteiras e meiões, vou considerar as duas seleções finalistas. Se for mesmo a decisão dos meus sonhos, então qualquer uma que levantar a Taça FIFA agrada-me. Neste momento, até mais que se lá estivesse o Brasil.

domingo, 4 de julho de 2010

Sinto...

Sinto a sua falta. E não sei dizer se é desconforto ou carência, porque você nunca mais veio. Tenho este vazio ao olhar para os lados e não te encontrar. Mas não sei dizer se é porque não enxergo ou porque procuro mal.

Sinto este frio sem razão, o desejo do calor, um desamparo misterioso. E tudo em mim é um mistério cansativo, um quebra-cabeça de peças trocadas. Não consigo me entender, e sigo desmontado. Na caixa.

Sinto esta necessidade de estruturar-me. De vir alguém juntar meus pedaços com o intuito de ajudar. Não sei se é fraqueza ou falta de força, pois sacrifiquei-me ao futuro.

Os planos que traço, desfaço os nós. O nós em que penso, dispenso impaciente. Amar é das tarefas mais árduas da existência e só ama quem não percebe que ama. De resto, continuo com vários enigmas dentro de mim.

Sinto que só você fará com que os desvende.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

A Copa do quarto - 11

Pensei muito no que escrever. Não queria extrapolar, ser insensato, passional demais. Veja lá: estou sempre a me conter. Até quando não devia. Mas torci com afinco e fé para o Brasil – por mais que Felipe Melo, Michel Bastos e Dunga não me agradassem nem um pouco.

Por mim, Felipe Melo tinha nascido na Hungria. Infelizmente os seus pais são brasileiros e ele inventou de ser jogador de futebol. O Flamengo resolveu investir nele, o Mallorca fez a opção de comprá-lo, a Fiorentina foi buscá-lo na Espanha e o treinador da CBF decidiu testá-lo no meio-de-campo.

Felipe Melo meteu a cabeça onde não devia (na bola que estava nas mãos do Júlio César) e perdeu a cabeça como sempre (na expulsão por deslealdade). Tenho um misto de revolta e pena. Peguei-me pensando o que será daqui para frente para este jogador – e depois andei mais uns 10 a 15 anos no túnel do tempo e imaginei-o gordo e esquecido.

Pensei muito no que escrever e saíram essas besteiras. O fato é que “cantei” a cena toda no primeiro tempo: o Brasil desperdiçava chances quando teria de ter marcado 2-0, 3-0. Deu um baile de bola nos 45 minutos iniciais e até agradou ver aquela equipe da América do Sul a jogar – e não uma europeia vestida de amarelo.

A Holanda mereceu. É nosso erro atribuirmos a nossa derrota e nunca a vitória deles. Confesso que fiquei triste, mas também é só futebol. É um meio de enfeitar a vida, dar graça ao cotidiano. É um jogo, prosa em movimento, arte com os pés. Que se foda (desculpem a expressão) glórias ou tragédias, triunfos ou derrocadas. Ganhamos todos com o que o esporte nos proporciona.

Ou, pelo menos, deveria proporcionar. Eu sou laranja, verde, amarelo, preto, azul, branco, marrom, cinza, roxo, transparente...