quarta-feira, 30 de junho de 2010

A Copa do quarto - 10

Oito classificados. Começam as quartas-de-final da Copa e não vemos Itália, França e Inglaterra – quem estaria, pelo menos na teoria, com as vagas garantidas. Mas temos equipes que se apresentaram melhor: Gana, Uruguai e Paraguai (apesar da última ainda não ter feito lá grande coisa).

É um Mundial de novos nomes e figuras antigas. De Forlán, impecável na armação e na finalização da Celeste, e do líder Lugano, com seus olhos sempre abertos, sempre atentos. De Gyan, pelo lado ganês, com seu instinto predador – rápido e mortal – e da revelação Dedé Ayew, filho do grande Abedi Pelé e com potencial para ser maior que o pai.

Uma competição que reabilita Robben e Messi. Em um jogo – melhor: em um minuto de jogo –, o holandês mostrou o quanto é valioso. Ele foi Messi e Messi está sendo Maradona, está sendo Rivelino, está sendo o próprio do Barcelona. Com a 10 às costas, mantém a tradição da classe. Messi não cai, não se atira, não desiste. Parece um ratinho traçando o seu caminho até o gol com a bola colada nos pés.

Mas admito, quem também destoa dos demais é Villa. Que maravilha vê-lo atuar! Joga simples, descomplica, ousa, encara os adversários. O espanhol – agora do Barça! – tem duas virtudes que sobressaem: é intrépido e confiante. Para mim, até agora, o craque da Copa. (E, claro, ajudado por Xavi, Iniesta, Xabi Alonso, Sérgio Ramos, Torres... que seleção!)

Schweinsteiger é o kaiser. Toma conta do meio-de-campo, dita o ritmo alemão. Tenho um encantamento fácil pelo tipo de futebolista que é o 7 germânico. Daqueles que fazem rodar a bola, que buscam o jogo e chamam a responsabilidade. Assisti-los no estádio é ainda mais fascinante. Sabe aquela trilha que às vezes a TV mostra? Penso que a de Schweinsteiger seria um tricô.

Apoiado nesses pitacos, lá vai a minha seleção do Mundial, até as oitavas: Eduardo; Maicon, Lúcio, Piqué e Fábio Coentrão; Xavi, Schweinsteiger, Messi e Ayew; Villa e Forlán. Na reserva tem Júlio César, Juan, Sérgio Ramos, Mascherano, Özil, Sneijder e Gyan – para ser justo com todos.

domingo, 27 de junho de 2010

A Copa do quarto - 9

Quando Lampard chutou, eu até vi a bola lá dentro. Mas não quis dizer nada. Ela beijou a trave – como quem despede-se carinhosamente – e foi dormir dentro do gol. O juiz é que não viu. Puxa, 33 centímetros! Tudo bem. Erros acontecem.

Quando Tevez cabeceou, achei que era mesmo impedimento. Mas fiquei quieto. Ele estava solitário na jogada – como quem espera o ônibus numa rua escura – e pensei que tivesse apenas um adversário à sua frente. O bandeira é que cochilou. E o telão do estádio mostrou a repetição! Ok, ok.

Alemanha e Argentina chegam às quartas-de-final privilegiados pela arbitragem. Porém não é por isso que estão onde estão. Jogaram melhor e mereceram vencer. Vamos ver como será este embate que envolve cinco títulos mundiais.

Nesta segunda-feira entram em campo Holanda e Brasil. Seria outras quartas do sonho. Acho que está mais que na hora da Laranja levantar a taça Fifa. Este time que ainda não encantou – como no Euro-2008. Gostaria muito de ver a equipe brasileira mais leve, com Daniel Alves na lateral esquerda e Ramires (ou Kléberson) no lugar do Felipe Melo.

Como Dunga não vai fazer isso, temo pelo nosso futuro. Mais: não estou ligando tanto para o nosso futuro. Entre um futebol bonito e o futebol feio, vou optar sempre pela primeira opção. Já disse: sou mais o Barcelona vice da Champions League que a campeoníssima Inter de Milão.

Coisas de um pseudopoeta.

sábado, 26 de junho de 2010

A Copa do quarto - 8

Tiki-taka, tiki-taka, tiki-taka... o relógio espanhol pode atrasar, mas não falha. Está lá com seus ponteiros rotos, sem o bom funcionamento de dois anos atrás. Mas ainda assim é um relógio de valor, de boa marca, especial.

A seleção da Espanha passou em primeiro lugar e evitou o Brasil. Agora encara Portugal. De Cristiano Ronaldo, do excelente goleiro Eduardo e – até o momento para mim – do melhor lateral-esquerdo da Copa, Fábio Coentrão.

Cuidados? Os lusos que fiquem de olho em Villa “Maravilla”. Vai cair justamente no lado mais fraco da defesa: a direita. Paulo Ferreira, Miguel e Ricardo Costa são fracos. Se fosse Queiroz, metia o Pepe por lá – e fazia um trinco.

A Fúria que se preocupe com Coentrão nas costas de Sérgio Ramos. Além de se achar o Pelé, o lateral-direito merengue sobe demais ao ataque. Ronaldo deve atuar por lá, como fez no segundo tempo contra o Brasil. Lucio penou para persegui-lo na cobertura.

Enquanto isso, temos Brasil x Chile. Nos últimos quatro encontros, quatro triunfos canarinho. Vencemos por 3-0 (duas vezes), 4-2 e 6-1. Ou seja, é praticamente inevitável que a gente fique pelas oitavas. Isto é, se não fosse por Marcelo “Loco” Bielsa.

O treinador argentino sabe anular o jogo brasileiro, e com dois bons extremos (Alexis Sánchez e Mark González) vai apostar no contragolpe pelos flancos. Pior de tudo é que temos um lado esquerdo fraquíssimo: Michel Bastos e Felipe Melo marcam mal. Juan tem um senso de colocação maravilhoso, mas sofre com o condicionamento físico há tempos.

Vamos ver o que acontece.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A Copa do quarto - 7

Eu sou um chato. Um tremendo de um chato, eu sei. É que em período de Copa do Mundo não falo, comento, observo, aponto ou pondero sobre outra coisa. Futebol – só futebol. E não me venham com problemas políticos ou sociais, com despensa vazia (devia ter feito um estoque antes do campeonato) ou torneira do banheiro quebrada.

Nada disso me atinge. Nada disso me demove da saga irrepreensível de assistir a todos os jogos possíveis e imagináveis. Sou um fanático chato. Sim, eu sei, e repito com chatice aguda: – Sou chato mesmo. Porque no futebol eu tenho opinião sempre, e gosto de discutir. Afinal, é minha paixão, meu conhecimento, meu interesse.

Minha mãe lamenta que não estou no Brasil, para vermos à Copa juntos. Alguém me entende – ou suporta, vai saber. Ao lado do meu pai coloco as opiniões, discuto comentários, divido curiosidades. Bom era ver as partidas na redação do Diário Catarinense: onde todo mundo entendia e partilhava informações passadas e presente.

O pouco que sei nesta vida tem a ver com bola. E, logicamente, não sei tudo. Nem metade. Mas sou um chato por ter esta vontade irriquieta de contar o que sei. Foi pelo esporte, por causa do futebol, que decidi ser jornalista. E todo jornalista é, queiram ou não, um chato. Mas como escreveu Mario Quintana: “os amigos são os nossos chatos prediletos”. E assim espero que seja eu.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

A Copa do quarto - 6

Ora, se Kaká tivesse dado uma cotovelada de jeito, eu até estaria aqui a deleitar-me incognitamente. Seria um senhor ao afirmar que a expulsão havia sido merecida e que qualquer tipo de agressão deve ser punida. Que à violência cumpre-se a regra: vermelho direto, chuveiro, suspensão de no mínimo uma partida.

Mas Kaká nada fez. Pelo contrário. Foi vítima, arrastou-se em campo a ceifadas, esquivou-se de diversas e notórias tentativas de homicídio. Kaká simplesmente travou o corpo, numa virilidade consciente, e acabou por ir embora. De modo injusto, de forma revoltante.

Bater, pode. Entrar com as travas da chuteira uma, duas, três vezes sobre a bola, tudo bem. Kaká nem teve seu dia de Zidane, como muitos gostaram de afirmar. Zidane projetou-se em Materazzi. Arremessou a sua fúria no peito do italiano, vingou-se com honra. Nada aconteceu com o número 10 canarinho: ele parou diante do marfinense e viu a exclusão.

Não faz mal. Porque se o Brasil ainda não demonstrou um jogo de jeito, leve e radiante, um encanto que nem cogito assistir neste Mundial, ao menos comportou-se com garra e vibração. Portugal está empolgado com a goleada. Será um duelo agradável. Queira o árbitro não estragar um espetáculo.

Se bem que o de ontem já o tratou de tentar fazer. 

domingo, 20 de junho de 2010

A Copa do quarto - 5

Nunca escondi que gosto da mistura. Sou cidadão do mundo, nômade, apreciador das diferenças. Bem, por isso mesmo está sendo uma sensação única assistir aos jogos do Mundial diante das torcidas “originais”. Nada de meros simpatizantes (como eu).

Pois sempre curti o futebol holandês. Mas não sou holandês, caramba. Não tenho cara de holandês, jeito de holandês e mal sei pronunciar “olá” em holandês. Ou seja, sou um holandês fajuto, capenga, paraguaio. Holandês holandês são os adeptos que estavam a assistir ao duelo frente ao Japão, no famoso Largo da Estação do Rossio.

Nessa de misturar-me, conheci umas holandesas. Bem, as holandesas (suspiro). Juro que estou torcendo para a Laranja Mecânica ser campeã. É que daí a minha promessa vai ser cumprida com gosto. Não sabem qual? A de casar com uma mulher da nacionalidade que sagrar-se vencedora da Copa. (O Maradona tem a promessa dele, eu tenho a minha!)

De qualquer maneira, o foco está no jogo. Acordo, durmo e respiro futebol. É que de quatro em quatro anos reabasteço meu amor pelo “esporte bretão”. Há mesmo essa linguagem universal da bola – que une as diferenças, alimenta a mistura saudável e me faz conhecer holandesas.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

A Copa do quarto - 4

Pensei que a Copa seria mais no quarto de casa. Mas não. Tem sido na rua, com o “povão”. É que colocaram um telão, um ecrã gigante na Estação do Rossio e vou para lá assistir às partidas.

É bacana pelo seguinte: no Brasil, raramente deparamos com torcedores de outras nacionalidades. Nos misturamos aos conterrâneos. E pronto. Aqui não. Vi a estreia da Itália ao lado do Francesco, um representante oficial do país do bota, e mais dezenas de adeptos azzurri.

Também estive no Rossio para acompanhar Portugal x Costa do Marfim, Brasil x Coreia do Norte e Espanha x Suíça. Hoje é o dia de França x México – daqui a menos de uma hora, para falar a verdade. Entre uma olhada e outra para o vídeo, dá para apreciar as belas torcedoras e a maneira que as pessoas vibram com suas seleções. Eu diria que é antropologia futebolística.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

A Copa do quarto - 3

Sofri. Confesso que sofri. Com Portugal, com Brasil, com Espanha. Sofri porque torcia para todos esses – num misto de simpatia, coração e beleza. Mas a Copa do Mundo está hostil, arisca, feia.

Vejam lá isso: das favoritas, apenas Alemanha demonstrou qualidade. É verdade, volto a penitenciar-me por não ter visto os argentinos. De qualquer maneira, é um Mundial do medo. Medo, essencialmente, de ganhar.

Empatar é vitória. Vitória é glória total. Uma pena que a média de gols por partida seja baixíssima. Pior que isso: uma pena vermos um futebol tão fraco, sem criatividade, com lentidões bovinas e boçais.

Reparem na França, na Inglaterra, na Itália. Que seleções chatas! E o Brasil? Do ex-jogo alegre, do anti-espetáculo, do resultado. Odeio estes defensores do triunfo acima de tudo. Posso até entendê-los – não venham me evangelizar! –, mas ainda assim nunca vou aderir à essa doutrina.

Perder e ser a equipe mais bonita a jogar? Sim, prefiro. Porque minha memória guardará muito mais Portugal de 2004 que a Grécia; muito mais a Alemanha de 2006 que a Itália; muito, mas muito mais mesmo, o Barcelona de 2010 que a Inter.

Rezo aos Deuses da bola que no técnico de uma das 32 seleções baixe um Rinus Michels, para sairmos da mesmice que tomou – além da mesmice da vida – os campos. Pode ser o Maradona, que tanto abominam por ter sido (ou ser) drogado. Não me importa isso nem o fato de ser argentino: futebol belo não tem pátria, não tem bandeira.

É como a arte. Um bem geral, universal, da humanidade.

domingo, 13 de junho de 2010

A Copa do quarto - 2

É da Alemanha que vão todos falar. Pelo menos até a estreia de Brasil e Espanha. A Itália joga nesta segunda-feira, mas duvido de uma atuação brilhante dos atuais campeões mundiais. A Azzurra está fraca: com Buffon, Cannavaro e Pirlo longe do que eram em 2006.

Mas é da Alemanha que tenho de comentar. Podia ser da Argentina também, caso tivesse assistido à estreia contra a Nigéria. Não vi, então prefiro ficar quieto. Ah, da Inglaterra eu vou resguadar-me. Nunca confiei no English Team de Fabio Capello. Sei lá, falta alguma coisa ali, algum tempero. Rooney é a andorinha que não faz verão – sou fãzaço dele, é bom que se diga.

É, afinal, sobre a Alemanha que vou escrever hoje. Por consequência, da Austrália também. Os cangurus foram de uma passividade de zoológico. Está certo que Klose e companhia diminuíram os espaços na defesa e movimentaram muito bem na frente. O gol aos oito minutos ajudou. A expulsão no segundo tempo ainda mais – selando os 4-0.

A Alemanha foi eficiente. Foi, além de tudo, agradável de se assistir. Diferente do que costuma(va) ser o futebol germânico. Deu gosto, principalmente por Lahm, Podolski e Özil. Porém Sérvia e Gana continuam a ser as outras forças do grupo. Ou seja, é melhor conter tanta efusividade.

sábado, 12 de junho de 2010

A Copa do quarto - 1

Foi-se o primeiro dia do Mundial na África do Sul. Não devo conseguir comentar todos, mas como escrever (e ainda mais sobre futebol) é superior a mim, é bem capaz de abdicar disto ou daquilo para traçar umas linhas.

A partir de hoje retorno às origens. Em um ambiente diferente. O meu primeiro blogue nasceu para o futebol. Chamava-se Crônicas Esporte Clube, o famoso CEC. Depois veio outro, também sobre o "esporte bretão" – mas sem a mesma graça do precursor.

Já alterei meus horários no trabalho, já arranjei alguns esquemas para assistir às partidas cá em Lisboa. Será uma Copa especial na minha história. E por falar em especial, o grupo de brasileiros e portugueses só aumenta para ver o confronto de 25 de Junho. Isso, porém, é assunto para daqui 10 dias.

Não pude ver a estreia, mas soube que os Bafana Bafana atuaram melhor e mereceram a vitória. O jogo está longo do merecimento. Vamos falar do que sei: a França ressentiu-se do Zidane (como em 2002, quando o craque estava lesionado) e parece depositar todo a sua sorte em Ribery. A equipe melhorou com o ágil Malouda no lugar do estático Gourcuff.

A bem da verdade, o Uruguai mostrou um futebol pobre e desesperado. A linha de quatro homens do meio-de-campo tem o alvará de destruição, está apto a desmontar e entregar a bola de volta ao adversário. Coitado do Diego Forlán, que entre umas e outras tentativas isolado, até trouxe certo perigo à meta gaulesa.

Em suma, foi difícil arrancar alguma coisa boa no sorumbático zero a zero. Mau início de Copa.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Por que as mulheres agem na defensiva?


Diz-se à boca pequena que a melhor forma de se aproximar de uma mulher é pelo “olá, tudo bem”. Evite caras sexys, cantadas baratas, apreciações megalômanas, piadinhas engraçadas. Já foi-se o tempo também, felizmente, que a força reinava sobre o jeito – mesmo que ainda hoje alguns homens não tenham se atentado a isso.

Mas que merda de impotência experimentamos na abordagem diante do sexo oposto! Lá estão elas, impávidas, colossas, como um busto de Afrodite, a nos analisar de cima abaixo pelo olhar do julgamento. Porque todas as mulheres – e, se generalizo, faço uma correção: todas não, 90% – estão na defensiva quando um homem caminha até elas.

Se o sujeito não for o Brad Pitt, o Johnny Depp ou o Rodrigo Santoro tem de ralar. Tem de gastar saliva num bom papo, ainda que ninguém considere, naquela hora, que um bom papo depende dela também. Elas, na confortável condição de “selecionadoras”. Nós, na de franco-atiradores, expostos às intempéries, ao humor feminino, à escassez de encantamento atual do ato.

Bem, é tempo dos arraiais em Lisboa. Da festa pela festa – e as pessoas ficam mais abertas, mais dispostas, mais receptivas. Tento não levar nada disso em conta, ainda que seja impossível. Também é tempo de futebol, de Copa do Mundo, de celebrar a união dos povos pelo jogo mais popular do planeta.

Uma pena que tudo gire em torno de fachadas. Quero dizer: toda a gente podia estar bem mais disposta a simplesmente conhecer uns aos outros, sem juízos de valor ou receios. Mas isso parece utópico demais para o gosto geral, como já me alertou uma amiga. Lá estou, de novo, a sonhar um mundo perfeito. Capenga das próprias pernas.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Reflections of a Skyline

Tenho uma amiga que diz que nunca vai desistir de buscar o amor, que nunca vai desistir de sonhar no amor, que não vai desistir do amor. Ela me mandou o link deste vídeo. Trata-se de uma peça de teatro chamada Crave, escrita por Sarah Kane. A sensibilidade do texto sem pausas é tocante. E, afinal, sentimos que tudo na vida resume-se à paixão, a estar apaixonado, a decisões apaixonantes. Tudo. 

Minha amiga não desistirá do amor, como tantos onironautas que conheço. E eu também. Porque amor é estado de espírito, é escolha de lado, é ousadia, coragem, pureza. Há de haver uma recompensa. Há de haver...

domingo, 6 de junho de 2010

Bilhetes para 30, por favor

Gosto de despedidas. Não sei porquê, mas gosto dos adeuses – de partir com a sensação de perenidade, com o hábito de que restará de mim, nos outros, as boas lembranças e as nobres virtudes. Fascina-me tanto seguir a trajetória que confundo a despedida com um vício de existência, um equívoco de decisão, um refúgio meticulosamente ocasional.

Por mim, eu partia. Simplesmente partia depois de dois anos numa cidade. Após 24 meses de raízes. Mas tem os amigos. E isso é quase 100%. Que dor afastar-me deles. Que dor. Que dor. Contínua e ininterrupta. Se dependesse de mim, a cada mala feita e passagem comprada, lá ia eu ao guichê do atendimento ou no site da companhia aérea reclamar: – Mais 28 bilhetes, por favor.

O ideal seria levar todos comigo, sem exceção, para cima e para baixo nestas andanças (quanto egoísmo!). Já pensou poder carregar a sabedoria e a calma do Paulista, a risada e a alegria da Sophie? As estórias e o sarcasmo do Matheus? A cumplicidade da Di, a pureza do Digo, o conhecimento do Diogo, a integridade da Jana Pimentel, a diversão da Taty, a sagacidade da Ci, a irreverência do Fábio, as conversas metafísicas do Felipe, a sensibilidade da Dani?

Poder levar para onde quer que fosse o companheirismo do Gruba, a serenidade do Joel, o encantamento da Ju, o cuidado maternal da Sol, a praticidade do Dani. E também o astral da Sofia, a maluquice da Jana Kalsing, a meiguice da Karine, a preocupação da Mariana, a “impaciência” da Cynthia. Ter a paixão pela vida do Alessandro, a razão emocional do Ernesto, a tranquilidade do Guilherme, a inquietude da Anabela.

Só queria tê-los sempre por perto. Sempre ao lado. É possível?

sábado, 5 de junho de 2010

Sobre festa, adeus e solidão


Lisboa vive os seus melhores dias de 2010. São tempos de calor e de festa na capital. De Junho a Agosto, as pessoas felizes vencem as pessoas carrancudas nas ruas. É o triunfo do bem sobre o mau, da luz sobre a escuridão. Só para as minhas dúvidas aumentarem...

De qualquer modo, cá estou: inserido na cultura portuguesa. Já digo , fixe, bué, , ganda cena, tá béin e partilho do ritual dos cafés. São vários ao longo do dia. Quem me conhece sabe que gosto de me misturar. Sou fascinado por chegar num lugar estranho e fazer-me passar por um nativo.

Pensar num adeus é cedo, mas acontece. Acontece também de querer a despedida (não fiquem lixados comigo, malta). Porque tenho saudade de um lugar especial: Florianópolis – saudade que talvez fosse abrandada em alguns meses. Tenho de pesar meu rumo, minha trajetória. Sinto que cheguei numa bifurcação importante, tanto no lado pessoal quanto profissional.

Em muitas etapas cansa estar longe, cansa a carência, cansa levar tanta porrada no dia-a-dia. De graça. Do nada. Já expliquei que às vezes me passa a sensação de ser mulher de malandro: amar demais um país que nem sempre retribui esse amor. Ora essa, sei que é um discurso abrangentemente piegas, lamechas, mas o que somos nós que não seres da mesma merda de planeta?

Esquece. Estou farto de tentar perceber o outro – o outro que não vale a pena. Há muito entrei num individualismo egocêntrico, autista. Deve ser por isso que a solidão tornou-se a única bagagem das minhas aventuras. E bem que disse a ela, quatro anos atrás: a minha sina é ser sozinho.

* Juro que textos melhores virão. Juro.

terça-feira, 1 de junho de 2010

O melhor sítio de sempre. De sempre!


Chama-se Príncipe Real. De rimas fáceis e óbvia nobreza. Parte alta da cidade de Lisboa. Com um grande jardim, bons cafés, mulheres bonitas e proximidades. Perto do miradouro com uma das mais belas vistas: o de São Pedro de Alcântara. Perto do Bairro Alto, recinto da boemia e da juventude.

Mudar para um lugar desses, recheado de predicados positivos, de clima leve e revigorante, foi o melhor que podia me acontecer neste momento. Caminho pelas ruas de uma Lisboa ensolarada e viva sentindo que o Inverno, em mim, aos poucos cessa.

Sim, continuam as dúvidas, é verdade. Seguem os sonhos aparentemente inviáveis. As múltiplas vontades, os devaneios vários, o desejo sufocante da urgência. O tempo foge, urge, voa. Mas há de se pescar luz com paciência, como referiu Neruda.

Por enquanto, para ordenar minhas desordens – será que devem ser ordenadas de alguma maneira? – respiro o ar do melhor sítio de sempre. Onde inicio mais um recomeço. Coisa que nunca consigo me desvencilhar é de esperança. E será isso uma qualidade sublime ou um defeito ridículo?