quinta-feira, 6 de maio de 2010

Síndrome de Urgência


Há um bom tempo que convivo com uma doença crucial. Uma peste bubônica, um mal crônico, incurável, visceral. É um tipo – até comum – de manifestação psicossomática, psicossocial, psicomotor, que ataca o sistema nervoso e inquieta a alma. É a Síndrome de Urgência.

O diagnóstico foi um tapa de luva de pelica: “Estas vontades persistentes, esta agonia mordaz e crescente que tens por ir e vir, por viajar, conhecer vários sítios, tocar as descobertas, lambuzar-se de experiências... enfim, esta patologia patética, dificilmente pode ser tratada. Terá de aprender a conviver com este complexo, sr. Gustavo”, afirmou o circunspecto doutor.

Quando está no sangue, está no sangue, oras bolas! Pouco se pode fazer. Mesmo financeiramente roto, manco dos bolsos, anêmico na carteira, amanhã vou à Queima das Fitas em Coimbra. Em suma, e de modo grosseiro, é um carnaval universitário. O ímpeto da presença carnal e molecular é mais forte que eu. Conjugo com primazia o verbo “precisar”: preciso estar lá.

O médico receitou pílulas de planejamento, comprimidos para ativar o meu senso de posteridade. “Creio no amanhã”, contestei. “Mas bem sei que ele é uma mera consequência do ontem.” E, no meio disso tudo, estamos nós. Sós. Presentes.

2 comentários:

Sandryne Barreto disse...

Como uma pessoa pode escrever tão bem, hein? Minha nossa!! Deixa esse médico pra lá, Gustavo. Fica com o Nelson, com o Pessoa, o Carpinejar...eles têm mais pra te acrescentar.

Mary Jo disse...

O médico tambem nao disse nada.. Apenas que tens de viver com isso. Nada que nao se saiba já. E acho que vives ate bem, nao é?

(eu gosto do teu viver...)

beijooooo