sábado, 29 de maio de 2010

O que faz dos portugueses portugueses

Uma ótima e divertida reportagem da revista Activa sobre as peculiaridades dos nossos patrícios. Quem sabe não há empenho mútuo dos brasileiros leitores deste blog para fazermos um raio-x verde-amarelo?



               

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Aqui, jantar é sagrado

Pode ser jogo de Copa do Mundo ou o cinema com a namorada. Aniversário da tia ou enterro do avô. Exame da faculdade ou reunião do trabalho. Nada supera o jantar em Portugal. Esse evento é sagrado, é mítico, é religioso.

Nunca vi um povo que gosta tanto de jantar. Não do verbo jantar, mas do substantivo jantar. Uma “jantarada”, como chamam, equivale ao peso do churrasco tupiniquim – a ocasião de reunir os amigos em torno de comida, bebida e conversa. Mas em proporções maiores. Bem maiores. Muito maiores.

A começar que a frase “tenho um jantar” é quase tão corriqueira quanto o “olá, tudo bem?”. Nove em cada 10 portugueses na faixa etária dos 20 aos 35 anos “tem um jantar” para ir todo fim de semana. O brasileiro convida o amigo para um bar, tomar umas cervejas, petiscar alguma coisa. Já o intuito do convívio português é forrar o estômago.

Contesta-se doença terminal, até promessa a Nossa Senhora de Fátima, mas nunca um jantar! Quer fugir de um compromisso chato? Basta dizer que tem um jantar. É tiro e queda. É batata! Agora, ir para um jantar é aventurar-se na cultura lusitana. Há os jantares intimistas e reservados, com poucas pessoas e ambiente calmo, mas um jantar que é um jantar mesmo tem mesa grande, barulhenta e pelo menos 15 seres esfomeados.

Entre os jovens, alimenta-se para fazer o estoque da saída a seguir. Porque o nosso endiabrado esquenta é o glorioso jantar deles. Antes da festa, da farra, da balada, da ramboia... chamem como quiser... senta-se à mesa para filar um bom prato de bacalhau, um bitoque, um arroz de pato, uma massa à carbonara, um frango com caril (curry) ou gambas (camarões) fritos. Tanto faz.

Jantar é sagrado, é divino, é a “última ceia” antes da morte simbólica (o sono ou a bebedeira). Há quem diga que supera até noite de núpcias. Mas aí já é intriga: afinal, isso também é jantar.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Não quero...


Não quero, meramente, escrever sobre o clima. Lisboa está sob um sol agradável, é verdade. Ainda que às vezes esfrie, às vezes chova.

Não quero limitar-me a narrar as saídas de fim de semana, o jantar na casa de amigos, o mergulho em companhia, o futebol entre caracóis, o fim de tarde no jazz, os novos encontros, as possíveis despedidas.

Não quero ser vão, ser leviano, ser mesquinho. Parece-me bom o quarto, o espaço, a praça em frente. Mais um lar: mais planos, sonhos, mudanças, alternativas. Tem horas que brincar de viver cansa.

Não quero olhar para fora como quem sente-se preso. Como se estivesse assistindo a tudo pelo outro lado do vidro. Preciso escolher caminhos definitivos, ainda que o definitivo seja efêmero. De alguma maneira, em algum momento, é de mim que estou a tratar.

Não quero falhar. Mesmo sabendo que faz parte do tentar.

domingo, 23 de maio de 2010

O condutor do último adeus


Pode ser melancolia acumulada ou descrença de momento, mas o fato é que peguei-me pensando naqueles poetas, escritores e astros musicais que morreram cedo. Pode ser loucura, mas não achei má ideia viver tudo de uma vez, o máximo em pouco tempo. Pode ser para chamar a atenção ou causar polémica, mas sempre tive a sensação de que vou durar até os 52 anos.

Hoje, cinco décadas estão além. Não quero envelhecer, e a única forma de evitar as dores e as rugas é na morte. Chamam-me de agoniado e impaciente com as situações mundanas: sou apenas urgente. Urgente porque tenho para mim que as coisas merecem a atenção especial do agora. Sou como uma criança birrenta que quer já, já, já!

O jamais se repete. Aprendi isso. Não acredito (mais) em paixão à primeira vista, não acredito (mais) em envelhecer ao lado, não acredito (mais) em vida ideal a longo prazo. Fui tomado por uma onda devastadora de ceticismo: acredito no instante, e somente no instante. Meus sonhos, ainda que estejam aqui, a assolar a minha (tentativa de) paz, agora são desprezados. Dou de ombros aos desejos íntimos como se fosse uma anedota antiga, batida e sem graça.

Este texto não é uma ode à morte. É uma sinfonia à vida. Cotidiana e plena. Nem mesmo quero eximir-me de responsabilidades e de atuar sem pesar as consequências. Entretanto, o tabu de ir embora para sempre, do sono eterno, não me assusta. O que assusta, e inquieta, é não viver... é simplesmente passar... é apenas existir...

sábado, 22 de maio de 2010

Mulher de malandro

Infelizmente, às vezes me sinto como uma mulher de malandro: amo um país que responde com porrada. Esta semana foi bem pesada. Ativou meu ceticismo e, até certo ponto, um negativismo silencioso. Porque eu quero pensar com a emoção otimista... mas recebo um tapa atrás do outro.

Difícil conseguir erguer-se assim. E continuar com o mesmo ímpeto. Se há uma grande prova a passar, é esta que encaro agora.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Fatídico 18


Eu tive uma terça-feira para ser ceifada, dizimada do calendário, esquartejada em minutos e enterrada ao longo de um milhão de anos. Foi um daqueles dias em que você não deveria se levantar. Melhor: não deveria nem mesmo despertar para a consciência – dormir 24 horas seria a salvação.

Batizei de Fatídico 18. É uma boa combinação de letras e algarismos. Sei que vou rir do turno amaldiçoado, mas passada apenas uma jornada, restrinjo-me ainda a sentir o misto de confusão, desmotivação e raiva. Ai dos abutres otimistas, aqueles típicos arroz de festa que surgirem com discursos positivistas e cheios de esperança. Pior que isso só os que argumentam:

– Nossa, tanta gente passando fome, sem teto e tantas outras mazelas no mundo que você devia agradecer por ter saúde, por isso, por aquilo, blá blá blá...

É nessas horas que penitencio-me em silêncio: maldita ânsia de partilhar! Devia lembrar sempre de Quintana e seu sábio ensinamento: “O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso”. Fatídica verdade.

sábado, 15 de maio de 2010

Lá se vão os sonhos


Ora, lá se vão os sonhos. Sonhar não custa nada? Mas claro que custa! Lá se vão as tenras tardes estirados ao sol, as manhãs de hálito fresco, as noites fogosas, suadas, graúdas. Sonhar custou-me a vida, custou-me a morte. Custa-me a existência sorumbática e sonolenta.

Lá se vão os sonhos, somem por caminhos escusos. Pegam atalhos para outros dias, dias fortuitos e futuros, que nem ao menos nos aquecem. O destino é um prato que se degusta frio, que se devora cru, e nem por isso nos sacia, nos alimenta. Um dia abri as asas para o céu e tudo falhou: caí para um precipício interminável de realidade.

Mas todos nós já amamos certo, já amamos errado. Todos nós tivemos vergonha de gostar, receio de entregar-se, pavor do papel de parvo. Nunca, porém, achei que fosse desencontrar-me aqui, agora, a justificar na escrita o que ninguém um dia jamais poderá conciliar. Somos contos contando contos. E mais nada.

Todos os sonhos se foram, ruíram, esvaziaram-se diante da minha falta de forças para continuar a sonhar. Eu tento. Ah, se tento! E se não consigo, alguma coisa aí deve estar errada. Não venham com pena ou avisos. Com prévias ou colo. A palavra não deve ser uma ponte para a piedade alheia. Deve ser um túnel para a percepção tácita.

Mas já não há luz ao fim dele. Escureceram-se os sonhos.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

O caos calmo do mundo


A Europa Ocidental está confusa. Portugal está confuso. Uma espécie de caos calmo atingiu o lado mais oeste do Velho Mundo. Quando vai arrebentar, não sei. Mas eu, pelo menos, estou quase lá.

Para começo de conversa, temos a infindável nuvem cinza do vulcão de nome impronunciável – e nem me atrevo a um ctrl+c, ctrl+v. Ora, dizem que ainda pode durar meses. As companhias aéreas colecionam prejuízos aqui e ali. Aviões na terra, tripulação parada, passageiros desesperados. Há quem diga que é a fumaça de Lost.

Depois vem a bancarrota da Grécia. Tumulto, quebra-quebra, piedade econômica... a União Europeia vê ruir o seu modelo – e há perigo iminente de outros países seguirem a tragédia. De certa forma, nada muito novo. Após a crise mundial, onde passei a dormir de luz acesa com medo do bicho-papão, percebemos a vulnerabilidade de todo o sistema.

E não é que, em meio a isso e a denúncias no Vaticano, o Papa chegou a Portugal? Lisboa parou na terça-feira e foram gastos milhões de euros para receber o pontífice (ainda tenho lá as minhas ressalvas com essa palavra engraçada. Digam se não parece uma doença coronária). Ratzinger, que tem nome para lá de nazista, banhou-se de ouro e abençoou milhares de pessoas no Terreiro do Paço. Não foi macumba. Mas se fosse, teria sido mais eficaz.

Para encerrar, a cereja do bolo. Na política do pão e circo, o futebol teve atenção de destaque nos noticiários. O Benfica, clube de 200 mil sócios e mais de 15 milhões de adeptos espalhados, sagrou-se campeão após quatro temporadas. Poucos dias depois, saíram as convocações de Portugal e Brasil para o Mundial. E o planeta começa a, definitivamente, respirar África do Sul.

Os tempos já são desordenados demais por si só e os fatos não ajudam. Na dúvida, com a alma fantasiosa que carrego, nada prático que sou, ilógico e imaterial, simplesmente aponto para a direção de Nelson Rodrigues: pior então para os fatos.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Quatro anos em 30 dias

Juscelino Kubitschek quis evoluir 50 anos em cinco. Modernizou o Brasil, transferiu a capital do Rio de Janeiro para Brasília, investiu no presente de um país tachado sempre como do futuro.

Agora é a minha vez. Quero avançar quatro temporadas em apenas um mês. Definir o meu rumo, sentenciar minhas escolhas, reforçar as convicções e os sonhos. Entre hoje e 14 de Junho serei único e exclusivo de uma proposta.

É que está mais que na hora de eu, também, deixar de ser futuro. E tornar-me agora.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O que acontece na Queima, fica na Queima


Entre os males, o menor. Voltei vivo, são e salvo, da festa mais etílica de Portugal. Acho que em matéria de álcool, a Queima das Fitas de Coimbra só deve ficar atrás da Oktoberfest de Munique. E olhe lá!

Nunca vi tanta bebida por metro quadrado em meu reles prontuário sobre o assunto. No carnaval se bebe? Bebe sim, senhor! Mas nada comparado a esta folia universitária. Coimbra para por mais ou menos uma semana: quando ocorrem shows, eventos e mais outros tantos pretextos para se embebedar.

Um dos slogans fortes na cidade é “O que acontece na Queima, fica na Queima”. Muito mais pelos loucos que propriamente pela loucura. No quesito “descaro”, nosso carnaval ainda reina soberano. É muito álcool na veia, entretanto efetivamente pouca espontaneidade.

O melhor momento da festa é, disparado, o cortejo de domingo. Tentem montar a imagem dionisíaca na cabeça: um desfile com 110 carros “alegóricos” representando os cursos; todos abastecidos com cerveja, vodka, vinho, uísque, licor beirão, aguardente; essa infinidade de bebida sendo distribuída ao longo do passeio. Pronto, eis a cena.

Não vou mentir: fiz jus à farra. Na noite de sexta fui à apresentação do Mr. Bombastic, Shaggy. Dispensável. Sábado deixei passar a Daniela Mercury e me rendi ao fino – conhecida por imperial em Lisboa e por chope no Brasil – por apenas 50 cêntimos na Associação Académica de Coimbra. E, para encerrar a (minha) Queima, estive a mendigar cerveja em vários carros. Numa dessas, ganhei até um sanduíche.

No fim das contas, só faltou mesmo deixarem fazer o que realmente estava afim de fazer – depois de ter tomado umas e outras: subir num dos carros e acompanhar o cortejo lá de cima. Até andei a implorar a alguns colegas estudantes que permitissem, mas descobri uma verdade irrefutável, mesmo na aparente desordem etílica: nem sempre um slogan é levado à risca.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Síndrome de Urgência


Há um bom tempo que convivo com uma doença crucial. Uma peste bubônica, um mal crônico, incurável, visceral. É um tipo – até comum – de manifestação psicossomática, psicossocial, psicomotor, que ataca o sistema nervoso e inquieta a alma. É a Síndrome de Urgência.

O diagnóstico foi um tapa de luva de pelica: “Estas vontades persistentes, esta agonia mordaz e crescente que tens por ir e vir, por viajar, conhecer vários sítios, tocar as descobertas, lambuzar-se de experiências... enfim, esta patologia patética, dificilmente pode ser tratada. Terá de aprender a conviver com este complexo, sr. Gustavo”, afirmou o circunspecto doutor.

Quando está no sangue, está no sangue, oras bolas! Pouco se pode fazer. Mesmo financeiramente roto, manco dos bolsos, anêmico na carteira, amanhã vou à Queima das Fitas em Coimbra. Em suma, e de modo grosseiro, é um carnaval universitário. O ímpeto da presença carnal e molecular é mais forte que eu. Conjugo com primazia o verbo “precisar”: preciso estar lá.

O médico receitou pílulas de planejamento, comprimidos para ativar o meu senso de posteridade. “Creio no amanhã”, contestei. “Mas bem sei que ele é uma mera consequência do ontem.” E, no meio disso tudo, estamos nós. Sós. Presentes.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Aquelas voltas que a vida dá


Abril foi estranho. Foi estranho porque passou numa lentidão bovina. Ruminei os seus dias à espera que algo grande acontecesse, algum marco, algum Antes e Depois que delimitasse  a minha história.

Passou Abril entre tantas pretensões, como se pudesse direcionar qualquer decisão. Que engano mais juvenil, mais trivial. Nada de grande aconteceu, até porque é nas pequenezas de um caminho que se fazem as verdadeiras mudanças.

Enquanto estive em busca do evento derradeiro, vários detalhes invisíveis bicaram o meu destino. Pois já mudo o rumo, já arrumo novos muros para escalar, já murro o mundo, enfrento tudo com cada vez menos medo de errar. É que a vida é ousadia e deslize, glória e tragédia, sorrisos e lágrimas.

Despeço-me de Abril com a sensação de dever cumprido. Adentro Maio com aquela tenra, e prazerosa, noção de que tudo está em branco: as páginas ainda vão ser preenchidas. No seu ritmo, ao seu jeito. Pressa? O tempo foge, mas deixa ele dar uma escapada... às vezes é bom.

Há um mês não imaginava escolher o que escolhi. Tomar tais decisões. Como está sendo moldada a minha trajetória, desde 2005. Eu gosto do imprevisível, das voltas que a vida dá. Sem nunca nos antecipar um átimo sequer.