sexta-feira, 16 de abril de 2010

O autocarro 767

Na segunda-feira peguei o 767 – simplesmente pelo prazer de pegá-lo. Saí mais cedo do trabalho e fui em companhia da Ju. Ela mora longe pra caramba. Quem conhece Lisboa sabe onde fica a Amadora. Mesmo assim, entrei no autocarro, sentei e fomos conversando e descodificando a paisagem.

No meio do trajeto deu aquela fome. Saquei da mochila o pacote de batatas para lambuzarmos o dedo de óleo industrializado. Passámos pela avenida Almirante Reis, onde croc croc croc tantas estórias bacanas foram construídas. Visitámos pelo vidro vários lugares que croc croc croc preencheram a nossa trajetória portuguesa. Foi bom não ter o relógio contra ou o destino a apressar-nos – e aproveitar, tão-somente, o papo e a vista.

Estamos sempre ocupados, a andar para um lado e para o outro num frenesi estéril. Se não estamos, fingimos estar. É que a sobrancelha cerrada dá um ar de importante. E o ócio, afinal, já não nos é familiar. Ora essa, o que impede subir num autocarro ou pegar o metro para apreciar apenas o caminho? Por que precisamos ter sempre um ponto final nas idas e vindas?

Nesse dia não tive. Nem gosto de ter. Já subi e desci de transportes sem critério específico. Já perambulei por ruas sem portar mapa ou sentido de direção – sem, ao menos, saber o motivo dessas andanças. Talvez isso seja um dos tentáculos da liberdade.

Outro dia mesmo, perdi-me de propósito ao experimentar um caminho que deu errado. Eu sabia que ia dar errado. Na verdade, deu certo. Descobri que por ali não chegaria onde tinha de chegar, mas cheguei a caminhos onde valeu a pena passar. É assim a vida, afinal.

Bom é despreocupar-se com o porto seguro, é velejar pelos mares ocultos, das descobertas, do descompasso. O 767 que peguei para acompanhar a Ju trouxe-me de volta. Por mais longe que se vá, pode-se sempre retornar pela mesma via.

Um comentário:

Mary Jo disse...

Tambem gosto dessa sensaçao. Nada me faz sentir mais livre do que andar sem a perseguiçao de horarios. Andar por andar apenas. À descorta ou não..

(Confesso que já por algumas vezes tambem entrei em autocarros apenas por entrar.. e soube bem. )

beijoooooooooo