sexta-feira, 2 de abril de 2010

Imersão marroquina - Comerciantes natos

O comércio está mesmo no sangue marroquino. Desde o parto já deve haver negociação pelo cordão umbilical, pelo líquido amniótico, para realizar o teste do pezinho. Como a gente sabia deste pormenor essencial, ensaiámos o discurso do pouco dinheiro: “viemos do Brasil”, “não temos euro”, “somos estudantes”.

Mas não adiantou lá grande coisa. Em vez de “empurrar” os objetos mais caros – normalmente destinados aos abastados turistas europeus –, vinham com os produtos mais humildes. Tivemos de ter um jogo de cintura nem sempre visto com bons olhos. Fomos xingados umas tantas vezes em árabe, é certo. O que o ouvido não entende, o ego não sente (e admito que também mandamos alguns marroquinos para onde achávamos que mereciam ir).

Quase tudo comprado foi por livre e espontânea vontade. Brotou do interesse em ver uma vitrina, entrar na loja, regatear e adquirir. Os guias que fazem os percursos nas medinas ou kasbás têm comissão em cima das vendas. Por isso, geralmente os passeios são divididos do seguinte modo: a primeira hora é de saga histórica; a segunda, terceira e quarta são puro comércio.

Eles não barganham a alimentação. Os preços dos restaurantes são tabelados. É pagar pouco e comer muito. Também não tem essa de negociar as chamadas para a oração. Ao longo de 24 horas, são cinco rezas com duração de cinco minutos cada: antes de o sol nascer, no meio da manhã, no período do almoço, à tarde e à noite.

As mesquitas são as edificações mais altas das cidades, e possuem alto-falantes para convocar os fiéis. Existem mesquitas femininas e masculinas. As vozes repetem por cerca de 30 minutos palavras como: “Deus é grande. Nosso Deus é único. Venha rezar, venha rezar”. Para se ter uma ideia, o início é às 4h30 da manhã – a vida noturna é quase inexistente.

Marrocos é considerado um dos países de religião muçulmana mais moderados e permissivos. Porém nem adianta argumentar isso com a Soraya. Ela foi cortejada em árabe e analisada de cima abaixo, mesmo usando roupas que não enrubesceriam uma freira. Há mulheres de burca, várias com lenço na cabeça, mas também há muitas vestidas casualmente: sempre a cobrir pernas, colo e braços.

Confesso que após uma semana de abstinência contemplativa, ver uma simples canela feminina já me fez feliz. Diante da privação, não podia ser nada exigente.

Um comentário:

Sol disse...

Só você para me entender Gu! E realmente nem uma canelinha de fora deve ter sido algo surreal aos nossos destemidos protetores das terras do sol quente.kkkkkkkkkkk