segunda-feira, 19 de abril de 2010

A barba que devia ser feita


Eu preciso fazer a barba. Devia, aliás, lá estar agora – fazendo a barba. Mas, em vez disso, sento em frente ao Compaq superaquecido para dizer coisas sobre o que preciso fazer. Bem, eu não vivo. Escrevo a respeito de viver. E se às vezes parece-me justo, outras parece-me um tanto covarde.

“Mais vale escrever do que ousar viver, ainda que viver não seja mais que comprar bananas ao sol, enquanto o sol dura e há bananas que vender.” É o que Fernando Pessoa nos deixou. Eu devia fazer a barba, porque fazer a barba não é nada mais que me dar uma feição de homem que vive. Se só escrevesse, pouco importavam os pêlos que crescem desregradamente.

Concluí que devo fazer a barba enquanto lavava os dentes. A escova escapou e embranqueceu o meu queixo. Lembrei de quando era pequeno, de quando fazia a barba invisível com a lâmina da escova e a espuma da pasta. Àquela época, tendo o rosto liso, eu vivia. Hoje, escrevo.

Escrevo para esquivar-me da vida. Nas palavras, finjo ser qualquer um – coisa que, no contato com o outro, logo a máscara cai. “O poeta é um fingidor”, ensinou mais uma vez Pessoa. Todo texto, na verdade, tem um quê de falsificação. Talvez eu nem tenha barba. Talvez só precisei mesmo de um subterfúgio para desobrigar – e desabrigar – as obrigações.

“Que é a arte senão a negação da vida?”, certo Fernando?

3 comentários:

Sandryne Barreto disse...

Então você pode ser um genérico? Não um original. E quem disse que o que finje ser não é tão bom quanto aquele que realmente é?

Alex Gruba disse...

Continuas um poeta, caro patricio! O mais engracado e que, aqui no sul do mundo, com a barba eu pareco alguem famoso. Ja me falaram isso umas tres vezes! Hehehehehehe. Deve ser meu proximo texto no meu blog, que tem um estilo mais "porraloca".
E dale, Barcelona!

Mary Jo disse...

Pessoa é realmente um mentor, é o caminho certo.

adorei.parabéns!