sexta-feira, 30 de abril de 2010

Só o sol salva


O sol que agora brilha também faz reluzir o nosso bom humor. Ora, o que somos na ausência do astro-maior, no marasmo do tenebroso Inverno, que não taciturnos dramalhões? Entendo  melhor aquela passagem de “Um homem precisa viajar”, do Amy Klink. Aliás, já a reproduzi aqui milhares de vezes.

Ando muito mais disposto com o calor, ainda que às vezes infernal. O nosso descontentamento é de uma promiscuidade fluvial, bradaria Nelson. Mas estou confortável assim: suando e com a boca seca. Diria até, e vejam só o otimismo, que estou bronzeado, que a praia de domingo passado surtiu efeito.

Ah, este sol pode ser intenso, mas queima pouco. Pouco para quem está acostumado com os raios ultravioletas verde-amarelo. No Brasil, cinco minutos de exposição direta são fatais, são contumazes, são ozônicas. Em Portugal não. Quer dizer, pelo menos para as nossas peles já acostumadas com o “pior”.

A certeza é que a volta do bom tempo muda a cidade. Lisboa passa à vida – vê-se passeios nas ruas, não mais aquela correria esquizofrênica incentivada pelo frio. Os jardins e parques respiram pessoas, enquanto as praias amontoam-se de banhistas. Os festivais musicais começam, as esplanadas estão cheias e há sempre uma cena fixe no miradouro de São Pedro de Alcântara.

Em resumo: é nesses momentos que não me vejo largar as poucas, mas preciosas, conquistas mundanas que fiz. Sinto-me distante do regresso ao eterno sol tupiniquim. Ainda existe qualquer coisa de muita coisa a aproveitar, aprender, arriscar.

Afinal, tudo inicia-se pela letra A. De amar.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Cada um na sua greve

Os transportes coletivos de Lisboa resolveram parar hoje. É dia de greve geral, mas nem tão geral assim – o metro funciona. Autocarros, comboios e barcos permanecem desligados nos terminais, estações e cais.

Estou completamente safo de transporte para ir ao trabalho – que é a minha única incumbência neste momento. Moro a cinco minutos a pé: basta descer, descer, descer, virar à esquerda, seguir, esquerda de novo e pronto. Não tem atraso nem cansaço. E digo mais: é o melhor que se faz.

Em Floripa vivia a 15 minutos. Ia e voltava caminhando, salvo em dias de chuva. Daí pegava o Palio vermelho. Mas sempre clamei, em Brasília principalmente, pela espontaneidade de chegar aos lugares como bem entendesse. Em ter opções. Lisboa é assim.

Hoje, com a greve, pode-se até notar uma certa dependência aos transportes. No entanto, se assim quiser ou mesmo for preciso ir a algum lado mais remoto, dá para se virar bem. Não apenas porque o metro está aberto, e sim porque bater pernas é acessível, saudável e divertido. A cidade permite isso...

... ainda mais que Primavera resolveu dar o ar da graça.

domingo, 25 de abril de 2010

Revolução dos Cravos e das ideias


Portugal comemora hoje a liberdade. Lá se vão 36 anos da Revolução dos Cravos, o golpe de estado que derrubou do poder o ditador Oliveira Salazar*. Os nossos patrícios chamam o feito de 25 de Abril.

De sábado para domingo ocorreram festas em todo o canto do país. Fui à Praça da Liberdade, em Almada, que fica do outro lado do Tejo, a partir de Lisboa. Após vários minutos de uma bela queima de fogos – digna de réveillon carioca –, começou o show de uma das bandas mais animadas que já assisti: Óquestrada.

Estive numa apresentação deles em setembro do ano passado (leia aqui). É, de fato, uma daquelas experiências singelamente divertidas da minha vida. Boa música, ótimo grupo de amigos e vodka finlandesa. Misturas ideais.

Hoje aproveitei para conhecer a “margem sul”, que é como se chama o lado de lá. Primeiro é válido explicar como cruzei o rio: de barco. Uma sensação fenomenal navegar pelo Tejo. Depois visitei Barreiro, Palmela e Arrábida – um sítio belíssimo com paisagens paradisíacas.

Foi daqueles dias abençoados, certeiros mesmo. O que cria para quem está no Brasil um (possível) problema: toda vez que se passa isso, sinto-me menos impelido a voltar. E, podem acreditar, estou começando a “mexer meus pauzinhos” para a viagem d’além mar durar mais...

* Na verdade, como bem me corrigiu a amiga Sofia da Palma Rodrigues, o 25 de Abril não destituiu Salazar do poder, afinal ele já estava morto em 1974. A revolução marcou o fim do regime ditatorial que imperava em Portugal.

sábado, 24 de abril de 2010

A certeza de viver uma ilusão


“O sábado é uma ilusão”, escreveu Nelson Rodrigues. Ando cada vez mais fascinado pelo polémico protagonista do meu trabalho de mestrado. Foi ele que motivou, neste sábado ilusório, em me materializar no cronismo.

Talvez isso não venha ao caso para vocês. É mera especulação. Gosto da palavra, vagueio no mundo das letras, entre dois blogues ativos, textos hibernados, poesias desprotegidas, anseios verbais. Como é mesmo que Pessoa dizia? Ah sim... “mover-se é viver, dizer-se é sobreviver”.

Lisboa se renova para mim na repetição. Agora já tenho uma história, um passado contado na cidade. Já ganhei permissão do tempo para comparar o ontem com o hoje – e ver que muita coisa que pensava ser permanente, nada mais foi que um lampejo. Permissão estendida para planejar o amanhã.

Esta semana recluso, detido em minha falta de ar e de esperanças, foi conclusiva para definir o que vem a seguir. O sábado é uma ilusão a qual quero aproveitar sem medo, sem racionalizar, sem o disparate do enfrentamento, sem trazer realidade bruta ao desvario. Ora, que mal há? As ilusões são necessárias! – e me fortalecem.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

As mentiras de um "tudo bem"


Quando perguntam “Tudo bem?”, o reflexo é dizer que sim. A gente tem (mais) essa hipocrisia tatuada nos bons modos. Aprendemos que os nossos problemas limitam-se à meia dúzia de pessoas à nossa volta. E olhe lá!

Os nossos problemas não são mais que nossos. Ignorância pensar que eles preocupam a todos. Por isso, por mais cínico que soe a resposta de “tudo bem”, há aqui um instinto nítido – e humano – de preservação da espécie.

Queria eu poder vociferar: “Não, não está nada bem. Do meu futuro, nada sei. Estou perseguindo algo que nem sei se existe. Fico de um lado pro outro, fingindo que sei o que faço, mas a verdade é que estou perdido! Ah, e esse fardo da tese que não se resolve? Cadê o meu orientador para confirmar que assinou os papéis e já está marcada a defesa?

“Não, não está nada bem. Minha saúde está uma merda, não consigo dar três passos sem ficar ofegante e, para mim, sempre atlético e cheio de vontade, ter de ficar recluso num quarto é mesmo agoniante. Queria eu poder voltar a morar sozinho, num apartamento todo para mim. Isso sim que era bom. Mas foram as escolhas que fiz, né?

“Não, não está nada nada bem. Sinto falta de ser amado e cuidado. Queria uma mulher para ter ao lado, para ser companheira das horas em que tem e que não se tem nada para fazer. E não está nada bem porque sou um constante sonhador. Vivo a pensar como seria com ela, que mexeu demais comigo no primeiro dia do ano e não acreditou que tudo tinha sido real.

“Não, tudo está um caos. Minha cabeça, meu coração, meu corpo, minha alma estão uma bagunça só. E, mesmo assim, sinto-me ‘obrigado’ a sorrir e responder ‘tudo bem’! Mas não está... não está!”

Lógico, porém, que nunca faria isso.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A barba que devia ser feita


Eu preciso fazer a barba. Devia, aliás, lá estar agora – fazendo a barba. Mas, em vez disso, sento em frente ao Compaq superaquecido para dizer coisas sobre o que preciso fazer. Bem, eu não vivo. Escrevo a respeito de viver. E se às vezes parece-me justo, outras parece-me um tanto covarde.

“Mais vale escrever do que ousar viver, ainda que viver não seja mais que comprar bananas ao sol, enquanto o sol dura e há bananas que vender.” É o que Fernando Pessoa nos deixou. Eu devia fazer a barba, porque fazer a barba não é nada mais que me dar uma feição de homem que vive. Se só escrevesse, pouco importavam os pêlos que crescem desregradamente.

Concluí que devo fazer a barba enquanto lavava os dentes. A escova escapou e embranqueceu o meu queixo. Lembrei de quando era pequeno, de quando fazia a barba invisível com a lâmina da escova e a espuma da pasta. Àquela época, tendo o rosto liso, eu vivia. Hoje, escrevo.

Escrevo para esquivar-me da vida. Nas palavras, finjo ser qualquer um – coisa que, no contato com o outro, logo a máscara cai. “O poeta é um fingidor”, ensinou mais uma vez Pessoa. Todo texto, na verdade, tem um quê de falsificação. Talvez eu nem tenha barba. Talvez só precisei mesmo de um subterfúgio para desobrigar – e desabrigar – as obrigações.

“Que é a arte senão a negação da vida?”, certo Fernando?

sábado, 17 de abril de 2010

Sábado à noite


É sábado à noite. Imaginem a cena: o Bairro Alto está cheio, eu cheio de anseios de lá estar e estou em casa. A cidade transborda vontade. Fez sol depois de quatro dias de chuva. Almocei arroz, feijão e picanha no Colombo e dei uma volta pelo Rossio e pela Baixa antes de terminar a noite prematuramente com umas cervejas e chouriço na Casa do Alentejo.

Lisboa está com espanhóis e ingleses aos montes. Não sei se por conta do vulcão da Islândia, mas isto aqui está uma brasa – desculpem o trocadilho infame! É sábado e nada de Bairro Alto com os amigos, de boas risadas, de imperial a 70 cêntimos, de shot de uísque, vodka e piri-piri no bar dos Erasmus.

Só posso lamentar por não aproveitar uma típica noite de Primavera.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

O autocarro 767

Na segunda-feira peguei o 767 – simplesmente pelo prazer de pegá-lo. Saí mais cedo do trabalho e fui em companhia da Ju. Ela mora longe pra caramba. Quem conhece Lisboa sabe onde fica a Amadora. Mesmo assim, entrei no autocarro, sentei e fomos conversando e descodificando a paisagem.

No meio do trajeto deu aquela fome. Saquei da mochila o pacote de batatas para lambuzarmos o dedo de óleo industrializado. Passámos pela avenida Almirante Reis, onde croc croc croc tantas estórias bacanas foram construídas. Visitámos pelo vidro vários lugares que croc croc croc preencheram a nossa trajetória portuguesa. Foi bom não ter o relógio contra ou o destino a apressar-nos – e aproveitar, tão-somente, o papo e a vista.

Estamos sempre ocupados, a andar para um lado e para o outro num frenesi estéril. Se não estamos, fingimos estar. É que a sobrancelha cerrada dá um ar de importante. E o ócio, afinal, já não nos é familiar. Ora essa, o que impede subir num autocarro ou pegar o metro para apreciar apenas o caminho? Por que precisamos ter sempre um ponto final nas idas e vindas?

Nesse dia não tive. Nem gosto de ter. Já subi e desci de transportes sem critério específico. Já perambulei por ruas sem portar mapa ou sentido de direção – sem, ao menos, saber o motivo dessas andanças. Talvez isso seja um dos tentáculos da liberdade.

Outro dia mesmo, perdi-me de propósito ao experimentar um caminho que deu errado. Eu sabia que ia dar errado. Na verdade, deu certo. Descobri que por ali não chegaria onde tinha de chegar, mas cheguei a caminhos onde valeu a pena passar. É assim a vida, afinal.

Bom é despreocupar-se com o porto seguro, é velejar pelos mares ocultos, das descobertas, do descompasso. O 767 que peguei para acompanhar a Ju trouxe-me de volta. Por mais longe que se vá, pode-se sempre retornar pela mesma via.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Os 7 crônicos cronistas


Era madrugada e eu trabalhava nos ajustes da tese. Escrevi “Mallarmé” no google, em busca de informações sobre uma obra do escritor francês. Não sei como, nem porque, cheguei a um blog cuja apresentação remetia àquela teoria dos Seis Graus de Separação.

O espaço estava às moscas, mas a ideia tinha peso. Era simples e objetiva, “copiada” dos jornais: sete autores, cada dia da semana o texto de um. Por que não repetir a fórmula? Às vezes me bate uma inquietação quanto ao retorno da escrita. Quis experimentar.

Na mesma madrugada, terminei o que tinha de terminar do trabalho – mentira; acho que nem tive mais concentração para continuar –, e passei a pensar no tal blog. Quem seriam os integrantes? Qual o nome? E o propósito? Como fazer para que tudo não ficasse restrito a uma criação para o nosso (leia-se meu) próprio ego?

Os 7 Cronistas Crónicos nasceu dessas neuroses, mas também de uma esperança tenra e de um entusiasmo imensurável. Rainer Maria Rilke tem uma passagem arrepiante em Cartas a um Jovem Poeta: “Acima de tudo, na hora mais silenciosa da noite, pergunta a si próprio: tenho de escrever? Escave dentro de si até encontrar uma resposta profunda. E se esta resposta for afirmativa, se puder enfrentar esta séria pergunta com um «tenho» simples e forte, então construa sua vida em torno desta necessidade.”

Com o arrebatamento do João, o lirismo do Leandro, a criatividade da Priscila, a perspicácia do Rafael, a leveza da Sandryne e a ternura da Sofia encontrei o equilíbrio ideal para tocar este projeto. Convoquei-os sem saberem muito bem a razão. Pior: sem terem total noção do que se tratava. Aceitaram de imediato – e vi, aí, que podia contar com eles.

Já vamos para a terceira semana e o site tende a desenvolver. A crônica, tida como “gênero menor” nas redações, um híbrido de jornalismo e literatura, encontra-se no despojar das linhas de cada membro do despretensioso blog. Estamos pisando num terreno ainda argiloso, com certo receio de afundar. Mas caminhamos de mãos dadas e com as vontades comuns. 

Num mundo doente a lutar pela saúde, o cronista não se pode comprazer em ser também ele um doente; em cair na vaguidão dos neurastenizados pelo sofrimento físico; na falta de segurança e objetividade dos enfraquecidos por excessos de cama e carência de exercícios. Sua obrigação é ser leve, nunca vago; íntimo, nunca intimista; claro e preciso, nunca pessimista. Sua crônica é um copo d’água em que todos bebem, e a água há que ser fresca, limpa, luminosa para a satisfação real dos que nela matam a sede. (Vinicius de Moraes)

terça-feira, 13 de abril de 2010

27 anos (em fotos)

É, porque a gente cresce... e não me apeteceu escrever sobre isso.



segunda-feira, 12 de abril de 2010

A Espanha em minha vida


Terminei o curso de Jornalismo em 2005. Mas creio que vem de antes – sim, com certeza vem de antes – a vontade de morar na Europa. Já tinha pesquisado um máster en periodismo em Valencia. Se não aconteceu é porque à época não pareceu o ideal. Eu e a Rayane decidimos viver em Florianópolis.

Três anos depois, lá fui arriscar a pele no Velho Mundo. Arriscar a pele que nada, isto aqui é tranquilo. Porém sempre tem aquele quê de aventura: cruzar o Atlântico, deparar-se com novos hábitos, ter de se virar no cotidiano. Escolhi Portugal, mas a Espanha continuou iluminada no meu imaginário.

E está cada vez mais forte, cada vez mais presente. Não só porque a beleza de Barcelona mantém-se inscrita na lembrança, mas porque as cenas do dia-a-dia trazem para perto a terra de Gaudí, Dali e Miró. Ando pelas ruas de Lisboa e só ouço o castellano – e que idioma lindo que é! Nos noticiários desportivos, é o Barça que está na moda.

Impossível desassociar uma coisa da outra. Tenho andado a estudar (escondido) o idioma. Às vezes me pego a contemplar fotos, sacar filmes, revirar bibliografias sobre o país. Tudo porque a Espanha está a enraizar-se em mim. E não faço questão alguma de retirá-la do trajeto.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Tenho muito a dizer


Não ter nada a dizer é vazio. Ter muito, é agoniante. Preciso exercitar a minha paciência para não dar com os burros n’água. Este jogo é um intrigante quebra-cabeça emocional.

Despertei dos sonhos, hoje, com uma tosse sufocante. Como se as palavras que guardo com cautela acumulassem em meu peito. Escarrei ansiedades e voltei a respirar com (certo) alívio. Este quarto, às vezes, é pequeno demais para a minha solidão.

Sinto que tenho tanto a dizer, mas é preciso calma. Sinto que estou a encarar o meu maior fantasma: a urgência. Sem noção de causa e consequência, tendo a arruinar toda e qualquer possibilidade sublime.

Despertei para a realidade sem, de fato, estar convicto de que é nela que devo estar. E isto que me perturba, este anseio de despir as vontades, de assumir as declarações que escrevo – para apagar depois –, aplacou (um pouco) ao assistir Before Sunset.

É que, acima de tudo, continuo a (precisar) acreditar (no conceito).

quinta-feira, 8 de abril de 2010

E lá se vai a tese...

Era para ser ontem, mas será hoje. Este texto nem aqui se mostraria. Imaginei-o porque não foi. Daí não custa nada um registro.

Pego os seis volumes da tese na gráfica e corro para a faculdade. Deixo na secretaria, com mais duas cópias em CD e o requerimento para a defesa. Burocracias necessárias. Após 18 meses, viramos cães adestrados: deitamos, rolamos e fingimos de morto pelo diploma.

Mais uma fase que finda. Só que em vez de traçar planos, quero dispensar o futuro. Não é lá do meu feitio prever coisas. Sou o profeta do óbvio ululante: de vontades desconhecidas. O mestrado foi um pretexto. Se preciso for, criarei outros.

Porque meu tempo verbal é o presente.

terça-feira, 6 de abril de 2010

O difícil, o impossível, o irremediável


Ando drummondiando por um caminho de pedras. Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo, o que faz com que o poeta mineiro seja lembrado quase sem querer. Drummond compôs em verso o que vivo desejoso de prosear.

Pelos trechos da sua escrita, penso sozinho – e há certo gosto nisso, é ato individual, como nascer e morrer. Mas abraço-o calorosamente neste clima ainda frio por conta da sua visão do amor.

É verdade que amar o perdido deixa confundido o coração. É verdade que há muitas razões para duvidar e uma só para crer; que a confiança é um ato de fé e dispensa raciocínio; que quando encontrar alguém que fizer o coração parar de funcionar por alguns segundos, pode ser a pessoa mais importante da sua vida.

Drummond soube passear pelos interstícios do amor. Porém, uma ideia dele sempre marcou os meus pensamentos: “o único e verdadeiro amor é o amor impossível”. Procurei a fonte e não encontrei. Li isso em algum momento.

Certa vez, perguntaram-me se não alimento este tipo de amor: o impossível. Se não é ele, e tão-somente ele, que me seduz. Oras, fiquei inquieto e chateado. Que bobagem, lógico que não! Óbvio que não! Claro que... talvez?

É, vocês todos têm razão: esta coisa de poema, de romance, de escrita deixa a gente pra lá de mágico, de ilógico. Deixa a gente meio tonto, meio zonzo, meio bobo. Que bom poder voltar ao ceticismo: onde o difícil, o impossível, o irremediável inexistiam. E existir, como ensinou Pessoa.

Estou lendo Ensaios de amor, de Alain de Botton. Mas, afinal, todo amor é um ensaio! Todo amor é um tatear no escuro, sempre melhor que ficar estático no claro.

sábado, 3 de abril de 2010

Imersão marroquina - Os destinos em detalhes


Foram cinco cidades em seis dias. Alguns outros sítios, como Ifrane (a Suíça marroquina), Meknès e Aït Ben Haddou (sítio das gravações de O Gladiador, Lawrence da Arábia e Alexandre O Grande), ficaram no hi-bye visit. Aquele tipo de turismo do vim, vi e vazei – porque, queira ou não, o tempo é escasso para conhecer metade de um país em menos de uma semana.

De Marraquexe já houveram aqui apreciações mil. Entre prós e contras, gostei da tumultuada urbe. Mas tenho certeza de que não retornaria tão breve. Se voltasse, teria em conta que a logística sofreria significativas alterações. Transitar na medina a pé até não é nenhum bicho de sete cabeças; chato mesmo é chegar até lá... um GTA VI: Lost in Marrakech até pode ser uma ideia rentável para a Rockstar.

De Fes, guardo alguns ensinamentos do nosso guia, Hamush. A fundação da cidade divide-se entre os imigrantes da Andaluzia e de Cairuão, na Tunísia. Uma ponte separa os dois povos na medina de El-Bali, a zona antiga.

Fes é Património Mundial da Unesco e conta com a universidade mais antiga do mundo ainda em funcionamento, a Universidade de Karueein, construída no ano de 859. Aprendi – não na universidade, mas com o guia – que o único animal permitido entrar numa mesquita é o gato, considerado pelos muçulmanos o mais higiênico, justamente por limpar as próprias fezes.

De Rabat, levo a imagem do Atlântico. Pode parecer desimportante, como sempre parece, mas vê-lo pelo lado africano mexeu comigo – como sempre mexe. Tivemos uma longa caminhada, sob um sol escaldante, que só não foi em vão porque a avenida Mohammed V, além de muito agradável, recebia um protesto de trabalhadores para lá de curioso.

Parecia uma gincana, com grupos vestidos com coletes de diferentes cores. Vez ou outra, empreendia-se uma correria: era a polícia a descer o sarrafo nos manifestantes. Cenas do cotidiano – é nessas horas que agradeço por me perder.

De Casablanca, eternizada pelo filme de 1942, ficou a imponência da mesquita Hassan II. Aliás, da película não há nada que possa ser apreciado. Todas as cenas nasceram nos estúdios de Hollywood. Casablanca é quase uma São Paulo, com seu trânsito estufado e sua volúpia econômica. Passamos pouco tempo na metrópole de 4 milhões de habitantes, porém o suficiente para perceber que aquilo lembrava mais as calles da Espanha que do resto do país norte-africano.

De Ouarzazate, usufruímos das simpatias de Habib e Fedoua, do excelente cuscuz tamanho XXL e do bon marché no narguilé comprado pelo Dani. É tudo arrumado e muito organizado na cidade, com aquela mistura interessante do rústico e do atual. O clima também é ameno, levando em consideração que estamos na “porta do Saara”.
O trajeto Marraquexe-Ouarzazate já valeu a viagem: é que o visual da Cordilheira do Atlas encanta qualquer um. Vê-se neve em alguns picos, enquanto a vegetação árida prevalece. As casas de barro margeiam a rodovia e lembram um pouco do nosso sertão. Do que este o povo sobrevive se nem água há direito na região?

São as diversidades de uma nação ainda com dificuldades financeiras, mas com riquezas infinitas em belezas, costumes e descobertas.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Imersão marroquina - Comerciantes natos

O comércio está mesmo no sangue marroquino. Desde o parto já deve haver negociação pelo cordão umbilical, pelo líquido amniótico, para realizar o teste do pezinho. Como a gente sabia deste pormenor essencial, ensaiámos o discurso do pouco dinheiro: “viemos do Brasil”, “não temos euro”, “somos estudantes”.

Mas não adiantou lá grande coisa. Em vez de “empurrar” os objetos mais caros – normalmente destinados aos abastados turistas europeus –, vinham com os produtos mais humildes. Tivemos de ter um jogo de cintura nem sempre visto com bons olhos. Fomos xingados umas tantas vezes em árabe, é certo. O que o ouvido não entende, o ego não sente (e admito que também mandamos alguns marroquinos para onde achávamos que mereciam ir).

Quase tudo comprado foi por livre e espontânea vontade. Brotou do interesse em ver uma vitrina, entrar na loja, regatear e adquirir. Os guias que fazem os percursos nas medinas ou kasbás têm comissão em cima das vendas. Por isso, geralmente os passeios são divididos do seguinte modo: a primeira hora é de saga histórica; a segunda, terceira e quarta são puro comércio.

Eles não barganham a alimentação. Os preços dos restaurantes são tabelados. É pagar pouco e comer muito. Também não tem essa de negociar as chamadas para a oração. Ao longo de 24 horas, são cinco rezas com duração de cinco minutos cada: antes de o sol nascer, no meio da manhã, no período do almoço, à tarde e à noite.

As mesquitas são as edificações mais altas das cidades, e possuem alto-falantes para convocar os fiéis. Existem mesquitas femininas e masculinas. As vozes repetem por cerca de 30 minutos palavras como: “Deus é grande. Nosso Deus é único. Venha rezar, venha rezar”. Para se ter uma ideia, o início é às 4h30 da manhã – a vida noturna é quase inexistente.

Marrocos é considerado um dos países de religião muçulmana mais moderados e permissivos. Porém nem adianta argumentar isso com a Soraya. Ela foi cortejada em árabe e analisada de cima abaixo, mesmo usando roupas que não enrubesceriam uma freira. Há mulheres de burca, várias com lenço na cabeça, mas também há muitas vestidas casualmente: sempre a cobrir pernas, colo e braços.

Confesso que após uma semana de abstinência contemplativa, ver uma simples canela feminina já me fez feliz. Diante da privação, não podia ser nada exigente.