sexta-feira, 12 de março de 2010

Parem as máquinas!

Parem as máquinas! Meus textos estão tomando rumos nauseantes. Às vezes com uma densidade oca que dá calafrio. É como se tivessem vida própria, como se respirassem sem a minha influência – pior: sob a minha intensa influência – e saíssem andando por aí, espalhando palavras chulas a bel prazer.

Pessoa disse que o poeta é um fingidor. Oras, eu estou sempre a fingir, como se o ópio literário resolvesse todos os meus problemas insalubres. Por isso pedi que parassem as máquinas: para ver se retomo as rédeas da escrita, que relincha, refuga e insiste em conduzir-me para lugares inóspitos.

Puxa, preciso falar das experiências exteriores se quero atingir algum lugar em alguém. Do que aprendi ao passar pelo frenesi de São Paulo, da mesmice de Brasília, dos (re)encantos de Floripa. Comentar o impacto entre Brasil e Europa. Sem invencionismo barato.

As minhas sensações? Tudo besteira! Devo trancá-las num sótão, dentro de um baú, guardadas numa caixa-forte. De que adianta expor a face mais pura em letras escuras?

Tudo continua normalmente sem que qualquer esforço altere o futuro. Em vez de mudar o mundo, vou escrevendo superficialidades com a impressão de profundo. E continuo igual: com os mesmos defeitos, as mesmas ansiedades, os mesmos medos. De que vale a tranquilidade adquirida se um dia ela vai embora?

Às vezes é preciso deixar a vida fazer a sua parte. É preciso sair de cena, recolher os instrumentos, fechar a cortina. Às vezes é preciso calma, é preciso simplesmente ficar estático, apenas observar. É preciso aquietar-se para mover.

Às vezes é no chão que deve-se mirar as estrelas. Porque elas não sustentam-se no céu por muito tempo. Às vezes parar as máquinas é fundamental. Adquiri certa repulsa dos meus últimos textos – expostos e escondidos. Mas o pior de tudo é que escrever, para mim, ainda é uma necessidade básica e intransferível.

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