sexta-feira, 19 de março de 2010

Palavras de gratidão



A escrita é uma emboscada. Um fingimento deveras, em que para mostrar uma face precisa-se esconder a outra. E, se não precisa, acostuma-se. É como jogar uma moeda para cima. Ao tombar, somente um lado fica à mostra.

Durante as linhas que me gasto, que me exponho aos mínimos e singelos pormenores, durante as linhas que chegam até vocês, o que faço nada mais é que me ocultar. Levanto muros de palavras, ergo fortalezas de frases para ninguém supor-me por inteiro, para ninguém conhecer o rei ao trono.

Esqueçam o fascínio que o parágrafo bem feito exerce. Busquem através de cada signo selecionado, de cada pausa empregada... As verdades, meus caros, estão no silêncio – mesmo no silêncio da escrita. O que não se diz tem uma razão de não se dizer.

Não agradeci. Simplesmente não agradeci os gestos de carinho que acalentaram a minha passagem no Brasil. Deixei o discurso oral fugir por vergonhosa vergonha. Assim acredito: existe um termo único e específico para cada situação que queremos descrever. A fala não permite tempo de pesquisa mental.

É coisa ágil, em movimento, viva. O texto é sono lúcido, sonho (e)laborado. Por isso, não achem que desprezei a recepção, os mimos, os risos. Só encontrei palavras na tela branca para abrir-me e saudar-vos. É que a escrita também pode substituir e surpreender. E às vezes faço isso com certa naturalidade.

Um comentário:

Robson M. Gonçalves disse...

Às vezes, Gustavo, não só no silêncio percebemos as palavras, mas também nas entrelinhas de tudo que está escrito ;-)
Abs, Robson.