terça-feira, 2 de março de 2010

Ouvindo as estórias alheias


Uma pessoa, qualquer pessoa, tem sua estória. Traz em silêncio os medos íntimos, as vontades vívidas, os desassossegos. Ouve do passado uma voz que assusta, porque machucar-se de novo dói. Vê no futuro uma brecha de esperança, porque o homem é movido pelo sonho.

Gosto de pescar estórias alheias, com serenidade. Sentir o que pensam, pensar o que sentem; trocar contos, contar trocos. Este escambo de experiências faz-nos conhecer as vidas pela vida de quem as passou. Basta uma dose de interesse, um fio de paciência e os enredos fluem levemente.

Em Barcelona, conheci a Natasha, uma carioca que morou 17 anos em Miami e depois aventurou-se pelo mundo trabalhando em cruzeiros. Visitou lugares nos quatro cantos do planeta – dezenas deles, que nem ouso citar aqui. Mas fiquei fascinado.

Participei de sua despedida na terra de Gaudí. Ela foi chamada para ser comissária de bordo da Ryanair e estaria de mudança para a Bélgica. Só que deu errado. Deu errado o destino da mudança, porque no caso do emprego correu tudo bem. Em vez dos Países Baixos, Natasha foi para o Reino Unido.

E tiveram tantos outros roteiros de idas e vindas, de alegrias e sofrimentos, de concessões e conquistas. É aí que mora a graça de tudo. De tudo isto que às vezes parece tão imenso e vazio, porém ganha sentido na própria simplicidade de perceber-se pequeno diante da infinidade de coisas a absorver.

Costumo repetir feito um papagaio de gaiola: não troco nenhuma facilidade caseira e cotidiana, nenhuma estabilidade financeira, nenhum equilíbrio racional, pelas oportunidades que ainda estão diante de mim, pelos valores que ainda irei adquirir. Um bom salário não paga a minha liberdade – real e imaginária.

Quero ouvir e partilhar estórias. Quero instigar-me pela curiosidade de conferir o que me foi narrado. Quero supor imagens, suspirar poemas, exalar prosas pelas têmporas, na inquietação de achar o mundo demasiado indescoberto e o tempo excessivamente fugidio.

Quero, por fim, misturar-me para chegar o mais próximo possível de mim.

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