quarta-feira, 31 de março de 2010

Imersão marroquina - A prática de se perder



Para visitar o Marrocos é preciso ter tempo. Marraquexe não dá a dimensão de quanto o país é acolhedor, de quanto as pessoas são simpáticas e acessíveis, de quanto a cultura é rica, de quanto o visual é múltiplo. Gostei da cidade, mas confesso que as passagens por Fes, Meknès, Rabat, Casablanca, Aït Ben Haddou e Ouazarzate foram muito mais proveitosas.

Para visitar o Marrocos é preciso ter carro. Vale a pena alugar um: o nosso, para cinco pessoas, saiu 43€ para cada – por seis dias! Dispensamos o GPS e fomos nos aventurar pelas ruas e estradas com um mapa e boa vontade. O mapa ajudou, já a boa vontade teve de ser “alugada”. É improvável que você se ache em alguma cidade. Quer dizer, é bem provável que você se perca várias vezes.

Quando chegávamos num sítio logo recorríamos ao francês da Ju: “Bonjour, monsieur. Une information s'il vous plaît”. E assim íamos tentando encontrar o hostel, um ponto turístico, um simples correio. No final da viagem, já estávamos todos abordando as pessoas com o corriqueiro pedido de informação no idioma napoleônico.

Normal mesmo era rodarmos em vão. Daí surgia uma alma caridosa que nos conduzia até o destino. Às vezes a alma não foi assim tão “caridosa” – e pagamos, sabendo que em Marrocos os dirhans atuam com mais eficácia que um merci. Porém houve também quem negasse o dinheiro. Ou até se ofendesse. Habib foi assim, em Ouazarzate. Ainda o convidamos para jantar, mas a nossa demora na arrumação esfriou o encontro.

Aliás, fizemos amizades em quase todos os lugares que parámos. Quando era um restaurante, logo vinha aquele sorriso e a dúvida de qual país representávamos. Os marroquinos adoram o Brasil, adoram os brasileiros, adoram futebol. O popular esporte é daquelas senhas para criar um vínculo e começar uma conversa. Talvez não sintam essa alegria nos europeus. Vai saber.

Onde pouco importa ser brasileiro, português, inglês, espanhol, turco ou alemão é nas estradas. A polícia rodoviária atua com rigor. Lembrei da epopeia na Argentina, quando fomos extorquidos duas vezes no trajeto até Buenos Aires. Mantive a média no continente africano, mas confesso que estas me pareceram até justas. A primeira, de 400dhs – com recibo e tudo –, foi no caminho para Fes. A outra, de 100dhs – aí sim uma falcatrua –, foi na autopista de volta para Marraquexe. Ao contrário do Brasil, a multa é paga na hora.

Talvez se cruzássemos o país em dromedários tudo teria sido diferente. Porém, ainda estaríamos na metade do caminho.

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