quarta-feira, 17 de março de 2010

A arte de fazer a mala


Arrumar a mala é como realizar uma cirurgia complicada. É preciso ter atenção a cada detalhe, escolher bem os movimentos e não cortar itens que são vitais. Não que já tenha vestido as luvas médicas, mas ultimamente tenho feito muito a mala.

Tudo começou em... bom, se for voltar muito lá atrás não saímos daqui hoje. Melhor ser conciso: além da mudança para Lisboa, troquei de casa quatro vezes na capital portuguesa. É um empacota, desempacota que não está no gibi. Pior que cada vez a gente junta mais tralha, mais penduricalhos, mais futilidades.

Então vim para o Brasil gozar estas férias “forçadas”. Abre mala, seleciona roupas, enche de livros, fecha mala. Abre a segunda mala, organiza os presentes, fecha a segunda mala. Foram dois trambolhos de 20 e poucos quilos, além da mochila de “mão” com outros tantos cinco.

No período em território tupiniquim quem disse que tive descanso? Saltei de São Paulo para Brasília (onde paguei excesso de bagagem: R$ 110!), de Brasília para Pirenópolis e de Brasília para Floripa. Malinhas pequenas, rápidas, fáceis... ainda assim malas, malas e malas.

Pronto, é a vez da derradeira jornada, do novo adeus, de colocar tudo dentro do baú de viagem. Tudo, tudo mesmo. E mais alguma coisa. Parece que estou lidando com um quebra-cabeça japonês. Além de antecipar o encaixe perfeito das peças, preciso antes pensar nas próprias peças. É um processo de seleção penoso, só equiparado a uma Oktoberfest (a qual loira me apresentar? qual cerveja tomar?).

Muito o que aprendi sobre a arte de fazer a mala, devo à minha mãe. Mulher ordenada, de visão à frente do seu tempo, mostrou-me como aproveitar os espaços da melhor maneira. Confesso que hoje, ao montar este puzzle cotidiano, sempre me pergunto: “Como faria dona Sandra?”.

Aí então, como se estivesse diante de um teorema matemático russo, vislumbro o resultado. Sinto-me uma espécie de John Nash da bagagem, um Will Hunting das malas. Ao menos para alguma coisa este vaivém tem de ter servido.

3 comentários:

Alex Gruba disse...

Grande, Gustavo!
Ainda estou naquela fase de perceber melhor o ritmo de Cape Town. É uma cidade muito atraente, tanto pelas coisas boas como pelas ruins.
Uma pena mesmo o desencontro em Floripa. Eu tava com a cabeça a mil, só pensando na viagem e tal, como vc deve imaginar.
Já estou seguindo esse blog. Eu vou passar um mês em uma residência estudantil, mas já estou de olho em novos locais pra morar. E já penso nesse trabalho de abre mala, arruma roupa, muda de local, mais mala, mais bugiganga... É isso mesmo. Quem quer meter o pé na estrada tem de estar preparado pra conviver com malas (aconselha-se conviver com aquelas que tenham alças). : ))
Sucesso na nova temporada na Europa. Vamos trocando msg (email, blog) até nos encontrarmos pra mais uma rodada. A primeira o senhor paga, afinal, vc tá na terra do Euro.
Abraço do sul do mundo!

Leandro Afonso Guimarães disse...

Acho que o que mais me fascina é sua capacidade de brotar textos como quem bebe água. Pensando que o blogue é atualizado todo dia, que existe o mestrado, e que (suponho) existem aqueles textos não contabilizados (os de nós para nós mesmos incluídos), fica a impressão que seu dia tem as horas do Brasil e as de Portugal. Ou melhor, as horas de Lisboa, Floria e Brasília. Sim, não são 24 nem 48, mas 72 horas. Precisarei de algo assim, Gustavo, rs.

Robson M. Gonçalves disse...

Que bela visão de um ato que à primeira vista parece ser tão simples, mas não é.
A única diferença é que Jonh Nash levaria consigo --- além das malas meticulosamente organizadas --- o seu amigo imaginário, rs...

Gostei dos seus escritos, amigo!
Abs, Robson.