quarta-feira, 31 de março de 2010

Imersão marroquina - A prática de se perder



Para visitar o Marrocos é preciso ter tempo. Marraquexe não dá a dimensão de quanto o país é acolhedor, de quanto as pessoas são simpáticas e acessíveis, de quanto a cultura é rica, de quanto o visual é múltiplo. Gostei da cidade, mas confesso que as passagens por Fes, Meknès, Rabat, Casablanca, Aït Ben Haddou e Ouazarzate foram muito mais proveitosas.

Para visitar o Marrocos é preciso ter carro. Vale a pena alugar um: o nosso, para cinco pessoas, saiu 43€ para cada – por seis dias! Dispensamos o GPS e fomos nos aventurar pelas ruas e estradas com um mapa e boa vontade. O mapa ajudou, já a boa vontade teve de ser “alugada”. É improvável que você se ache em alguma cidade. Quer dizer, é bem provável que você se perca várias vezes.

Quando chegávamos num sítio logo recorríamos ao francês da Ju: “Bonjour, monsieur. Une information s'il vous plaît”. E assim íamos tentando encontrar o hostel, um ponto turístico, um simples correio. No final da viagem, já estávamos todos abordando as pessoas com o corriqueiro pedido de informação no idioma napoleônico.

Normal mesmo era rodarmos em vão. Daí surgia uma alma caridosa que nos conduzia até o destino. Às vezes a alma não foi assim tão “caridosa” – e pagamos, sabendo que em Marrocos os dirhans atuam com mais eficácia que um merci. Porém houve também quem negasse o dinheiro. Ou até se ofendesse. Habib foi assim, em Ouazarzate. Ainda o convidamos para jantar, mas a nossa demora na arrumação esfriou o encontro.

Aliás, fizemos amizades em quase todos os lugares que parámos. Quando era um restaurante, logo vinha aquele sorriso e a dúvida de qual país representávamos. Os marroquinos adoram o Brasil, adoram os brasileiros, adoram futebol. O popular esporte é daquelas senhas para criar um vínculo e começar uma conversa. Talvez não sintam essa alegria nos europeus. Vai saber.

Onde pouco importa ser brasileiro, português, inglês, espanhol, turco ou alemão é nas estradas. A polícia rodoviária atua com rigor. Lembrei da epopeia na Argentina, quando fomos extorquidos duas vezes no trajeto até Buenos Aires. Mantive a média no continente africano, mas confesso que estas me pareceram até justas. A primeira, de 400dhs – com recibo e tudo –, foi no caminho para Fes. A outra, de 100dhs – aí sim uma falcatrua –, foi na autopista de volta para Marraquexe. Ao contrário do Brasil, a multa é paga na hora.

Talvez se cruzássemos o país em dromedários tudo teria sido diferente. Porém, ainda estaríamos na metade do caminho.

terça-feira, 30 de março de 2010

Imersão marroquina - Chá de menta

Por mais agitada que a vida em Marraquexe seja, sempre há uma pausa para o chá. O thé com menta é mais que uma bebida: é um ritual de convivência. Os berberes chamam de seu “uísque”. Em Marrocos é rara a venda de álcool. Nos mercados existe um caixa  de pagamento isolado, especialmente para a compra desses produtos. Os preços também são bem altos.

Aliás, pelo que vimos, vale mais a pena comer fora que fazer feira. Um prato no restaurante custa em média 25dhs. Ou seja, a módica quantia de 2,50€. E posso garantir que trata-se de uma refeição bem servida. Paguei 60dhs num cuscuz e sobrou pelo menos 1/3.

O acompanhamento da comida há de ser uma garrafa grande de água (aprendi, com desenvoltura, a fazer o pedido em francês). A culinária marroquina investe pesado nos condimentos. O açafrão é um dos mais utilizados. Alguns pratos lembram a gastronomia do Brasil – como o tajine de viande haché, que remeteu-nos à rabada. Na dúvida, descobrimos que a garantia é pedir o poulet grillé.

Mas o tema deste post é o thé: feito com erva verde e a menta, para refrescar. Fica realmente uma delícia. Além de hidratar, principalmente no deserto, os nativos capricham na quantidade de açúcar (em barra) para fornecer energia. Nos longos trajetos pelo Saara, uma dose extra de glicose é sempre bem-vinda.

Os berberes são o povo que habita o Alto Atlas e a parte sul do país. São geralmente receptivos e muito gentis. Mais interessados em trocar experiências e histórias que vender, costumam viajar o mundo a partir dos relatos dos forasteiros. Dá gosto ver o brilho no olhar desses intrépidos curiosos. E eis onde o ritual do chá entra.

A bebida é um elo, um "pretexto" para as distintas conversas. Perdi a conta de quantos chás tomei ao longo de seis dias. A despedida do Marrocos teve de ter um. São ótimos, e também ajudaram a construir laços que guardarei com carinho na memória.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Imersão marroquina - A loucura de Marraquexe


Chegar em um país diferente, com um idioma estranho, os hábitos distintos e ainda cair no caos cotidiano não é só insano: é assustador. Imagina um trânsito dez vezes pior que o de uma metrópole. Agora pensa na rua de um vilarejo cheia de gente, bicicletas, motos, carros e, inclusive, mulas. Eis a frenética e confusa Marraquexe.

O choque é instantâneo – e impossível de safar-se. Marraquexe não é a capital do Marrocos, como muitos pensam, mas é o principal destino turístico dos europeus. Os franceses e espanhóis lotam a medina (cidade antiga), em busca de produtos baratos, visuais exóticos e aventura. Também saímos de Portugal com este espírito.

Eu e quatro amigos chegamos ao meio-dia da segunda-feira (22) com cerca de 2.000 dirhams no bolso. Algo em torno de 200€. Embarcamos em Madrid, onde, entre bocadillos, Mahous e risadas, foi mais uma visita divertida à capital espanhola. Calhou mesmo impactar-se com um novo velho mundo.

Depois de algumas boas voltas labirintísticas, perdidos com as mochilas a tiracolo e sendo acossados pelos maliciososo comerciantes marroquinos, conseguimos encontrar o hostel. Ou melhor: o riad – que é uma espécie de casa clássica transformada em pensão. Da nossa saga pelo país, esta foi a melhor hospedagem.

Os riads primam pela área de convivência. Normalmente têm um pátio enorme e ornamentado. É difícil ter um bom banheiro. O buraco no chão faz as vezes da privada e as duchas ficam a dever. Os quartos acumulam poeira, mas nada é desconfortável ou anti-higiênico. Ao todo, foram seis noites em cinco lugares distintos (repetimos este primeiro riad no último dia), entre quartos partilhados e “exclusivos”.

Cansados e ainda impressionados – apesar de bem menos –, passeamos pelas movimentadas souks. Souks são feiras em que tudo que está à venda não tem preço. Uma bandeja de prata comprada pela Soraya por 10€ teve seu valor de partida em 1.000€. Assim vai... quanto mais negociar, melhor é a quantia que consegues. E tenho de admitir: neste quesito, os brasileiros são experts.

domingo, 21 de março de 2010

A continuidade do regresso



Ah, os texto nascidos e amamentados na insónia... nos desobrigam a pensar. A falta de sono é uma espécie de álibi para a escrita. Na pior das conjunturas, um habeas corpus literário.

Meu relógio biológico (adoro a combinação dessas palavras) está confuso. Com três horas a mais em relação a Brasília, adormeci de 21h30 (18h30) à 1h30 (22h30) e parece ter sido apenas um cochilo de início de noite. O corpo ainda está a processar a mudança.

Não dormi no avião. Cochilei um sono estúpido, beirando a indiferença. Deviam colocar alguma coisa naquela água que oferecem com simpatia aérea. Quem sabe, assim até sonhava.

Por falar em sonhar, já admiti que estava ávido pelo regresso. E eis-me aqui no ambiente europeu, sob um clima ainda a flertar com o friozinho. Saudade era pouco – redescobri que sentia mesmo era uma espécie de “fome”.

Neste domingo, meus caros, viajo para Madrid. No dia seguinte empreendo a aventura norte-africana. Na verdade, é só Marrocos. Vou conhecer Marraquexe, Fês, Meknés, Rabat, Casablanca, a parte ocidental do deserto do Saara, a cordilheira do Atlas, além de outros pontos turísticos e ocultos do belo país muçulmano.

Meu retorno é terno, mas também é torpe. A vida cotidiana e mundana começa mesmo em Abril. Por enquanto, desta volta, posso dizer que estou na sala de espera, na fase de transição, numa quarentena de 10 dias.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Palavras de gratidão



A escrita é uma emboscada. Um fingimento deveras, em que para mostrar uma face precisa-se esconder a outra. E, se não precisa, acostuma-se. É como jogar uma moeda para cima. Ao tombar, somente um lado fica à mostra.

Durante as linhas que me gasto, que me exponho aos mínimos e singelos pormenores, durante as linhas que chegam até vocês, o que faço nada mais é que me ocultar. Levanto muros de palavras, ergo fortalezas de frases para ninguém supor-me por inteiro, para ninguém conhecer o rei ao trono.

Esqueçam o fascínio que o parágrafo bem feito exerce. Busquem através de cada signo selecionado, de cada pausa empregada... As verdades, meus caros, estão no silêncio – mesmo no silêncio da escrita. O que não se diz tem uma razão de não se dizer.

Não agradeci. Simplesmente não agradeci os gestos de carinho que acalentaram a minha passagem no Brasil. Deixei o discurso oral fugir por vergonhosa vergonha. Assim acredito: existe um termo único e específico para cada situação que queremos descrever. A fala não permite tempo de pesquisa mental.

É coisa ágil, em movimento, viva. O texto é sono lúcido, sonho (e)laborado. Por isso, não achem que desprezei a recepção, os mimos, os risos. Só encontrei palavras na tela branca para abrir-me e saudar-vos. É que a escrita também pode substituir e surpreender. E às vezes faço isso com certa naturalidade.

quarta-feira, 17 de março de 2010

A arte de fazer a mala


Arrumar a mala é como realizar uma cirurgia complicada. É preciso ter atenção a cada detalhe, escolher bem os movimentos e não cortar itens que são vitais. Não que já tenha vestido as luvas médicas, mas ultimamente tenho feito muito a mala.

Tudo começou em... bom, se for voltar muito lá atrás não saímos daqui hoje. Melhor ser conciso: além da mudança para Lisboa, troquei de casa quatro vezes na capital portuguesa. É um empacota, desempacota que não está no gibi. Pior que cada vez a gente junta mais tralha, mais penduricalhos, mais futilidades.

Então vim para o Brasil gozar estas férias “forçadas”. Abre mala, seleciona roupas, enche de livros, fecha mala. Abre a segunda mala, organiza os presentes, fecha a segunda mala. Foram dois trambolhos de 20 e poucos quilos, além da mochila de “mão” com outros tantos cinco.

No período em território tupiniquim quem disse que tive descanso? Saltei de São Paulo para Brasília (onde paguei excesso de bagagem: R$ 110!), de Brasília para Pirenópolis e de Brasília para Floripa. Malinhas pequenas, rápidas, fáceis... ainda assim malas, malas e malas.

Pronto, é a vez da derradeira jornada, do novo adeus, de colocar tudo dentro do baú de viagem. Tudo, tudo mesmo. E mais alguma coisa. Parece que estou lidando com um quebra-cabeça japonês. Além de antecipar o encaixe perfeito das peças, preciso antes pensar nas próprias peças. É um processo de seleção penoso, só equiparado a uma Oktoberfest (a qual loira me apresentar? qual cerveja tomar?).

Muito o que aprendi sobre a arte de fazer a mala, devo à minha mãe. Mulher ordenada, de visão à frente do seu tempo, mostrou-me como aproveitar os espaços da melhor maneira. Confesso que hoje, ao montar este puzzle cotidiano, sempre me pergunto: “Como faria dona Sandra?”.

Aí então, como se estivesse diante de um teorema matemático russo, vislumbro o resultado. Sinto-me uma espécie de John Nash da bagagem, um Will Hunting das malas. Ao menos para alguma coisa este vaivém tem de ter servido.

terça-feira, 16 de março de 2010

Um passeio pelo congestionamento


Em Brasília já há congestionamento. Fico nesse anda e para, anda e para, anda e para que me agonia. Congestionamento só é bom – e olhe lá! – se num plano de 360 graus houver alguma mulher bonita para contemplar.

Daí fico olhando para os lados, buscando no retrovisor central, torcendo que ela se aproxime no automóvel a seguir. Nada. Congestionamento em Brasília é fraco. E como pode com aquelas pistas largas, umas vias infinitas, os carros empacarem uns atrás dos outros?

Disse lá na primeira frase que “já há congestionamento” em Brasília, mas fui bonzinho. Já há há muito tempo. Talvez desde 2005, quando troquei o lago pelo mar. Também em Florianópolis a síndrome da grande cidade chegou. No verão é trânsito de demorar horas para alcançar uma praia. Fica tudo “trancado”, para usar a expressão local.

Quem delicia-se com isso é o diretor de redação do jornal. Deliciava-se, quero dizer. Parece que este novo não tem o fetiche de mandar repórter e fotógrafo cobrir congestionamento. Porque pior que estar nele “despreparado” é estar nele obrigado – são o$$os do ofício.

Em São Paulo, então, nem se fala. Congestionamento que demora menos de duas horas parado nem é considerado congestionamento. É só uma pausa para corrigir as provas da turma, tirar um cochilo, assistir a um filme, terminar o livro que começou no trânsito de sábado... Se o tráfego anda, ainda que a 10 km/h, está tudo “dentro da normalidade”.

Conheço casos de gente que se conheceu no congestionamento. E hoje deve estar casada. Pesquisas têm de comprovar: em São Paulo, o melhor lugar para encontrar um parceiro ou uma parceira é num congestionamento. Tendo coragem de abaixar os vidros, já é meio caminho percorrido – sem sair do lugar.

Devo ser pouco zen, nada criativo ou hiperativo, mas parado numa fileira de motores ruminantes, só consigo pensar o quanto estou deixando de aproveitar o meu tempo. Dá vontade de libertar-se do cinto de segurança e convidar a graciosa moça do carro de trás para tomar um sorvete. Bem, agora não mais: o trânsito voltou a andar.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Missão cumprida!

Reviver o Brasil tem sido critério fundamental para intensificar uma certeza: ainda tenho experiências, estórias e sensações a absorver na Europa. Foram quase dois meses em verde-amarelo e, hoje, adentro a última semana. Quando pisar o solo português estarei desnudo de teto próprio e de trabalho.

Não foi assim quando desembarquei em outubro de 2008? E mais: não conhecia a cidade nem tinha os amigos que me receberão de volta. Gente que misturou-se ao meu enredo d’além mar e que tenho orgulho de ter ao lado. Sinto uma tranquilidade efusiva em saber que estarei em casa.

Por falar em amigos, saio contente da pátria-mãe. Reencontrei as antigas parcerias, ri das piadas novas, diverti-me um bocado. O saldo é positivo, ainda que não goste de tipificar essas coisas. No plano prático, o da tese, também correu tudo de vento em popa – e nada mais urgente que findar logo isso.

Pude adicionar à minha pacata, e às vezes insensata, trajetória mais tantos casos hilários, sorrisos partilhados, intimidades preservadas, momentos inesquecíveis. Missão cumprida! Ou melhor: nem tudo foi missão nesta breve passagem. Tiveram os acontecimentos sem planejar, os imprevistos que redefiniram o destino.

Deixarei o Brasil com a sensação de que pertenço ao mundo.

E sem saber quando retorno.

sábado, 13 de março de 2010

Lisboa, a ilha de Lost


Uma amiga que deixou Lisboa recentemente pensa em retornar. Diz que não se adaptou à vida “lá fora” e que ainda tem alguma coisa para absorver do exterior. Opa, espera aí... isso está parecendo a ilha de Lost.

Desculpem a comparação esdrúxula. Mas raciocinem comigo: quem está na Europa – a estudo, é bom que se frise – normalmente pensa em voltar para casa. Sabe que aquilo é temporário, tem prazo de validade, vai esgotar. Daí de chegar pensando em cumprir as tarefas, viajar e pronto. Ces’t fini.

Para alguns, aliás, este período de exílio é duríssimo. Tive colegas de mestrado que sucumbiram ao inverno, à distância afetiva dos portugueses, à saudade da pátria-mãe. E é mais típico que imaginam uma depressão camuflada de “mera” carência.

Mas falava do Lost... Porque ao mesmo tempo que tem quem queira sair, há os que querem ficar. Sou um dos casos, apesar de já ter vivido a minha quota de insatisfação estrangeira. Depois lá de seis, oito meses a gente começa a encher o saco de tudo. Comigo nem foi nostalgia do Brasil – foi esgotamento mesmo.

Essa amiga que deixou Lisboa estava assim também. Tinha umas pendências do outro lado do Atlântico e partiu pensando em não regressar. Hoje recebo um e-mail dela dizendo que planeja um retorno. Então pensei na ilha da série.

No meio do nosso grupo de brasileiros nunca escondemos a curiosidade e certo temor em saber como seria uma volta. Seja ela passageira (como está sendo a minha e como foi a do Dani e da Sol), seja definitiva (como desta minha amiga). Adquirimos costumes e adicionámos estórias ao nosso currículo que, a vistas alheias, podem parecer simples exibicionismo.

Também tem outra: por mais relatos precisos que compartilhe, nunca será a mesma coisa. Quem virou o ano comigo em Barcelona e cantou “pópórópópópó” com os italianos têm a cumplicidade do instante. Até tentei narrar alguns contos para algumas pessoas, mas sempre com o receio de estar sendo enfadonho e mesquinho. Devo ter sido, porque algumas expressões não demonstraram interesse.

Nesta escolha, o final do roteiro é incerto. Ao sair da ilha qualquer readaptação é mais complicada que parece. E só resta, então, o regresso.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Parem as máquinas!

Parem as máquinas! Meus textos estão tomando rumos nauseantes. Às vezes com uma densidade oca que dá calafrio. É como se tivessem vida própria, como se respirassem sem a minha influência – pior: sob a minha intensa influência – e saíssem andando por aí, espalhando palavras chulas a bel prazer.

Pessoa disse que o poeta é um fingidor. Oras, eu estou sempre a fingir, como se o ópio literário resolvesse todos os meus problemas insalubres. Por isso pedi que parassem as máquinas: para ver se retomo as rédeas da escrita, que relincha, refuga e insiste em conduzir-me para lugares inóspitos.

Puxa, preciso falar das experiências exteriores se quero atingir algum lugar em alguém. Do que aprendi ao passar pelo frenesi de São Paulo, da mesmice de Brasília, dos (re)encantos de Floripa. Comentar o impacto entre Brasil e Europa. Sem invencionismo barato.

As minhas sensações? Tudo besteira! Devo trancá-las num sótão, dentro de um baú, guardadas numa caixa-forte. De que adianta expor a face mais pura em letras escuras?

Tudo continua normalmente sem que qualquer esforço altere o futuro. Em vez de mudar o mundo, vou escrevendo superficialidades com a impressão de profundo. E continuo igual: com os mesmos defeitos, as mesmas ansiedades, os mesmos medos. De que vale a tranquilidade adquirida se um dia ela vai embora?

Às vezes é preciso deixar a vida fazer a sua parte. É preciso sair de cena, recolher os instrumentos, fechar a cortina. Às vezes é preciso calma, é preciso simplesmente ficar estático, apenas observar. É preciso aquietar-se para mover.

Às vezes é no chão que deve-se mirar as estrelas. Porque elas não sustentam-se no céu por muito tempo. Às vezes parar as máquinas é fundamental. Adquiri certa repulsa dos meus últimos textos – expostos e escondidos. Mas o pior de tudo é que escrever, para mim, ainda é uma necessidade básica e intransferível.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Carta a quem quer que seja


Duas certezas costumam desviar-se da vida de um homem: nunca escreva bêbado e nunca publique o que escreveu bêbado. São noções básicas, preceitos primários do ser que pretende atingir algum lugar no mundo das letras.

Quebro-as agora. Rasgo de cabo a rabo a cartilha invisível da sanidade literária. Não sei bem aonde isso leva. Bukowski soube. Mas ora bolas, o meu signo é áries (carneiro), e se tem uma coisa que não levo a sério é o equilíbrio emocional. Meu signo é áries, caspita: sou fogo, coração, impulso.

Qualquer regra de boa conduta, de ser centrado e direito, é dizimada por mim. Sou mestre em destituir os reis da razão com golpes homéricos. Esta imagem de rapaz sereno? Pura ficção! Meu peito vive em constante assombro. Terremotos balançam, com regularidade, a minha estrutura.

Na maior parte das vezes controlo-me. Aprendi a dissimular. Se não fosse assim, cada enchadada era uma minhoca – e hoje estaria num hospício. A bem da verdade, queria mesmo descontrolar-me. Porque cansa ser outro sempre.

Cansa de um modo que já estou no limite. O pior é que o sentimento insiste em provocar-me. Não poder, ou ter receio de, expor as vontades íntimas e poéticas a alguém, dividir toda essa confusão salutar, é achar que a vida está passando sem magia. Eu não tenho problema em atirar-me porque sem isso o que é que realmente vale a pena?

Ah, tantas linhas depois e já estou sóbrio. É bom que este texto vá logo para o blogue, senão terá de esperar outra bebedeira clássica para ganhar a página virtual. Que esta seja uma carta a quem quer que seja. E que só faça sentido a ela.

terça-feira, 9 de março de 2010

Casa de campo ou de praia?


A minha relação com o mar é visceral. Às vezes sinto-me ele, às vezes sinto-me seu parceiro milenar. O mar é o bem mais fascinante da natureza, com sua força e beleza, com sua dança e elegância.

Lá nos idos dos anos 90, eu era um claro contemplador de cachoeira. Entre uma casa no campo e uma casa na praia, responderia com convicção pastoril: – campo! campo! campo! Mal sabia que o amor é uma entidade cambiante.

Viver sem ir ao mar, um dia de sol que seja, é tortura das brabas. E olha lá se precisa mesmo estar com o clima bom. Quando cheguei em Sintra, Portugal, era inverno e fazia muito frio, mas vi o Atlântico pelo seu outro lado pela primeira vez e tive de entrar até as canelas. Amigos, uma confissão: chorei.

Alguns lembram-se disso. O que não sabem é que em Floripa não desceu uma lágrima, mas arrepiei-me todo ao sair da trilha de mata fechada e já ver a areia branca, escutar o barulho das ondas, vislumbrar o infinito azul.

Mais que mexer no ânimo, o mar cutuca a minha alma. Revigora-a. Redefine-a. E estar diante dele é ter a certeza de que uma manhã será muito mais plena, o dia será mais proveitoso depois de um mergulho. Gosto de embrenhar-me nas águas salgadas e desbravar a amabilidade furiosa da rebentação.

Voltei a estar milhares de quilômetros de distância, em Brasília. Mas sinto uma pacífica nostalgia. Sinto-me bem, afinal. Só queria mesmo é molhar a face deste lado de cá do oceano.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Tomo um banho de chuva


Meu último banho de chuva tinha sido em janeiro de 2007. Foi um banho consentido, e mais: um banho proposital. Estava em casa quando começou a chover e resolvi descer do terceiro andar – ou era segundo? – para molhar-me. Tinha a companhia de uma amiga, e ficamos algumas horas a conversar debaixo do temporal.

Hoje tomei outro. Na mesma Florianópolis do último, mas agora na praia, agora sozinho, agora de surpresa. Um banho de chuva é uma daquelas entidades naturais mágicas que a gente sempre quer dividir com alguém. A não ser que sejamos o Gene Kelly em Singin' in the Rain.

Uma chuva que se preze, daquelas "de Verão", com os pés na areia, merece não menos que uma boa parceria. E descontem os medos de resfriado, pneumonia, raios... nada disso combina com o espírito selvagem do banho de chuva. O mar sim. Um beijo umedecido também.

É verdade: o amor combina com chuva. Tem lá a sua graça estar em dois quando os pingos doces começam a atingir os ombros ou descer pela testa. Tem lá a sua fantasia os corpos enxaguados colarem-se com volúpia. A chuva e o amor são fotogênicos, são cinematográficos, são artísticos.

Talvez por estar só eu tenha corrido quando a chuva apertou, ainda que em alguns passos preferisse ser alcançado pela água (e pelo amor). E tenha lamentado que a ducha quente tenha sido solitária também. Porque para além do banho de chuva a dois, há o que vem depois.

É difícil decidir qual momento é o melhor.

O anti-lirismo de um dos sujeitos mais idiotas que conheço

Uma das piores medidas na minha escrita é que sempre tento me calar. Sou um sujeito dos mais idiotas que conheço: daqueles “mais ou menos”, sabe? Do tipo que evita conflito e quer sempre agradar a todos. Um cão vira-lata, que vive com o rabo entre as pernas, as orelhas baixas e carente de qualquer cafuné.

O blogue, a escrita, a palavra deveriam libertar-me. Mas pelo contrário: vou colecionando textinhos medíocres, agrupamentos de estórias tolas, sentimentalóides e anti-líricas. E se em vez disso eu simplesmente narrasse a minha alma, sem medo de estragar esta pseudo-imagem de estúpida perfeição, estaria hoje muito mais leve.

Ando cansado. Se invento andanças é porque tenho ojeriza a ficar parado. Se crio contos é porque a realidade aborrece-me. Se fujo das responsabilidades é porque jamais nenhuma responsabilidade pareceu-me importante demais. Ando muito cansado, muito cansado mesmo, a ponto de ruir. Não quero mais lidar com intolerâncias, inclusive com as minhas – ao meu jeito “sem máscaras” de ser, principalmente.

Escrever, escrever, escrever: é a única necessidade básica que tenho, e se calhasse, publicava cinco textos por dia. É meu único refúgio. Mas daí calo meus quereres para não parecer neurótico; trancafio meus desejos para não sentenciarem a minha impulsividade mórbida. Sou um sujeitos dos mais imbecis que já ouvi falar.

Nunca conseguirei nada mais da palavra – e da vida – que uma simples companhia momentânea. Por piedade, talvez.

terça-feira, 2 de março de 2010

Ouvindo as estórias alheias


Uma pessoa, qualquer pessoa, tem sua estória. Traz em silêncio os medos íntimos, as vontades vívidas, os desassossegos. Ouve do passado uma voz que assusta, porque machucar-se de novo dói. Vê no futuro uma brecha de esperança, porque o homem é movido pelo sonho.

Gosto de pescar estórias alheias, com serenidade. Sentir o que pensam, pensar o que sentem; trocar contos, contar trocos. Este escambo de experiências faz-nos conhecer as vidas pela vida de quem as passou. Basta uma dose de interesse, um fio de paciência e os enredos fluem levemente.

Em Barcelona, conheci a Natasha, uma carioca que morou 17 anos em Miami e depois aventurou-se pelo mundo trabalhando em cruzeiros. Visitou lugares nos quatro cantos do planeta – dezenas deles, que nem ouso citar aqui. Mas fiquei fascinado.

Participei de sua despedida na terra de Gaudí. Ela foi chamada para ser comissária de bordo da Ryanair e estaria de mudança para a Bélgica. Só que deu errado. Deu errado o destino da mudança, porque no caso do emprego correu tudo bem. Em vez dos Países Baixos, Natasha foi para o Reino Unido.

E tiveram tantos outros roteiros de idas e vindas, de alegrias e sofrimentos, de concessões e conquistas. É aí que mora a graça de tudo. De tudo isto que às vezes parece tão imenso e vazio, porém ganha sentido na própria simplicidade de perceber-se pequeno diante da infinidade de coisas a absorver.

Costumo repetir feito um papagaio de gaiola: não troco nenhuma facilidade caseira e cotidiana, nenhuma estabilidade financeira, nenhum equilíbrio racional, pelas oportunidades que ainda estão diante de mim, pelos valores que ainda irei adquirir. Um bom salário não paga a minha liberdade – real e imaginária.

Quero ouvir e partilhar estórias. Quero instigar-me pela curiosidade de conferir o que me foi narrado. Quero supor imagens, suspirar poemas, exalar prosas pelas têmporas, na inquietação de achar o mundo demasiado indescoberto e o tempo excessivamente fugidio.

Quero, por fim, misturar-me para chegar o mais próximo possível de mim.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Pé na estrada


Florianópolis é um sopro de vida para mim. E a viagem de carro, sozinho e completo, por mais cansativa que seja, é renovadora. Nos quase 1.700 quilômetros de asfalto, peguei sol forte e chuva torrencial. O som sempre ligado e a mente sempre sonhando.

Ao todo, percorri quatro estados para chegar em Santa Catarina. A estrada até Catalão está, finalmente, em perfeito estado. Passei por Uberlândia, Uberaba e tive de entrar em Araguari para sacar dinheiro – agora entendo a piada dos três “B”. Quando avistei Ribeirão Preto, terra do chope, foi inevitável lembrar da Ju. Fiz uma homenagem e coloquei “Stay”, do U2, no talo.

Também recordei outros amigos lisboetas e quis que cada um deles, o qual dividi tantas experiências e descobertas, visse uma das paisagens mais lindas – e marcantes – da minha vida: já perto de Floripa, nas curvas na altura de Biguaçu. Dá para ver o mar azulzinho, as fazendas de ostras, a silhueta da Ilha.

Em São Paulo, perto da meia-noite, escutei a rádio Eldorado. Aliás, com uma ótima programação de jazz. Dormi próximo a Registro. Cheguei na capital catarinense quase ao meio-dia e, por mais que os médicos contra-indiquem o sol neste horário, tive de ir à praia. E pela saudade matada da água que antes era muito mais gelada, senti-me novo de novo. E de novo várias vezes.

Algumas angústias simplesmente se foram... e Nando Reis nunca esteve tão certo numa letra de música.