sábado, 6 de fevereiro de 2010

Só os imbecis têm medo do intenso


Andam a dizer por aí que sou intenso. Oras, mas quem não é em algum momento, em alguma relação, em algum enlace? Só mesmo um deambulante cadáver não sente a intensidade gratuita, abdica de qualquer élan emocional. Eu sou intenso porque é quase um dever nato assim o ser.

Explico, para não parecer vago – a intensidade está na oportunidade de abraçar a existência genuinamente. Ninguém distribui abraços por aí se não for para serem abraços autênticos. O abraço é daqueles gestos que nos incumbe de uma relação pessoal e intransferível.

Procure abraçar um desconhecido. Mas abraçar de jeito mesmo, com a volúpia de um regressado de guerra. É difícil – e diria mais: praticamente impossível! Se acabamos de conhecer uma pessoa, ora estendemos a mão ora damos-lhe dois beijinhos. O abraço é deveras íntimo, é quase dormir na mesma cama.

Eu disse quase porque, venhamos e convenhamos, não existe situação mais intrínseca que dividir o colchão, partilhar a bênção do sono. Vai muito além do tracejo de línguas e do próprio sexo. Demoro muito para acomodar-me na cama com uma mulher ao lado. Só lá para a terceira, quarta “dormida” é que relaxo.

E, ainda assim, há quem propague e vocifere a minha intensidade como um emblema da melancolia heróica, da utopia clássica ou da imaturidade etária. Estranha-me identificar, com essas acusações, que existam pessoas a distribuir amplexos e babar em travesseiros com a indiferença e a parcimônia de quem chupa uma laranja.

Não eu. Preciso da dramaticidade, do caráter patético do instante, do mais alto e pleno sentir. Porque abraçar por abraçar, dormir por dormir, existir por existir... ah! está cheio de gente assim no mundo, que simplesmente reproduz ações e comportamentos.

“Só os imbecis têm medo do ridículo”, defendeu Nelson Rodrigues. Ao passo que acrescento: “Só os imbecis têm medo do intenso”.

Um comentário:

danielle disse...

Se arrependimento matasse... rsrsrs.