quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O que esperamos nem sempre acontece


Nestes tempos em que nada acontece, hei de imitar o Neruda e pescar luz caída com paciência. Preciso encontrar, urgente, um assunto que me instigue a escrever. Pero como? Meus dias são reclusos: em que só pesa a minha tese. Não podia adoecer ou dispersar – e eis que as duas coisas acontecem simultaneamente.

Vá lá que minha capacidade de concentração é rasa, é escassa, é pau a pau com a de um miúdo hiperativo (e tem quem defenda que eu faça parte desses grupos: do miúdo e do hiperativo). No entanto, quando quero, consigo. É que não tenho quisto, e daí fico sem uma coisa nem outra. Sem inspiração e sem transpiração.

Resolvi então folhear uma antologia poética do meu guru, Pessoa. E cheguei a este mantra: "Dúbia é a vida, inconstante o que a governa. O que esperamos nem sempre acontece. Nem nos falece sempre, nem há com que a alma uma ou outra coisa espere. Torna teu coração digno dos deuses e deixa a vida incerta ser quem seja. O que te acontecer, aceita. Os deuses nunca se revoltam."

O que esperamos nem sempre acontece. O que... esperamos... nem sempre... acontece. Ora, vejam só, está aí o porquê de todo o mal de esperarmos: é que nem sempre acontece! Bingo! Se a gente simplesmente vai, se a gente segue o nosso caminho sem medir as possibilidades, ceifamos a expectativa. Na raiz. Mas como é difícil... como é difícil.

Enquanto não esperava nada, e tocava os dias na companhia da liberdade, ia andando passo a passo. Aí uns dilemas trataram de fazer-me uma visita na calada da noite – e ficaram. Convidaram as angústias terrenas, vieram também os desejos instáveis, e dúbia ficou a vida. Uma confusão entre o presente e o futuro.

Talvez tudo isso faça parte do processo. As mudanças trazem riscos, os riscos geram medos, os medos alimentam as ansiedades. O que me acontecer, aceitarei. "Aos que a felicidade é sol, virá a noite. Mas ao que nada espera, tudo que vem é grato". Está dito.