segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Bobagem e poesia


Escrevo numa lentidão fúnebre, sepulcral – e influenciado pelo estilo de Nelson Rodrigues, personagem do trabalho que preenche os meus ociosos dias. Escrevo sob dois estados de espírito: o sono e a vontade de dormir, acometido por um resfriado que espanca meu corpo a cada reles movimento.

Sou um desses aficionados pela dimensão da gripe, uma doença tão rasa e ao mesmo tempo tão vertiginosa. Uma amostra do quanto somos fracos, somos mortais, somos perecíveis. No entanto, nem era disso que ia falar e acabei por topar com essa pedra no caminho do texto.

Queria citar Quintana, numa frase sua que, vez ou outra, aciona minha alma. “Às vezes a gente pensa que está dizendo bobagem e está fazendo poesia.” E digo isso, e gosto dessa curta passagem, porque podemos transferir para as pessoas que dividem conosco a nossa vida.

Ninguém aproxima-se de nós por acaso. Nós é que permitimos quem entra, quem fica, quem sai. Nós é que distribuímos os ingressos de acordo com uma série de critérios básicos e específicos.

E além disso, acima de tudo, a despeito do que for, é o efeito dessas pessoas em nossas trajetórias que acalenta as nossas escolhas. Qualquer relacionamento – e o conjugal-amoroso é a forma máxima do enlace – nada mais é que uma influência no destino. A nossa dificuldade crassa e absurda, o que nos degrada, está em ler o que temos diante de si.

Ora, é quando falta-nos a sensibilidade. É quando faltamos com a sensibilidade casta, imaculada. Uma sensibilidade tal qual uma gripe: rasa e vertiginosa. Que nos faz ver que uma bobagem às vezes é poesia, e que uma poesia muitas vezes é simplesmente deixar-se ser.

Um comentário:

Luciana Lopes disse...

´´Eu canto porque o instante existe e a minha esta completa. Não sou alegre nem sou triste.Sou poeta. ´´
Amo essa frase de Cecilia Meireles. Ela expressa muita coisa pra mim.
Durante vários anos, tentei, em vão,descobrir quem eu era, porem, desisti dessa façanha.
Agora simplesmente relaxei e conclui que me incluo na doce posição de ser poeta.

Carta branca para poder dizer besteiras ao pé do ouvido.......... ah se todos interpretassem essas ´´besteiras´´ como puras e singelas declarações de amor.
Boa semana bem poética para você, grande ídolo virtual.