quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Sobre frio, chuva e poesia


Se tem uma coisa divertida no frio – e olha que este inverno na Europa está indecente! – é aquela fumacinha que sai da boca quando o ar quente do corpo encontra o ar frio da rua e blá-blá-blá. Pode estar congelante que ainda assim acho graça em bafejar a difusa névoa branca e cruzar os olhos a mirá-la.

O frio faz das pessoas solitárias carrancudas. Os casacos pesados furtam a leveza das relações. Até um bom dia é carregado, é tenso, é ultrajante. Antes, eu culpava esses europeus sisudos, mas já me pego a andar por aí de sobrancelha cerrada. A não ser quando sopro um vapor alvo dos brônquios. Aí ponho-me a sorrir do nada, como um caloroso idiota.

Pior que a temperatura baixa ou o vento rasante é mesmo a chuva. E em Lisboa chove a cântaros nesta época. Ou numa expressão que (também) sempre me diverte: chove a baldes. É água que não acaba mais, dá para encher um poço, e o fiel escudeiro de qualquer morador passa a ser o guarda-chuva – que aqui classificam como chapéu-de-chuva.

Tem pra tudo quanto é gosto. Ia ontem no autocarro (o famoso ônibus), em direção ao trabalho, observando a calçada tomada por esses objetos que não evoluíram. Desde a Mesopotâmia, há 3.400 anos, até a Inglaterra do século 18 o formato é semelhante. Ok, eles adquiriram detalhes modernos e variações de costume, porém um guarda-chuva é sempre um guarda-chuva.

Foi então que criei este singelo poema, de título tão original. Como uma fumacinha que sai da nossa boca numa noite gélida de inverno.

Guarda-chuva
Há os discretos
e os coloridos
os pretos
e os floridos
alguns novos
outros antigos
curtos
e compridos
inteiros
e rendidos
há os feios
e os bonitos
uns comprados
uns pedidos
mas sempre
para o mesmo motivo:
proteger da água
que cai do infinito

5 comentários:

Anônimo disse...

Pense pelo lado positivo. Num aspecto o inverno te faz bem. Te deixa ainda mais criativo.

danielle disse...

eu acho que vc deveria encontrar um amor. um amor de inverno para aquecer o seu coração e os dias de solidão. e, como diria nosso saudoso vinicius, que seja eterno enquanto dure. até o fim, que seja intenso e completo, sem faltar leveza para dar um pouco de equilíbrio. bjs

Bembi disse...

amor já tens. só tem um oceano dividindo.
saudade.
falta pouco.

apura, chega logo.

beijo

Gustavo Jaime disse...

Dani, eu encontrei: Barcelona. É uma menina-mulher cheia de encantos e tenho certeza que é um amor que vai estender-se pra primavera, verão, outono... hehehe.

Ci, tenho um amor duplo: teu e da Bruna! Isso é ainda melhor. =)

Beijos!

Gustavo Jaime disse...

Anônimo, obrigado. Bondade. Mas como diria a Clarice Lispector: "Eu escrevo porque não sei o que fazer de mim"... e o frio faz isso.