domingo, 10 de janeiro de 2010

Separação

Ultimamente, tenho a companhia ausente de Vinicius de Moraes. Sempre que desvio-me da rota, ele vem lembrar que a vida é a arte do encontro – embora haja tanto desencontro pela vida. Pois é, sábio poetinha camarada dos versos de mel.

Se a hora do sim é o descuido do não, se a vida tem sempre razão, se é infinito enquanto dura – posto que é chama –, cá estou a escutá-lo com afinco de um poeta aprendiz. Mas sofro de fraquezas criativas ao protagonizar algo original. Porque do Vinicius extraio aquilo tudo que, de repente, gostaria de gritar ao mundo.

De repente, não mais que de repente... E é em seu texto “Separação” que consigo reunir as frases mais exatas do meu momento.

Voltou-se e mirou-a como se fosse pela última vez, como quem repete um gesto imemorialmente irremediável. No íntimo, preferia não tê-lo feito; mas ao chegar à porta sentiu que nada poderia evitar a reincidência daquela cena tantas vezes contada na história do amor, que é a história do mundo. Ela o olhava com um olhar intenso, onde existia uma incompreensão e um anelo, como a pedir-lhe, ao mesmo tempo, que não fosse e que não deixasse de ir, por isso que era tudo impossível entre eles.

Viu-a assim por um lapso, em sua beleza morena, real, mas já se distanciando na penumbra ambiente que era para ele como a luz da memória. Quis emprestar tom natural ao olhar que lhe dava, mas em vão, pois sentia todo o seu ser evaporar-se em direção a ela. Mais tarde lembrar-se-ia não recordar nenhuma cor naquele instante de separação, apesar da lâmpada rosa que sabia estar acesa. Lembrar-se-ia haver-se dito que a ausência de cores é completa em todos os instantes de separação.

Seus olhares fulguraram por um instante um contra o outro, depois se acariciaram ternamente e, finalmente, se disseram que não havia nada a fazer. Disse-lhe adeus com doçura, virou-se e cerrou, de golpe, a porta sobre si mesmo numa tentativa de seccionar aqueles dois mundos que eram ele e ela. Mas o brusco movimento de fechar prendera-lhe entre as folhas de madeira o espesso tecido da vida, e ele ficou retido, sem se poder mover do lugar, sentindo o pranto formar-se muito longe em seu íntimo e subir em busca de espaço, como um rio que nasce.

Fechou os olhos, tentando adiantar-se à agonia do momento, mas o fato de sabê-la ali ao lado, e dele separada por imperativos categóricos de suas vidas, não lhe dava forças para desprender-se dela. Sabia que era aquela a sua amada, por quem esperara desde sempre e que por muitos anos buscara em cada mulher, na mais terrível e dolorosa busca. Sabia, também, que o primeiro passo que desse colocaria em movimento sua máquina de viver e ele teria, mesmo como um autômato, de sair, andar, fazer coisas, distanciar-se dela cada vez mais, cada vez mais.

E, no entanto, ali estava, a poucos passos, sua forma feminina que não era nenhuma outra forma feminina, mas a dela, a mulher amada, aquela que ele abençoara com os seus beijos e agasalhara nos instantes do amor de seus corpos. Tentou imaginá-la em sua dolorosa mudez, já envolta em seu espaço próprio, perdida em suas cogitações próprias – um ser desligado dele pelo limite existente entre todas as coisas criadas.

De súbito, sentindo que ia explodir em lágrimas, correu para a rua e pôs-se a andar sem saber para onde...

2 comentários:

danielle disse...

fui ao teatro ver "tom e vinicius". o texto que vc publicou foi interpretado numa cena. fiquei arrepiada e emocionada. de tirar o fôlego...

Gustavo Jaime disse...

É um texto maravilhoso, muito sensível e imagino que a encenação deve ter sido espetacular. Queria ter visto (será que encontro no UTube?).