domingo, 17 de janeiro de 2010

As badaladas estéreis

Tenho tido a marcação implacável das horas. Para onde quer que vá, ouço o tic-tac dos ponteiros. É a Síndrome de Capitão Gancho. Por isso só consigo direcionar passado e futuro, organizar o presente, pelas contagens regressivas e progressivas – há alguns dias dei adeus a Barcelona, daqui uma semana despeço-me de Lisboa.

O sino da igreja perto de casa cadencia o tempo. Delimita meu destino como uma bateria de escola de samba. A cada 15 minutos é um bléin-bléin-bléin. A cada hora é a quantidade irritavelmente certa de badaladas. No início incomoda, depois piora – porque silencia o som, mas a agonia berra.

Ninguém deveria desempenhar este ofício. Este pobre ofício de puxar uma corda e fazer um sino tocar. Ninguém. É o nosso carrasco contemporâneo, em pleno templo cristão. Uma badalada já me trata de antecipar os fatalismos da vida.

É o banho atrasado, o almoço engolido, o passo apertado até o ônibus. É a tese inacabada, o dinheiro contado, as vontades rompidas. É tudo contra o relógio, o relógio contra tudo – contra a nossa fantasia carpedieniana.

Tenho essa má-disposição, tornei-me impulsivo (ou compulsivo?), cronometro minhas ações e raciocínios. Já não vejo a hora de ir, de celebrar, de visitar, de rir, de regressar, de viajar, de me mudar. Pior que privar o tempo, muito além da ansiedade sufocante, a pancada do sino é outra – ela evoca a morte.

2 comentários:

Mayana disse...

Olá Gustavo,
Seus blogs me foram enviados por uma colega de trabalho da sua mãe...
Ela sabe que gosto de literatura e me enviou para eu dar uma olhada
Acho que um bom escritor deve possuir habilidade de descrever sentimentos de um grande número de pessoas. Gostei do que você escreve
Abraços

Gustavo Jaime disse...

Oi Mayana! Que legal que escreveste e tens conferido o blog. Fico feliz com este carinho... tenho uma vontade enorme de tocar as pessoas pela escrita e quando consigo admito que isso me traz uma paz bacana. Será apenas uma afirmação do ego? Às vezes questiono-me sobre isso, mas escrever é uma necessidade presente e forte.

Enfim, espero que apareças e comentes mais. Serás sempre bem-vinda! Um beijo!