terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Pequeno dicionário amoroso


Tomei emprestado o nome de um filme (de 1997, com Andréa Beltrão e Daniel Dantas) para escrever sobre um assunto que tem sido recorrente entre os amigos – sejam eles brasileiros ou portugueses. Gosto de partilhar as minhas impressões sobre os relacionamentos daqui.

E quando digo daqui, não espero generalizar. Foco em Lisboa, e pronto. Numa Lisboa a qual participo, sem saber se experiencio a regra ou a exceção. Pelo que tudo indica, minhas apreciações têm lá sentido, mas há sempre de serem confirmadas por almas nativas.

O português repele – por falta de hábito ou ávido medo – a paquera. Raras vezes, e me corrijam se estiver errado, surge uma vertigem de flerte. Explico melhor: é difícil perceber o culto do olhar, do toque e do não-dito, ainda quando existe interesse mútuo.

Tudo é mais direto, objetivo, óbvio e, em alguns casos, até menos lúdico. Há euforia mais incontornável – e irrepreensível – que a do silêncio no início de um enlace? Nelson Rodrigues dizia que “é na pausa que duas pessoas se entendem e entram em comunhão”.

As mulheres portuguesas sofrem de uma brutalidade visceral, crônica, desestimulante. Desculpe se brutalidade soa forte, mas são poucas – e se calhar ando a buscar nos lugares errados – que acalentam a doçura. Queremos gajas independentes, não homens. Certa vez li a melhor definição ligeira deste fenômeno pós-moderno: mulheres de cabelo no peito.

E é isso que muitas são. O que não consegui entender é se primeiro veio o ovo ou a galinha. Se o, outrora, sexo frágil age assim para se defender das viris investidas masculinas ou se os piropos (cantadas) sujos nasceram como um aríete para machucar barreiras.

Seja qual for a raiz desta queda de braços estúpida, quem perde é a sinceridade. Eles mandam frases de uma ofensividade estéril – e até passível de um processo por atentado violento ao pudor, de tamanha baixo nível que são. Elas querem controlar tudo, mostrarem-se fortes e perfeitas, santas e putas. Todos, por fim, esquecem de perguntar o que o amor quer, que caminho a paixão pode percorrer livremente.

Faz-me confusão lidar com os jogos, mais ainda quando são jogos frívolos. Porque, consciente ou não, sempre brincamos na cena da conquista. É saudável. O que é maligno é alimentar mentiras (de todas as dimensões) e disseminar traumas. Pois assim vejo grande parte das relações daqui...

.. e já prevenido de qualquer contestação lusa, proponho que levemos esta conversa para uma mesa de café. Afinal, como disse, são apenas meras impressões.

3 comentários:

Sofia Rodrigues disse...

Pois que não tenho um vasto conhecimento das restantes mulheres além das portuguesas mas acho que o lugar-comum assenta aqui muito bem: os seres-humanos não podem ser generalizáveis. Não existe A MULHER PORTUGUESA como não existem AS MULHERES ou OS HOMENS. Se me falares NAQUELE homem ou NAQUELA mulher, aí a música já é outra. Se querias a confirmação desta alma nativa, não a terás. Conheço homens e mulheres dóceis, brutos, inteligentes, patetas, de várias nacionalidades. Brasileiros incluídos (e não, não estou a ser bruta) e portugueses sem mais fim. “As mulheres portuguesas sofrem de uma brutalidade visceral, crónica, desestimulante” - da mesma maneira que generalizaste a tua experiência, generalizo a minha: a maioria das mulheres portuguesas que conheço não são brutas ou desestimulantes, a conclusão já a conheces, basta usares a mesma lógica da qual te serviste para escrever este post (acho que Aristóteles lhe chamava qualquer coisa como premissas universais, not sure).
“O português repele – por falta de hábito ou ávido medo – a paquera. Raras vezes, e me corrijam se estiver errado, surge uma vertigem de flerte. Explico melhor: é difícil perceber o culto do olhar, do toque e do não-dito, ainda quando existe interesse mútuo” – mais uma vez, generalizações, mas desafio-te para seres o S. Francisco Xavier dos tugas: Ensina a malta a “paquerar”. Para isso, nada melhor que uma boa conversa de café ;)

Sandryne disse...

Puxa, que lindo texto! Tenho ouvido falar bastante sobre esse assunto por Aya e Daniel, mas você retrata tudo de forma tão intensa como só alguém que realmente vive isso (e não apenas ouviu falar)poderia falar...!

Anabela da Silva Maganinho disse...

Lindo texto, excepto a parte de «puta». lol Vá Gu, fizeste-me rir com este texto, sério que sim. Até tens razão, mas, se calhar, a culpa é mesmo dos portugueses que chateiam as portuguesas com histórias baratas:) Bem, realmente, é conversa de café, portanto, fico cá à espera:) beijinhos e vê se te cuidas.

Ps. Acrescento desde já como testemunho que o carinho é muito mais saudável quando demonstrado por brasileiros e, por isso, sinto saudade de vocês cá:)