terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Uma ode à década


Um dia desses atrás, vejam só, eu tinha 16. E começava a namorar sério pela primeira vez, para logo depois ter partido o coração. Trocava noites de sono pela frente da TV. Era a Olimpíada de Sidney a confirmar meu desejo de ser jornalista. Mas também havia o câncer do meu pai, a preocupar-me.

Vivi o último ano do colégio, experimentei as borboletas no estômago. Irrompi o 1º de janeiro de 2000 com o fantasma do bug do milênio à espreita: os computadores sofreriam panes homéricas, haveria um terrível colapso na comunicação, alguma coisa esquisita aconteceria. Porém, tudo correu normalmente.

Não sei, ao certo, onde passei a virada – lá se ia a década de 90 e entrava na 00, a “Era do Amadurecimento”. Conheci a Rayane, iniciamos o namoro em outubro e ficamos juntos até agosto de 2006. Mais da metade do decênio. Olhar para trás faz tudo parecer tão rápido, tão distante, tão inverossímil.

Aprendi lições únicas, entrei na faculdade, fiz novas amizades, reforcei as antigas, assustei com uma iminente guerra após os atentados ao WTC, me formei, escrevi, publiquei, fui penta com o Brasil, hexa com o Flamengo. Tanta coisa ficou no caminho para eu poder seguir até aqui.

Em 10 anos, morei em três cidades: Brasília, Florianópolis e Lisboa (quantos olás e quantos adeuses!). E os contos que colecionei ensinaram-me a controlar meus anseios e minhas ansiedades, levaram-me à conclusão de que o sentido da vida é não ter sentido algum, trouxeram pessoas que me tornaram melhor. Que, simplesmente, me tornaram.

Tudo o que foi, não volta. Como a areia que escorre entre os nossos dedos. O beijo debaixo do pé de amora, os recados por notes, os poemas confidenciados, aquele filme, aquele passeio, aquele samba, aquele cheesecake. Quanta coisa enche a gaveta de lembranças, sem organização, sem cronologia, sem precisão.

Mas tem a fantasia da memória, tem o saudosismo saudável. Foi uma década de sonhos mirins, de vontades libertárias, de ambições megalômanas. O que vivi é intransferível – e não me arrependo um segundo sequer. Nem do sim, nem do não. É confortante sentir a convicção (burra?) de que evoluí.

Hoje carrego esta calma por onde quer que vá. Abalada somente às vezes. “É preciso ser natural...”. Os momentos de angústia já não me atingem, já nem me alcançam mais. Sei que ainda vou tocar tantas novas experiências nos próximos 10 anos, mas sinto que tenho as arestas aparadas e a pureza de alma como aliada.

Qualquer sentimento desse passado tão pleno é intimamente meu. E assim vou sendo capaz de inventar a minha história com a devida sensibilidade que a existência merece. Assim vou sendo capaz de prosseguir, certo de que cumpri os planos traçados de uma década atrás.

Porque o Gustavo dos 16 anos encara, orgulhoso, este de 26. Disso, eu tenho a mais tenra certeza.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Mudamos

Mudamos. E é ao fim dos anos que notamos. Mudamos como quem muda de roupa, mas em dose pouca (porque a mudança brusca sempre assusta). Eu mudo, tu mudas... assim vamos dividindo a culpa. Não há jornada única.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Bom Natal e Boa Sorte


Ainda fico confuso porque todos oferecem um Feliz Natal com ares de piedade, de boa sorte. É verdade que os abraços são efusivos e há sorrisos no rosto, mas o fundo dos olhos revela aquela impressão de que vamos pra guerra.

Eu não consigo gostar do 25 de Dezembro. Ou do 24. Por mais que tente, que me junte e me misture, é uma data sem sal. Como o arroz com amêndoas que fiz ontem para a ceia – e se mal tocaram nele foi porque tinha comida demais, viu?

Vale a família. E meus Natais tiveram alguma graça quando os passei com os tios e primos em Pirenópolis (cidadezinha do interior de Goiás). Muito mais pela festa, pela bagunça, pelas risadas na simpática casa da Tia Sonja do que, propriamente, pelo espírito do menino Jesus.

Por falar em Jesus – não o da Madonna nem o treinador do Benfica –, fiz a minha véspera de Natal ser em Belém, pela graça do local e piada fácil com o nome. E com um dia tão harmonioso, de céu azul e frio ideal, não entendi como os parques e as esplanadas dos cafés estavam desertas. Se tivesse optado por um shopping, tenho certeza de que esbarraria no caos.

Então, afinal, onde está o espírito natalino? Vejo um bocado de hipocrisia comparsa e de consumismo histérico. Talvez a gente caminhe mesmo para uma espécie de guerra, e o ar de boa sorte, assim, até faz sentido. Talvez seja só heresia de vida minha. Uma coisa ou outra, nada muda(rá).

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Eu quero sem chuva, por favor

Alguém sabe pra que lado fica o Brasil? É que vou pegar meu voo em um mês, com precisão de marceneiro. Desembarco em São Paulo com esperança de não sentir um pingo sequer na cabeça. Essa de terra da garoa que fique de stand by – Lisboa já está molhada demais pro meu gosto.

Há dias que chove. E para. E volta a chover. E nova trégua. O guarda-chuva repousa bem ao lado da chave e da carteira, juntinho à porta. Sair sem proteção (e ainda falo do guarda-chuva...) é arriscado. Do último esquecimento, andei aí a tossir gravemente e expelir as vísceras.

Estou melhor, obrigado. Mas aprendi a lição: o inverno chegou no Hemisfério Norte e recomenda-se agasalho. Vou tratar de umas meias de lã na próxima semana. Barcelona, onde celebro a entrada de 2010, deve estar mais gélida que Lisboa. E também mucho mas caliente, tenho certeza.

Brevemente, porém, já estarei apto a coletar a minha parcela de aquecimento global no verão tupiniquim. Espero praia e sol, além dos diversos (e contínuos) festejos. Só que falhei no prazo do pedido do estatuto de estudante-trabalhador à faculdade e agora tenho até 31 de março para entregar a tese. Vai ser uma corrida contra o tempo.

Como o período é de festas, deixa pra lá isso. Sofrer por antecedência é uma das grandes estupidezes da nossa racionalidade leviana. Minha maior preocupação deve ser lembrar de pegar o guarda-chuva para logo mais à noite. Não quero que me falte ar nas canções de Natal!

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Desenhos de despedida

As singelas histórias deste mundo ainda me fazem acreditar nas pessoas. Sei que é piegas demais falar em exemplos, mencionar boas ações e valorizar a pureza. Ainda mais neste período, em que todo mundo transpira solidariedade. Uma solidariedade muitas vezes esquecida e posta de lado no dia-a-dia.

Uma coisa é a gente exercitar o bem no cotidiano, sem buscar nada em troca, sem esperar que isso seja visto, sem achar que exime qualquer atitude inversa. Costumo ser gentil com conhecidos e desconhecidos simplesmente porque respiram e sorriem e sentem fome e tropeçam e molham-se na chuva e ficam tristes e caminham e amam e odeiam...

Já contei isto aqui, mas vou repetir. Certa vez uma colega de trabalho me questionou pelo fato de eu ser ateu. "Mas quem não acredita em Deus é capaz de qualquer coisa", exclamou ela. Lógico que referia-se à falta de regras, de morais, de ética. Coitada. Mal me conhecia para saber que as minhas regras, minhas morais, minha ética é baseada no instinto básico de fazer o bem.

Leiam a maravilhosa peça abaixo. Aqui está a força do sutil, a beleza do mais profundo sentimento. O que aconteceu nesta família tem um só nome: esperança.



domingo, 20 de dezembro de 2009

A Maldição das Viradas


De gorro e aquecedor no máximo, duas meias e casaco pesado, olheiras, falta de ar e barriga roncando, escrevo sem nenhum estilo. Há três noites que durmo mal, por conta de uma infecção nos brônquios. Tentei de tudo, mas o melhor que tive foram quatro horas de sono – na cama, o que é uma vitória.

De novo, devo adormecer sentado, entre os vídeos do Youtube e a maratona de Friends. Nem consegui ler, senão adiantava minha tese. E quando caminhei até o mercado, senti-me um ancião de 26 anos.

De fato, pareço ter a Maldição das Viradas. Coleciono problemas estomacais, brigas conjugais, planos arrasados, mal-estar com amigos, úlcera no esôfago, gripe fortíssima e... agora esta infecção. Mas para além da saúde frágil, ando com mais uns tantos azares.

Não vou fazer balanço de 2009 nem projetar 2010. Acabou meu fôlego.

sábado, 19 de dezembro de 2009

O dia em que a terra tremeu à noite

O primeiro sismo a gente nunca esquece. E eu ainda cismo de ter perdido aquele de 2000 – sentido em quase todo o Sudeste, Centro-Oeste e Sul brasileiro. No exato momento, estava no único local impossível de notar a terra tremer: num avião, entre São Paulo e Brasília.

Mas desta vez, não. Não em Portugal! O luso-shake (expressão do amigo Dago) moveu a cama, onde lia distraidamente. Fez os pratos sacolejarem, as janelas estalarem e, mesmo assim, mantive a compostura – e os olhos no livro. Confesso que oscilei entre a hipótese sobrenatural (sim, espíritos) e a mundana (o vizinho estar divertindo-se de jeito).

Durou pouco: 10 segundos nos meus avoados cálculos. E se tivesse de chutar o grau na escala Richter, seria 0,32. Isso foi de quarta para quinta, em torno de 1h30min. Estranho foi despertar ainda tonto do oitavo sono com a cama, de novo, a dançar levemente. Era um novo abalo, em bem menor intensidade (o principal, com epicentro a 235 km de Lisboa, teve 6.0 na escala Richter e duração de 3 minutos; os seguintes, mais fracos, não atingiram 2.5).

À noite nem lembrava do ocorrido. Minha mãe ligou para saber se estava tudo bem. Demorei para entender que a preocupação tinha a ver com o sismo. É que eu ainda cismo que aquilo não foi bem um terremoto... mas vou sempre relatá-lo como sendo o meu primeiro.

P.S.: Ontem assisti ao apocalíptico 2012 e, realmente, se comparar o tremelique de Lisboa com as crateras engolindo cidades no filme, sinto-me aliviado. Falta três anos para o fatídico (ou não) 21 de dezembro.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Maldita rinite!


Esta rinite que ataca... Maldita rinite! Não posso pegar uma fresta de frio, ainda que esteja a suar dentro do casaco. Nem andar com os pés desnudos, cobrir-me com um cobertor felpudo, usar o cachecol do armário. Maldita rinite!

Que me faz refém de seus espirros, brinca com minha paciência, torna meus olhos profundos. E até escrever sobre ela, agora me obriga. Rinite que não despede-se com anti-alérgicos, que acomoda-se com sacrilégio e sacrifica meus amigos – pobres coitados a ouvir-me fungar o tempo inteiro.

Mexe com o trabalho e o lazer. Tira a vontade, dá lentidão. E lá se vão tantos anos de convívio que pensei ter superado os sintomas, as mazelas, a poeira, a janela entreaberta. É quase inverno e o clima cambiante talvez explique. Maldita rinite! Neste instante, não há coisa que mais me irrite...

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Pequeno dicionário amoroso


Tomei emprestado o nome de um filme (de 1997, com Andréa Beltrão e Daniel Dantas) para escrever sobre um assunto que tem sido recorrente entre os amigos – sejam eles brasileiros ou portugueses. Gosto de partilhar as minhas impressões sobre os relacionamentos daqui.

E quando digo daqui, não espero generalizar. Foco em Lisboa, e pronto. Numa Lisboa a qual participo, sem saber se experiencio a regra ou a exceção. Pelo que tudo indica, minhas apreciações têm lá sentido, mas há sempre de serem confirmadas por almas nativas.

O português repele – por falta de hábito ou ávido medo – a paquera. Raras vezes, e me corrijam se estiver errado, surge uma vertigem de flerte. Explico melhor: é difícil perceber o culto do olhar, do toque e do não-dito, ainda quando existe interesse mútuo.

Tudo é mais direto, objetivo, óbvio e, em alguns casos, até menos lúdico. Há euforia mais incontornável – e irrepreensível – que a do silêncio no início de um enlace? Nelson Rodrigues dizia que “é na pausa que duas pessoas se entendem e entram em comunhão”.

As mulheres portuguesas sofrem de uma brutalidade visceral, crônica, desestimulante. Desculpe se brutalidade soa forte, mas são poucas – e se calhar ando a buscar nos lugares errados – que acalentam a doçura. Queremos gajas independentes, não homens. Certa vez li a melhor definição ligeira deste fenômeno pós-moderno: mulheres de cabelo no peito.

E é isso que muitas são. O que não consegui entender é se primeiro veio o ovo ou a galinha. Se o, outrora, sexo frágil age assim para se defender das viris investidas masculinas ou se os piropos (cantadas) sujos nasceram como um aríete para machucar barreiras.

Seja qual for a raiz desta queda de braços estúpida, quem perde é a sinceridade. Eles mandam frases de uma ofensividade estéril – e até passível de um processo por atentado violento ao pudor, de tamanha baixo nível que são. Elas querem controlar tudo, mostrarem-se fortes e perfeitas, santas e putas. Todos, por fim, esquecem de perguntar o que o amor quer, que caminho a paixão pode percorrer livremente.

Faz-me confusão lidar com os jogos, mais ainda quando são jogos frívolos. Porque, consciente ou não, sempre brincamos na cena da conquista. É saudável. O que é maligno é alimentar mentiras (de todas as dimensões) e disseminar traumas. Pois assim vejo grande parte das relações daqui...

.. e já prevenido de qualquer contestação lusa, proponho que levemos esta conversa para uma mesa de café. Afinal, como disse, são apenas meras impressões.

sábado, 12 de dezembro de 2009

De regresso a viver só


De novo, e por pouco tempo (mas o tempo ideal para me devolver um certo entusiasmo que andava ausente), volto a morar só. Mal lembrava como é acordar com espaço e caminhar sem pudores. Como é ter o banheiro sempre livre e a cozinha do jeito que deixei à noite – poder tomar café da manhã com a privacidade que pede um café da manhã de inverno.

Durante um ano e meio, em Florianópolis, vivi num apartamento vazio. Experimentei dores e sabores da solidão, e posso dizer que em alguns momentos o que mais quis foi dividir. Mas dividir o lar com estranhos é mais difícil que parece, um desafio bem mais estreito que os seriados e filmes nos fazem crer.

Nunca tive conflitos sérios. Talvez porque não invista em problemas – afinal ver suas compras desaparecerem da despensa, definitivamente, é motivo de conflito. Esse é o preço agregado que se paga por partilhar a mesma área, pois algumas pessoas acham que o que está na casa é da casa. E existem tantas outras situações desconfortáveis que consumiria o tempo de vocês ao espreme-las.

Acostumei a estar só, por mim mesmo. Acostumei a fazer comida para um, a não passar roupa, a deixar a tampa da privada levantada. Acostumei lá atrás, com muito gosto – e certo custo por a solidão tornar-se uma emboscada. Fico em Lisboa até meados de janeiro contemplado por esta saga anacoreta, e quando regressar do Brasil (em março) os dias voltam a ser limitados.

Porém, será um mês muito bem aproveitado. Podem ter certeza.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Frases soltas

É por ti que espero. É para encontrar-te que descasco os meus dias sem importar quanto tempo perco. Ganharei-os de volta ao seu lado: um a um.

Isso tudo não é sobre amor. Ou é. Já nem sei do que se trata. O amor fascina, mas nunca é remendo. E eu tenho tanto sentimento que a solidão me confunde.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O canto da sereia


Ei, tome cuidado! Saudade é brinquedo perigoso, é coisa frágil. A gente precisa é afagar o passado com moderação, acariciar a distância como se fosse um gato traiçoeiro. A nostalgia é aliciante, então tome cuidado. Tome muito cuidado...

Não deixe as memórias seduzirem. Não sinta que o ontem era melhor. A vida que repartimos em cronologias deve-se ao presente. Recordas que queria mesmo caminhar na neblina? Então deixe-a também cobrir as suas costas.

Saudade é canto da sereia, é convite para a casa de doces. Saudade mente. Ouve como quem não escuta. Diz o que gostaríamos de ouvir. E enquanto vamos sendo abraçados pelos seus tentáculos, a melancolia sorri.

Seja pura na vontade e não tenha pressa da resposta. Seja a pergunta. Seja hoje. E isso que te atinge, será atingido por ti, para se compor um tempo que ainda nem existe.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Aquele saber ao vazio

Eu não tenho jeito. Eu não consigo escapar das minhas ilusões, não consigo acomodar em minha inquietude, não consigo suspirar sem o peso de 100 toneladas. Eu não tenho jeito para agir, eu sonho sem critério e adormeço com esperança.

Eu não desaprendo, não me desprendo das amarras, nem destempero. Vivo a coordenadas exatas – que tolice! –, com métodos ineficazes de ser eficaz. Eu não tenho tempo, mas o tempo me tem. Me aprisiona, enquadra, me leva, me deixa. Fecho os olhos tentando encontrar o que nunca soube o que é.

Eu não permito. Escondo qualquer sentimento por detrás do medo. E se aconselho, se partilho, se me exponho... é por minutos, não mais. Eu necessito de alguém, ainda que pareça me virar muito bem sozinho. Mas não tenho jeito para pedir, para chegar, para sorrir e fluir.

Eu não utilizo o sim com facilidade. Impeço logo no começo, porque é mais seguro que abdicar depois. Receio e arrependo. Esqueço e reprometo. Redefino e sigo na mesma. Enquanto a vida passa. Não tem graça essa lamentação – nem traz nada.

Eu não sei. Simples assim.



sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Natal de luzes, compras e amigos


As luzes de Natal embelezam a capital portuguesa. Não sei o quanto se gastou em enfeites brilhantes, porém Lisboa não mais escurece. O coração, no Largo de Camões, muda de cor ao toque do botão – e qualquer um pode fazer isso. As velas de cabeça para baixo estendem-se pelo Chiado. As estátuas dos ilustres ganharam o toque de embrulho de presente.

Os festejos de fim de ano chegam e os centros comerciais lotam. É a euforia do consumismo, em seu momento de ápice. E como o europeu gosta de gastar! – o que tem e o que não tem. O inverno também propicia o frenesi: as pessoas vão às lojas para sair de casa, remodelam o guarda-roupa para ocupar o ócio.

Já não há mais novidade no ciclo. Em 2008, passei o Natal sozinho. Confesso que a data me é indiferente. Agora, devo celebrar com os amigos, numa ceia simples. O réveillon continua em território espanhol: salta da pacata Badajoz para a agitada Barcelona.

E no dia 25 de janeiro desembarco em São Paulo. Mas ainda não é o regresso definitivo, podem acreditar.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

É merecido!


Dezessete anos depois, cá estou em Portugal para ver o Flamengo levantar a taça de campeão brasileiro. Não quero celebrar o oba-oba ou antecipar a glória vermelha e preta, mas perder o título diante da conjuntura é tão improvável quanto nevar na Bahia.

O pior de tudo é que, pelo andar da carruagem, o desmérito vai marcar a conquista. O Flamengo foi a melhor equipe do segundo turno, triunfou brilhantemente nas mãos de Andrade, e ainda vão fazer questão de enfatizar que facilitaram a nossa vida.

Justo a nossa nada-fácil vida, de vertiginosas frustrações (a lembrar o Grêmio em 1997, o Santo André em 2004 ou o América do México em 2008) e intrínsecas ligações com a Série B. Aliás, quando o Fla não caiu em 2001, foi ajudado. E agora, se for campeão, também terá sido ajudado.

Caso fosse assim, caso o clube da Gávea desfilasse tamanha força nos bastidores, acham mesmo que enfrentaria 17 anos de jejum? E outra: São Paulo, Inter, Palmeiras, Atlético-MG e Cruzeiro falharam pelas próprias pernas. Oscilaram, titubearam, baquearam, como muitos num torneio equilibrado (seja pelo alto ou pelo baixo nível, não importa).

Quero mesmo que o Grêmio entre em campo como se fosse uma decisão de campeonato gaúcho – e o Flamengo fosse o Internacional. Quero que a hombridade que faltou aos colorados no ano passado não falte aos tricolores este ano.

Gosto de acreditar, ingenuamente, no caráter íntegro do ser humano, ainda que Nelson Rodrigues tenha me alertado diversas vezes que “no Brasil quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte”. E não há melhor definição para este momento...

O iminente título rubro-negro não pode ser manchado por especulações tolas. Não pode ser posto em causa por conta de um goleiro esquentadinho ou um meia de polêmico histórico. Em vez disso, que tal exaltar a lucidez do técnico Andrade, a maestria de Petkovic, os gols de Adriano, a competência de Bruno, a dedicação de Maldonado?

Meu manto sagrado está a caminho para erguer-se como uma bandeira no arco, na comemoração do sexto título. Merecido e justo. Ou então não quero mais crer no bom feitio do homem.