quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Nada é nosso


Todas as coisas que são nossas nunca são nossas de fato. A casa construída, o carro comprado, a geladeira, o fogão, o computador, o livro, as roupas. Nada. As sensações, as lembranças, o frio, a fome, a arte, o desejo, a mulher amada. São coisas nossas sem nos pertencerem – sem algum dia terem nos pertencido.

Hoje, escutando uma canção francesa, tive a lúcida noção que a liberdade nunca será alcançada. Porque essa é das imagens desprendidas que mais queremos deter. Como o amor. E se nada é meu das substâncias materiais, o que dirá das imateriais?

Isso é algo que deveria nos emancipar de nós mesmos, em vez de amedrontar – como acaba por fazer. Se pensarmos que tudo passa, e também passaremos, podemos simplesmente desligar-se desse mundo regado de incongruências. Uma menina, um dia, espantou-se por eu ignorar Deus.

– Quem não acredita Nele é capaz de qualquer coisa – disse ela.

E mal sabia que sou. Mas não de maldades, como ela supôs. Sou capaz de viver à busca de ávidas belezas e disseminar uma espécie de pureza terna, sem achar que possa ou deva realizar isso. Um egoísta generoso, indiferente às dores alheias porque elas também são coisas que não são nossas.

Se penso naquelas noites de solidão, a solidão apavora-me, não porque a posso ter de volta, mas porque nunca as terei como eram. A saudade nada mais é que assumir a impossibilidade da posse de um momento – um momento, na verdade, ausente de nós.

Quero vaguear nesse ínterim do achar e do ter. Porque se nada é nosso, nem esta vida efêmera, nada temos a desperdiçar.

2 comentários:

Bembi disse...

as coisas não só não nos pertecem como elas escapam por entre os dedos.

o que temos são nossas sensações.

e o que tenho hoje é saudade.


um beijo

Andréa disse...

Lindo, profundo... e muito verdadeiro.
Aliás a beleza do efêmero é justamente essa, de ser efêmero.
Beijo grande,
Andréa

PS: adorei o novo visual do D´Além Mar (a nova foto combina mais com esse momento de tantas viagens).