segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Diria que é um guia (Parte 3)

Opção cultural... há em Lisboa? Pois foi nessa toada do último e-mail trocado. Respondi, com certo receio de vender gato por lebre. Aposto no meu gosto, apesar de às vezes concordar que a capital portuguesa deveria vir mais recheada de uma boa agenda. Vamos ao terceiro blá-blá-blá...

Sim, confesso que me "pegou" no tema do outro e-mail. E gostei da risada macabra. Estive a pensar mesmo na questão que te corrói e consegui chegar a duas certezas que se atravessam:

- Há bastante opção cultural aqui;
- Não há tanto opção cultural quanto podia ter.

Explico desde já. As revistas mentem uma verdade maquiada. Lisboa é realmente cada vez mais metrópole, cada vez mais diversificada, cada vez mais tolerante e aberta, cada vez mais in. No entanto, trata-se de um caminho lento diante do conservadorismo do povo português. Os antigos ainda teimam em martelar na tradição; os jovens já cresceram na mistura e aceitam o diferente com naturalidade.

No entanto, a produção de Portugal enquanto país cultural é pequena. Nisso assemelha-se um pouco ao "provincianismo" de Floripa, infelizmente - pois tanto um lugar quanto outro tem o suficiente para tornar-se mais importante neste cenário. Então já te digo que não espere o peso de Londres, Paris, Roma ou Madrid. Não espere a efervescência de Barcelona ou Amsterdã. Lisboa ainda engatinha nesse aspecto e tem suas belezas e magias.

Essas revistas são, talvez, um combate ao complexo de vira-latas. Ainda assim, não me arrependo de ter escolhido aqui - principalmente para aproximar de um país e pessoas que a gente pensa saber e conhecer, mas não tem ideia de como são; desmistificar muito senso comum que nos é imposto e, por que não, valorizar a nossa terra e raízes.

Sinceramente, se fosse para te indicar algum local para fazer o mestrado, seria Itália ou Espanha. Mas é que sou mesmo apaixonado por ambos, e só não escolhi um deles por conta do idioma. Tenho certeza de que ainda vou morar em Roma, Barcelona ou Madrid. Isso é fato, hehe. Mas posso dizer que Lisboa é agradável e se já conheces Londres e quer ficar perto do teu namorado, não vejo porque não escolher a capital lusa.

Com certeza passará momentos interessantes...

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Diria que é um guia (Parte 2)


Continuo na ambição do despretensioso manual. A amiga pergunta-me sobre o curso, se dá para pagá-lo com o dinheiro que se ganha aqui ou se é melhor trazer uma grana extra. Também quer saber sobre emprego e essas coisas. Eis o segundo e-mail escrito:

Eu trouxe a grana para pagar o mestrado. Quis garantir. Ah, em comparação com o restante da Europa (e até com o Brasil), aqui em PT é mesmo mais barato. O meu saiu a 2.500€, dividido da seguinte maneira: 500€ no 1º semestre, 500€ no 2º e 1.500€ no último. Agora abaixou: está 2.000€.

O bom é que deves vir numa época de contratações nas lojas e cafés. O ano letivo começa em setembro/outubro e esses lugares buscam novos funcionários por conta do Natal. Trabalhei num café de novembro a maio, e desde junho estou numa empresa de comunicação, fazendo clipping. Ganho menos por hora que no café, mas trabalho mais (então tiro mais no fim do mês). Vale você estar atenta a uma coisa aqui: recibo verde. Que é uma espécie de certificado de trabalho autónomo. Você deixa de contribuir para a segurança social (espécie de INSS), perde os subsídios que tem direito, mas recebe bem mais por hora. Para se ter uma ideia, tirava 2,60€/hora no café com contrato de trabalho temporário. Depois, com o recibo verde, subiu para 4,50€.

Essa é mesmo a média que se recebe aqui em Portugal. É pouco porque o custo de vida também é baixo. No meu trabalho atual tiro 3,60€/hora. No fim do mês isso me dá uns 600€. Com essa grana consigo viver legal, não regular mixaria e ainda viajar. Sem contar que sobra uma boa quantia. Sabendo que isto aqui é temporário, é mesmo válido fazer "concessões" (como o luxo de uma casa só pra si) e juntar um dinheiro pra desbravar a Europa (falar isso pra ti é irrelevante, pois já tens essa noção e esse espírito).

Tem muito ainda a falar que fico "perdido". Vou ajudando aos poucos, e você vai colocando suas dúvidas.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Diria que é um guia (Parte 1)

Já há muito queria iniciar uma espécie de Guia de Lisboa para os viajantes-aventureiros. Queria iniciar, mas não tinha um mote. Ou tinha um mote, mas transbordava preguiça. Agora as desculpas esvaíram-se...

Uma amiga veio, recentemente, perguntar sobre a vida em Portugal. Quer cursar um mestrado na Europa e oscila entre a pátria de Camões e a Inglaterra. Se ela já não tivesse lá morado, não hesitaria: “vá para a Londres!”, bradaria. Mas a terrinha tem seus inúmeros encantos – também tem inúmeros enganos.

Pois ao longo dos nossos e-mails trocados, vou atualizando o blogue com minhas impressões, ideias, sensações e experiências. Afinal, foi para isso que este espaço nasceu. E é assim que ele ainda sustenta-se de pé. Ainda que cambaleante.

Enfim, sem mais delongas, vamos ao seu impasse: Inglaterra ou Portugal. Aqui tem alguns pontos fundamentais a se pesar, para além da área académica. O custo de vida é um deles. Portugal (e aqui falo de Lisboa, que por ser capital é mais "cara") é um país muito barato de se viver. Não sei se tens interesse de trabalhar ou se vens com uma grana já. Mas de um jeito ou outro, consegues arrumar um quarto em conta (desde 150€ – sem despesas – a 300€ – com tudo incluído) e bem localizado. A parte de alimentação é acessível e consegue-se viver bem com 500€.

Se quiseres um apartamento, aí vai precisar de um pouquinho mais de dinheiro. Mas nada muito além. Há estúdios ou T0 por 350€ a 500€, sem as despesas de água, luz e gás. Os transportes são simples se viver na parte "histórica" de Lisboa. Quanto à universidade (a minha é a Nova), acho-a um tanto bagunçada. Essa é a parte ruim do mestrado: e por pior que pareçam as nossas instituições públicas de ensino, aqui parece que a desorganização é maior.

O conteúdo, em si, é interessante. Mas há uma "teorização" exorbitante. Explico: nossa linha de estudo está mais voltada para a norte-americana, agregando a parte teórica à prática. Temos essa valorização do "fazer", enquanto eles aqui estão muito focados somente na "investigação". Poderás pensar que um mestrado é exatamente isso. Concordo. Porém, às vezes há qualquer coisa de muito utópico e, pior, de muito "circular". Para quem já está no mercado de trabalho parece tudo uma grande volta sem propósito.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Numa segunda-feira bucólica


Queria ter agora um texto suplente para atualizar o blogue. Um texto já escrito, esperando a sua vez de tomar a página virtual. Um texto sem pretensão de ser o melhor, mas com a leveza de completar um vazio.

Porque escrever é uma necessidade plena e consciente. Publicar o que se escreve já é mais forte que nós. Depois que iniciamos o processo de escancarar nosso eu ao outro, não há mais volta. Partilhar torna-se um vício perigoso.

Os critérios podem dissipar. Posso estampar neste espaço qualquer coisa que me valha – e não contém valor algum. Nem ao menos sei o impacto que as palavras daqui tem aí, em vocês. Recebo retornos (ou feedbacks, na língua dos executivos) esporádicos e espasmódicos.

Minha necessidade de escrita, por vezes, é inimiga. Cria qualquer coisa, inventa uma roda triangular, forja modelos mal-acabados. Quis escrever sobre a derrota da minha virilidade, mas parei. Escrever deve ser expor-se sem medo ou amarras. E confesso que ainda devo a todos (e mais ainda a mim) descascar-me intimamente.

Só assim a escrita é válida e real. Só assim vale para alguma coisa, que não encher linhas numa segunda-feira bucólica. Então vou comprometer-me a aprofundar o texto, verticalizar o sentir: e criar sem barreiras. Porque a única razão legítima de escrever é ler-se.

sábado, 21 de novembro de 2009

Fumar mata

Eu sei que fumar mata. Mesmo que não estivesse escrito no rótulo, dá para supor que faz mal. Conheço gente que fuma há anos e um dia, por causa do tabaco, vai morrer. Pode ser aos 40, 70 ou 100.

Por isso nem hesitei quando li a advertência na caixa de charutos. Comprei-a, com a satisfação de ter às mãos um modelo cubano. De Havana. E se realmente o fumo matasse, o que seria do Fidel?

Os charutos chegaram a mim pela bagatela de 6,5€. Multiplique isso por 2,6 e terás uma média do preço em reais. A caixa tornou-se minha “menina dos olhos”. As cinco unidades vêm embaladas com finesse, individualmente, numa espécie de tubo de ensaio.

O fabrico, o cuidado, a preservação, o corte, o acompanhamento... tudo é importante num charuto. Fumá-lo é um ritual, tal qual na degustação do vinho e na apreciação do café. Não se traga. A fumaça deve percorrer a boca, para os sabores serem sentidos.

Amanhã, no aniversário de um amigo português, estreio a caixa. Ou como no título de um filme francês: é o primeiro dia do resto de minha vida.

domingo, 15 de novembro de 2009

Este acaso chamado destino


Não acredito em destino. Pelo menos de segunda a sábado. Domingo é diferente, então hoje quis crer. Ia sair do Centro Comercial das Amoreiras (durante este mês, volto a trabalhar no café) para o Centro Comercial Colombo.

Perdi o primeiro ônibus por questão de um minuto talvez; desatento, deixei o segundo passar após longa espera; e quando desisti de aguardar pelo terceiro e abandonei o ponto, eis que surge o automóvel.

A sucessão categórica de desastres fez-me valer da máxima: não era mesmo para eu ir. Enfrentei a chuva fina, andei alguns parcos quilômetros e tomei o metro em direção a casa. Mais fácil assim.

***

A noite de sábado foi de futebol. Portugal e Bósnia duelaram no estádio da Luz, por uma vaga no Mundial-2010. Foi o primeiro jogo, estive lá e deu 1-0 pros donos da casa.

A torcida lusa parecia num teatro, enquanto os bósnios entoavam gritos sempre animados, pulavam e vibravam com olhos rútilos e dentes cerrados. Deu saudade da festa nas arquibancadas brasileiras, do incentivo e das provocações.

Finda a partida, prometi que iria interagir com os visitantes. Queria trocar o cachecol – o meu de Portugal por um da Bósnia. Nem precisei sair da arena. Realizei o escambo com um senhor. Ele jogou o azul-amarelo, eu enviei o verde-vermelho.

Minha felicidade contagiou os bósnios. Parecia uma criança à frente do presente de Natal. Ficou marcado o rosto do homem desconhecido, a simplicidade do gesto de arremessar o objeto. Ele já deve ter passado por tantas coisas e agora carrego um pouco de sua história.

Onde comprou o cachecol? Quando? Como ganhou o dinheiro? Quantas vezes utilizou? Por que quis trocá-lo?

Talvez seja coisa do destino, numa participação especial no sábado.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Impresente companhia

O homem tem várias obsessões. Um homem sem obsessão, sem uma reles e ínfima obsessão, assemelha-se a um daqueles chiuauas de madame: inofensivo, indefeso, patético.

A minha mais recente obsessão é pela voz feminina. Ando pra cima e pra baixo com os fones no ouvido, sempre a escutar um delicado timbre, uma canção sussurrada, um sopro de alma.

É exagero. Tudo o que tem muito adjetivo é exagero. O que se repete é exagero. E estou para exagerar, afinal. Nas músicas de uma Lisa Hannigan, uma Regina Spektor, uma Fiona Apple. Ouço-as e torno a ouvi-las.

Misturo-as a Adele, Lauryn Hill, Amy Winehouse, Amel Larrieux, Norah Jones, Madeleine Peyroux, Erykah Badhu, Sheryl Crow, Amy Macdonald, Joss Stone… O repertório nunca se encerra.

São as minhas impresentes companhias.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Nada é nosso


Todas as coisas que são nossas nunca são nossas de fato. A casa construída, o carro comprado, a geladeira, o fogão, o computador, o livro, as roupas. Nada. As sensações, as lembranças, o frio, a fome, a arte, o desejo, a mulher amada. São coisas nossas sem nos pertencerem – sem algum dia terem nos pertencido.

Hoje, escutando uma canção francesa, tive a lúcida noção que a liberdade nunca será alcançada. Porque essa é das imagens desprendidas que mais queremos deter. Como o amor. E se nada é meu das substâncias materiais, o que dirá das imateriais?

Isso é algo que deveria nos emancipar de nós mesmos, em vez de amedrontar – como acaba por fazer. Se pensarmos que tudo passa, e também passaremos, podemos simplesmente desligar-se desse mundo regado de incongruências. Uma menina, um dia, espantou-se por eu ignorar Deus.

– Quem não acredita Nele é capaz de qualquer coisa – disse ela.

E mal sabia que sou. Mas não de maldades, como ela supôs. Sou capaz de viver à busca de ávidas belezas e disseminar uma espécie de pureza terna, sem achar que possa ou deva realizar isso. Um egoísta generoso, indiferente às dores alheias porque elas também são coisas que não são nossas.

Se penso naquelas noites de solidão, a solidão apavora-me, não porque a posso ter de volta, mas porque nunca as terei como eram. A saudade nada mais é que assumir a impossibilidade da posse de um momento – um momento, na verdade, ausente de nós.

Quero vaguear nesse ínterim do achar e do ter. Porque se nada é nosso, nem esta vida efêmera, nada temos a desperdiçar.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Alguns dias fora...

Forçosamente, precisei estar ausente da internet por uns dias. É que deu problema na conexão em casa e fiquei restrito às visitas ao e-mail – e só. Até porque, do trabalho, não consigo ir muito além.

A boa nova é que voltei. Quer dizer, ainda estou a tentar imaginar a “boa nova” disso para vocês, mas tudo bem. Alguns poucos e rápidos fatos sucederam-se na semana. Depois de recuperar o sono da pungente Madrid, inventei de apanhar uma gripe.

Não é a A, é a S. A tal sazonal, como chama em Portugal a gripe que arrebata 79,23% da população nesta mudança brusca de clima (a percentagem ficou por minha conta). Também pudera: fui inventar de jogar frescobol na praia, debaixo de chuva.

Porém estou a me cuidar. Até porque iniciei uma fase “pauleira” na minha vida. Mesmo para acabar o ano com jeito. Até o dia 30 de dezembro devo ter uns ínfimos dias de folga dos trabalhos. É que resolvi ocupar meus fins de semana de outono/inverno com um outro emprego. Assim faço um pé-de-meia de jeito.

Lógico que depois vem o réveillon em Barcelona, algum trabalhinho mais, as férias merecidas no Brasil e, assim que pisar em solo português de novo, mais uma viagem: para Marraquexe (Marrocos), com uma ligeira passagem por Madrid.

Por que cada vez mais acho que viajar é a minha sina? O que me acalma.

sábado, 7 de novembro de 2009

Males que vêm pra bem

A frase está desgastada, mas não custa reforçá-la: “Há males que vêm pra bem”. Ou ainda: existem acontecimentos muito além de coincidências. O fato de a reserva do hostel em Madrid ter sido feita no dia errado levou-nos a uma pensão superagradável, limpa e tranquila – de um senhor espanhol casado com uma carioca.

Também teve a visita à Praça de Touros, segunda maior arena do mundo, convertida numa incursão etílica por conta da Feira da Cerveja que rolava no local. Com direito a uma disputa (eu e a Ju contra um casal) para ver quem serrava um tronco mais rápido. Vencemos e arrematamos um boné da cerveja bávara Paulaner (ela queria um chapéu da Guiness...).

E quando resolvemos tirar foto com o Homem-Aranha na Plaza Mayor? Detalhe que o super-herói desfilava uma barriga de causar inveja ao Homer Simpson. Ê pá, o gajo ainda era português! Simpatitíssimo e divertido. Como foi divertido passar por diversos artistas de rua, com infinitas aptidões criativas.

Não encontramos as boates sugeridas, mas e daí? A noite barata e louca passou numa disco chamada Cibeles. As pessoas fantasiadas no Halloween interagiam, brincavam umas com as outras, riam. E visitei o Museu do Prado e o estádio Santiago Bernabéu; a Plaza del Oriente (que lugar!) e o Mercado de San Miguel (que lugar!).

Madrid ainda está em mim, como uma tatuagem na memória. Foi um fim de semana apenas, porém intenso. Com amigos que cada vez tornam-se mais importantes para fazer dos momentos que tenho vivido inesquecíveis. Pois como escrevi no início: “Há males que vêm pra bem”.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

La movida madrileña


Uma cidade é muito mais que paisagem. É muito maior que seus edifícios e monumentos; que os pontos turísticos, as zonas históricas; os parques, jardins, becos e ruas. Uma cidade é como nós: tem personalidade, constrói um caráter, ganha uma alma.

Por isso Madrid é bela na forma, mas é especial no conteúdo. A capital espanhola esbanja vitalidade estética ao mesmo tempo em que abraça a simpatia com um jeito despretensioso de conduzir a rotina. Como numa peça sem trama.

Meu encanto foi imediato. Sair do subterrâneo na Gran Vía às 10h da manhã e perceber o mundo que se abre teve peso – e importância sublime. Depois da meia-noite o deslumbre foi igual. Madrid não dorme e, acordada, faz festa. Seja no meio da rua, seja numa discoteca.

O bom humor é mesmo algo que se (re)aprende na Espanha. E como nos energiza! Embarquei de volta a Lisboa no Aeroporto de Barajas com a certeza de esse enredo merengue foi apenas o prólogo.