sábado, 3 de outubro de 2009

Há um ano...


Quase um ano depois, refaço o caminho que fiz a Belém. Acordei com um sol estonteante e resolvi aproveitar Lisboa ao ar livre. Dei-me conta da reconstituição já no autocarro.

Muita coisa mudou de outubro de 2008, quando deixei o Brasil, pra cá. Houveram as mudanças práticas: mudei de casa (três vezes), mudei de emprego, de peso, de ideia para tese, de amigos, de mulheres, de corte de cabelo, de atividades, de hábitos. Mas mudei ainda mais por dentro.

Um ano atrás, era outro. E se hoje cruzasse na rua com aquele eu dificilmente o reconheceria. Estava repleto de hipóteses e vontades. Agora não me acho melhor ou pior: apenas mudado. Todos mudamos para continuarmos iguais.

Se pego-me a pensar quem devo ser é porque ando confuso. O exílio concede ganhos que somam perdas, perdas que resultam ganhos. É mesmo complicado entender. E a distância demorada, a solidão ululante, o crescimento silencioso... são misturas que tornam-se cotidianas.

Aqui, aprendemos a não alcançar respostas, mas entender qual é a pergunta que deve ser feita. Aprendemos que sonhos rejuvenescem e envelhecem, que queremos tanto e podemos ainda mais, que nem todos os medos foram catalogados, que a carência é uma merda, que novas aspirações vêm, sem quê nem porquê – mesmo aquelas desconhecidas.

Estou há um ano em um percurso que buscava há vários. Absorvo o que desejei, experimento a liberdade e seus efeitos colaterais, coleciono contos, fabrico artesanalmente as minhas vidas. Cheguei, enfim, ao papel de protagonista. Com custo, com gasto, com certezas e surpresas.

Não sei, hoje em dia, mais nada sobre a felicidade. Parece-me uma palavra estranha, uma sensação fora de mim. Porque essa perseguição já me é estranha. A felicidade nunca é fim, mas meio. E somente possível se não for percebida.

Deixei, há um ano, sem saber, um jeito qualquer de olhar as coisas...

Um comentário:

Sol disse...

Por acaso nem sei , acordei meio tristonha neste dia...Mas recebi algumas simples palavras que animaram e me fizeram crer que tudo vale a pena mesmo...obrigada pelo carinho e por fazer parte deste novo ano.