segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Tatuagem no pé

Sábado à tarde. Tomei o comboio para Carcavelos e segui sozinho à praia. Bem na minha frente, numa daquelas poltronas dobráveis, senta uma mulher linda. Já a havia visto na compra dos bilhetes. Dera passagem a um casal de idosos.

Estou diante dela e não consigo evitar de fitá-la. Vez ou outra, nossos olhares cruzam. O homem perante a mulher linda sofre da obsessão. Por mais que tente disfarçar e desviar, o cérebro ordena mais uma contemplação, mais uma, mais...

É nessas horas que surgem as três opções básicas e, ainda que básicas, complexas: 1) o clássico “oi”; 2) a cantada manjada – e quase sempre fadada ao ridículo; 3) a apreciação sagaz sobre qualquer outro tema, a não ser o clima.

Criei coragem para o 1+3. Ensaiei internamente maneiras de “olás” e diálogos frutíferos. Hesitei. Recuei. Voltei a estufar o peito, esperei o momento – ela escrevia uma mensagem de texto no telemóvel, ou disfarçava com sua franja caída sobre o olho direito cor do mar – e assoprei, inclinando-me à frente:

— Desculpa... (e juro que atravessaram cinco dias de intervalo da primeira à segunda palavra dita) mas vi tens uma tattoo no pé. O que tá escrito?

Foi uma mistura: 1+2+3. Clichê total. Senti-me o Homer. Doh! Tanto tempo para pensar em algo original e perguntei da tatuagem? Ela, meio surpresa meio sem jeito, respondeu – mostrando o peito do pé direito:

— David Amorim.

E quem seria esse gajo, oras bolas?! Marido?! Namorado?! Filho?! Pai?! Outra vez intrusivo, perguntei quem era, ainda mais desconcertado que ela. Agora eu precisava saber.

— Meu filho.

Não sei porque, travei. Engasguei mesmo. Como se eu tivesse algum problema de ela ter um filho. E, afinal, o nome David é bonito (lê-se como Madrid, com o “d” mudo pronunciado sutilmente com a língua entre os dentes).

A verdade é que titubeei. Não havia planejado um interrogatório nem imaginado para onde conduziria o papo, mas aquilo desarmou-me de tal modo que a minha pergunta seguinte foi a mais imbecil possível:

— E doeu pra fazer?

Então ouvi de seus lábios finos, ou foi da minha mente grosseira:

— O quê?

Para o restante da viagem, virei-me para a paisagem a correr na janela...

2 comentários:

Andréa disse...

Já passei por algo parecido graças ao nome que está tatuado no meu pulso esquerdo: "Lucca".
E a resposta (somente a primeira) foi idêntica: "meu filho".
Bjs,
Andréa (a tatuada)

Drica disse...

Oh, quem dera um gajo me perguntar da minha borboleta ou do coração no meu pulso... kkkkkkkk! Mas tinha q ser gato como irmão, hehe!