sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Manias portuguesas e o sonho europeu

Enquanto não retorno, e traço planos de mais um ano em Portugal, dou-me conta das manias adquiridas. Como tomar ducha com chuveiro móvel. Agora é coisa comum – e bem prática. Ou acender a luz do banheiro pelo lado de fora.

Já refogo a comida no azeite (aposentei o óleo), tempero pratos com curry (caril por aqui), compro feijão pré-cozido em lata. E o café, então? No mínimo dois por dia. Tornou-se hábito e ritual.

Os termos, então, nem se fala. Voltarei com menos gerúndio, bué palavras novas e a contar sobre as viagens de comboio, as linhas do metro, os passeios de eléctrico, os trajetos do autocarro. Pá, casa de banho, telemóvel, cena e fixe também já incorporaram-se ao meu vocabulário.

Vai ser impossível não gozarem-me. Ou me gozarem. Depois de tanto tempo num local a gente acaba por tomar emprestada a cultura, os calões, os trejeitos e costumes. Mas nada apaga a relação com a casa. Nem o tal “sonho europeu”.

Converso com amigos que pensam que isto é a oitava maravilha do mundo, que não existem problemas deste lado do Atlântico, que é bobagem preocupar-se com qualquer coisa quando estamos no Velho Continente. Essas pessoas não entendem – e não irão entender até viver – o que é estar fisicamente distante.

O jogador Adriano, do Flamengo, relatou o seu retorno ao Rio de Janeiro assim: “Eu precisava disso. Aqui falam a minha língua, entendem a minha cultura. É muito mais fácil. Volto para casa após os jogos e tenho minha família, os meus amigos. Isso me faz muito mais feliz do que antes. Aqui é Brasil. Apesar das dificuldades somos um povo vencedor.”

Nunca desencorajarei o arriscar, mas vou explicar em letras graúdas que não há glamour gratuito – como pensam ou sonham ser. Cada passo dado no exterior é mais pesado e cuidadoso. Após 10 meses em Portugal consegui realizar a primeira viagem para fora.

Somente em julho consegui equilibrar as contas e me dar ao conforto de compras melhores, lanches na rua e prevenir-me do frio como deve ser. Trabalhei em café, servi mesa, ouvi desaforo de cliente, cortei-me em louça quebrada, tomei chuva de madrugada, subi e desci ladeiras infinitas. Ainda hoje divido a privacidade com cinco estranhos num apartamento com um banheiro. (Mas já foi pior.)

E não arrependo de nada disso. Porque nunca iludi-me com um tal “sonho europeu”. Sei, porém, que descubro a cada dia que meu lugar é o Brasil.

Um comentário:

Andréa disse...

Muito "giro" seu texto!!
rs...
Ainda não fui viver esse mar de enfrentamentos no Velho Continente, muito embora haja um desejo latente dentro de mim.
Porém, devo concordar que não há nada de mais reconfortante do que saber que os seus (parentes, pais, amigos) estão por perto, e acessíveis.
Parabéns pela perseverança.
Bjs,
Andréa