terça-feira, 15 de setembro de 2009

Esta sensação de pertencimento


Não sei bem como a gente sabe que já pertence a um lugar. É por caminhar sem preocupar-se com as placas, sem olhar o mapa? Ou é quando o que já foi diferente torna-se trivial? Não sei bem se é pelo cheiro ou pelo olhar, se é de um dia pro outro ou leva tempo.

Eu tenho pra mim que é, um pouco, quando a gente cumprimenta conhecidos na rua. Quando uma ida ao mercado é interrompida por um “oi, tudo bem?”. Quando no trajeto do metro, descobre-se aquela ex-colega de trabalho, que não se via há meses.

E é confuso, bom e ruim, este sentir-se pertencer ao que não é seu. Vira e mexe misturo rostos na minha memória em movimento. Avisto pessoas de Florianópolis em Lisboa – gente que convivia superficialmente. Em Floripa, bagunçava as raízes: não sabia se conhecia o sujeito de lá ou de Brasília.

Estranho demais ter pedaços espalhados em cada lugar, como se a coragem – e a vontade – de dizer adeus fosse paga com o esquartejamento da alma. Por isso escrevo. Por isso o blogue. É onde engaveto histórias e formalizo experiências com a convicção apaziguadora de poder reconstruir – ou recriar – o todo, ainda que nasça um Frankenstein literário.

Não sei bem se, algum dia, irei questionar se, alguma vez, pertenci a Lisboa. Mas, então, terei este pretenso texto para sanar a dúvida que uiva: afinal, foi Lisboa que pertenceu a mim, como uma cadelinha é sempre fiel ao seu dono.

Um comentário:

François-e parda disse...

Querido Gustavo.
Falando no sentido metafísico, desconsiderando as coisas pueris do cotidiano. Tenha certeza que somos nós que ganhamos com a presença do seu espírito. Também com a presença de espírito, acho que vem daí a expressão. Voce, desde sempre, é uma criatura especial, seu existir faz diferença para todos que o cercam. Mesmo para os desconhecidos, ou conhecidos na superfície,ou de longa data.

Cheguei de discurso clichê, mas, é isso, fique feliz.
Bjos,
Prima Mari