domingo, 20 de setembro de 2009

Complexo de gato de apartamento


Sou um crítico cáustico dos brasileiros que cercam-se de brasileiros num país estrangeiro. Ora, se você sai do Brasil e só vive o Brasil no exterior, então qual é o objetivo da partida? Digo isso como estudante, lógico, e não como imigrante. A diferença básica dos dois é que, para o primeiro, o adeus tem prazo de validade.

O imigrante deixa sua terra com um sopro fustigado de esperança. Como se avançasse numa colonização reversa, num processo de contra-desbravamento. É normal que procure conterrâneos com as mesmas experiências, visões de mundo, sobressaltos e nostalgias.

Ainda assim, não entendo o porquê de brasileiros criarem guetos. A má fama no estrangeiro vem um pouco daí. Somos um povo cordial, mas também demasiadamente orgulhoso da auto-suficiência, da auto-preservação. O complexo de vira-latas moldou-se num complexo de gato de apartamento.

Mas há o contraponto. Sempre há. E pelo menos em Lisboa é assim: os nativos são fechados, o que faz ser difícil entrar no cotidiano deles. Tenho amigos portugueses da faculdade e do trabalho, mas quando não é a distância física que nos separa é a distância cultural e/ou emocional.

Gosto da mistura, da diversidade de ingredientes. Meu namoro com a Vera, uma alfacinha autêntica (quem é da terceira geração nascida em Lisboa), ensinou-me muito sobre a capital e o país – nenhum livro de História, passeio turístico ou Wikipédia seria capaz de tanto. Essa imersão é fundamental.

Então inquieta-me, hoje, se não oiço o sotaque europeu à volta nos momentos de folga, se não aprendo como é em Portugal e não partilho como é no Brasil. Mas já entendo melhor que, muitas vezes, cercar-se com a mesma nacionalidade é menos uma opção e mais uma necessidade. Infelizmente.

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