segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Um eu te amo silencioso


Sou urgente. Nunca escondi. Sou um impulsivo nato, um ariano autêntico. Mas tenho lá as razões de ser. E algumas vezes até rendem bem. Era assim quando pequeno. Depois fiquei contido demais, fechado. Passei por tantas. Já disse eu te amos, já calei-me. Sorri e sofri.

É mesmo o que acontece com todo mundo. Temos nossa história própria e intransferível. Torna-se, pois, impossível desviar-se do clichê para comentar o telefonema que recebi esta tarde. Só ao perder alguém – ou na sua iminência – é que a valorizamos, a percebemos.

Num sonho tranquilo, há cerca de dois anos, ouvi do avô vivo de dois amigos: "A vida é presença e histórias". Essa frase virou meu mantra e apaziguou a inquietação perante o sentido de tudo. Mas o efeito colateral foi me tornar urgente, querer viver todas as vidas na minha vida – às vezes de forma egocêntrica, egoísta.

Foquei-me nos contos que coleciono, sempre certo de que a presença é questão de tempo. Mas o destino veio mostrar que deve-se valorizar tudo na mesma proporção, equilibrar a balança com sabedoria. A tantos quilômetros, agradeço com todas as forças que nada de grande te aconteceu.

Agradeço porque eu não sei o que seria de mim. Se soube dizer poucos eu te amos ao vivo foi porque tinha uma espécie de vergonha tola, que com o passar dos anos a gente perde. (Eu bem alertei que era impossível fugir ao clichê – afinal, não existe clichê maior que o próprio amor.)

Às vezes me sobe um medo enorme do súbito. E não vou dizer que seja algo que dê de ombros ou tire de letra. Apavora-me a ideia de estar tão longe, de apenas conferir à distância o ritmo daí. Desde que o mundo é mundo, é assim: o homem abdica para seguir. E segue para abdicar...

O silêncio, aprendo, pode construir. É modo
denso/tenso
— de coexistir
Calar, às vezes,
é fina forma de amar.
(Affonso Romano de Sant'Anna)

Um comentário:

Andréa disse...

Oi Gustavo!
É... hoje você "acabou" comigo.
Tomei um tapa com luvas de pelica com suas palavras que, claro, não eram para mim.
Mas vieram, em plena contramão, ao meu encontro.
Foi fatal.
Poxa, mas também tinha logo que arrematar seu texto com aquele trecho? rs...
beijos,
Andréa