domingo, 9 de agosto de 2009

O meu texto de outro

Infelizmente não posso assinar n’O Jogo. Regras do estágio. Aqui, tal qual no Brasil, essa determinação varia de veículo para veículo. O jornalismo só muda de endereço. Então com receio de que o sindicato perturbe a empresa, a cúpula preferiu eliminar o meu nome das matérias.

Tudo bem. Portugal não terá registrado oficialmente em seus arquivos históricos a minha humilde contribuição. E eles perdem com isso – num acesso meu de megalomania. Como não se pode ter uma peça sem assinatura, as coisas que escrevo (pasmem!) levam o nome de outro...

É isso mesmo. A derradeira e cruel verdade. Quem escreve sabe: a gente acaba por criar uma relação cúmplice com as palavras que lá estão. Tanto que, às vezes, no jornalismo, é difícil entender o porquê de uma expressão trocada, um termo cortado, uma linha modificada pelo editor. Ainda que o novo "encaixe" soe melhor ao todo.

Porém, a escrita raramente é, para mim, um processo fluido. Também não significa que seja um processo ruim e penoso. Estar diante do texto é um pouco como estar em frente ao espelho, e meu perfeccionismo torna-se simbiótico. Acredito que exista sempre uma palavra exata para descrever o que se quer descrever (e demorei a "pescar" simbiótico, entre mímicas e caretas que faço em busca do termo ideal).

Por isso é nauseante ver o nome de um qualquer numa criação que é minha. E se achei, por uns instantes, que não importava nem um pouco com isso, estar diante do texto-espelho de identidade estranha mostrou-me absolutamente o contrário. Antes a ausência do meu nome que a história eternizar aquelas linhas como sendo de outro.

Um comentário:

Andréa disse...

Oi Gustavo!!
É verdade: nada mais desagradável do que alguém substituir um termo, ou modificar um trecho daquilo que escrevemos (e geralmente escrevemos com a alma...).
Mas logo que vi a matéria imaginei exatamente isso. Porém, como você mesmo colocou, "antes a ausência do seu nome que a história eternizar aquelas linhas como sendo de outro".
Não importa. Ainda sou sua fã.

Bj,
Andréa