segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Sevilha, 47º C

O tempo das coisas. O tempo. Das coisas. Sou fascinado pelo tempo. Sou fascinado por esse encantamento nas horas que passam e nos contos que colecionamos. Sou, às vezes, urgente. Mas antes ser urgente que ser parado.

Já fui parado. Já quis simplesmente que o tempo passasse, sem que eu o desfrutasse. Mas hoje sou presente em meu agora e usufruo das coisas com a força do momento – aprendi a abrir meus poros para a existência.

E tenho aprendido muito mais nesta jornada, um pouco solitária, um pouco acompanhada. (Porém confesso que ainda inquieta-me achar que não absorvo tudo, efetivamente e do jeito “correto”.)

Enquanto a convicção titubeia, estimulo pontos distintos da minha alma, como se ela fosse uma experiência rara – e eu uma espécie de cientista louco. As viagens ajudam no processo. E estes dias estive na Espanha e sul de Portugal.

Viajar ativa essa falta de reconhecimento próprio. Atravessar paisagens estranhas é remexer vazios estranhos dentro de nós. Como se descobríssemos estantes empoeiradas e gavetas abarrotadas de novidades. Vou aliviá-los dessa parte íntima e ater-me aos importantes supérfluos.

Estive em Sevilha com quatro ótimos amigos. Enfrentamos uma temperatura além dos 45º C no sábado. Isso às 19h, ainda com sol a pino! Nem na sombra o calor aliviou. Diziam que a cidade espanhola era caliente, mas superou tudo que alguma vez imaginei.

É um lugar agradabilíssimo. Boa comida, ambiente delicioso e pessoas simpáticas. Amanhã conto mais. Também sobre a passagem no Algarve e no Alentejo, já em território português. O passeio foi rápido, contudo “o valor das coisas não está no tempo que duram, mas na intensidade com que acontecem” (Fernado Pessoa).

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Legen... wait for it... dary!

Hoje, oficialmente, inicio a minha jornada de viagens pela Europa. É o primeiro dia do resto da minha vida, então tenho de começar de uma maneira... digamos... (vejam o vídeo abaixo)

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Se eu pudesse...

Esta semana eu fui absorvido pela desmotivação. Há até um ar apocalíptico nos meus últimos posts. Eu diria que fui tomado por um caos calmo – para pegar emprestada uma expressão que li e gostei.

Tudo isso vai virar poeira amanhã. É que estou cansado, venho levantando às 6h, trabalhando de 7h às 15h sem pausa, num ofício burocrático e nada criativo. Sinto falta de construir, em vez de reproduzir; de contribuir para o mundo com uma coisa minha, só minha.

Amanhã vou em direção a Sevilha com os amigos. Na volta desbravamos o Sul de Portugal. Alugamos um carro para nos aventurarmos pela estrada, rumo a Espanha. É tudo o que me completa nesta vida de, algumas vezes, certo tédio. Poder deixar a mesmice para trás é a busca eterna dentro de mim.

Mas tem uma mesmice que sou capaz viver: a da amizade. Por isso, ando cada vez mais convicto de que meu caminho de volta terá como destino Florianópolis, a Ilha da Magia. É uma espécie de saudosismo, mas também de conforto emocional. Não sei bem, sei apenas que queria juntar a mim mais umas 15 pessoas queridas e tê-las sempre por perto.

Se eu pudesse...

***

Deixo-os com Fernando Pessoa, numa passagem do Livro do Desassossego. Encontrei-a ontem e, conforme tenho me sentido, veio a calhar. Magistral...

Há dias em que sobe em mim, como que da terra alheia à cabeça própria, um tédio, uma mágoa, uma angústia de viver que só me não parece insuportável porque de fato a suporto. E um estrangulamento da vida em mim mesmo, um desejo de ser outra pessoa em todos os poros, uma breve notícia do fim.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A lenda italiana

Ele tornou-se um mito em sua cidade e, cá entre nós, é mais que justo. Falo do Alessandro, amigo italiano que superou todos os obstáculos, a começar pelo da possível “vitimização”, e conseguiu efetivar-se como piloto da TAP. Ontem ele finalizou o treinamento – após 5 meses de curso intensivo, além de 60 dias de exames, idas e vindas à Itália.

A relembrar: o ragazzo foi demitido da Alitalia em dezembro, junto de 799 colegas. Descobriu por acaso o concurso da companhia aérea portuguesa e, desde o início, enfrentou burocracias e mais burocracias. Enfrentou também um colega sacana, que lhe quis puxar o tapete, a dificuldade inicial de perceber o idioma, a avaliação minuciosa de seu currículo, os testes de português e inglês, as provas médicas e psicotécnicas, os simuladores num avião que nunca havia pilotado (apesar de 4 mil horas/voo) e muita, muita pressão e cansaço.

Superou a primeira etapa, foi ganhando posições e terminou como o melhor piloto de 200 e tantos inscritos. Um feito brilhante, ainda mais se contar as adversidades todas e os preconceitos que encarou por ser estrangeiro e ter sotaque brasileiro. Incrível!

Ao Alex, amigo de oito anos, eu só tenho de parabenizar e felicitar. Acompanhei de perto a saga e tenho orgulho da sua força de vontade e da motivação constante. O gajo é uma lenda na Itália, massacrada pela crise, e uma referência para nós, massacrados pelo medo de arriscar.

Existem grandes e verdadeiros heróis bem ao nosso lado. Tu és um deles, maluco!

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Há um certo ceticismo


Eu faço e desfaço. Traço e disfarço planos. Meço meus passos, jogo-me no precipício sem qualquer laço. É que mudo tanto ao longo de um dia que já não sei ao certo quem sou.

Tem horas que quero o mundo. No segundo seguinte, quero me aquietar. Flerto com infindáveis jornadas, enamoro simplicidades estóicas. Parece que deixei o meio-termo em algum caminho pra trás...

Ontem pousei a cabeça no travesseiro e toquei a pensar no futuro. Demorei uns bons minutos antes de apagar por completo – e despertar às 4h, com sede de água e de respostas. Para onde, afinal, eu me guio?

Existem convicções tão arraigadas que, às vezes, é difícil defendê-las. Ou defender-me delas. Existe uma necessidade de viver, abraçar o tempo, recriar a rotina que choca-se aos preceitos tradicionais do emprego, casa, família. E confesso que ando com o corpo cansado de estar sempre a provar algo – ainda que seja pra mim.

Mas não deixo de carregar um orgulho puro, a força que se forma internamente para sustentar as fases árduas, de solidão dilacerante. Em terra estrangeira a gente descobre que pouquíssimas pessoas importam-se contigo como aquelas que partilharam o seu crescimento.

Então aprendemos a ser individuais sem egoísmo, saudosos sem fantasiar, a pensar com a emoção e sentir com o pensamento... sem ter muita ideia no que isso vai ser útil. Acho que estou cético.

sábado, 22 de agosto de 2009

Será o fim?


Quando pequeno eu tinha umas maluquices. Tudo bem, você pensou: “Quando pequeno?!”. Eu tenho mesmo umas maluquices ainda hoje. Mas quando pequeno eu não gostava de pizza, por exemplo. Dá pra entender isso? Era por causa do queijo ou sei lá o que... dava-me ânsia de vômito.

Mas eu também tinha uns medos estranhos. Não sei porque cargas d’água meti na cabeça que o mundo podia acabar a qualquer momento. Tinha certo receio de uma chuva mais forte ou de ouvir o noticiário anunciar alguma guerra. Tinha medo de não viver, de morrer, de perder a passagem.

Ah! Ainda cheguei a crer no fim do futebol. Na sua extinção. E isso dava-me uma apreensão estúpida. Os jogadores humanos seriam substituídos por robôs, então não poderia realizar o sonho de ser boleiro. Hoje, nem uma coisa aconteceu nem outra. E pelo que sei, também, o mundo continua por aqui.

Contudo... as previsões não são as melhores. Nada de crise financeira ou gripe A. Dizem nos corredores do planeta que 2012 é o ano derradeiro. Lá pelo 21 de dezembro o que a gente conhece como vida será extinguida. Ou, na melhor das hipóteses previstas, o dia marcará o início do fim. Tchan-tchan-tchan-tchan!

Sim, ando com tempo livre pra focar-me nestas teorias de... Nostradamus! O sujeito era expert em prever coisas. Se calhar, antecipou até os resultados do campeonato rondonense de lambada, categoria até 35 anos, de 1991. Numa de suas famosas quadras, sugeriu o apocalipse para 21 de dezembro de 2012.

O argumento tem fundamento. Neste dia ocorre o alinhamento da galáxia, 26 mil anos após o último. Além disso, será registrado o derretimento total do Pólo Norte. Neste site tem mais informações precisas.

Por via das dúvidas, vou viver tudo o que eu puder. Se sobreviver, toco os planos da carreira, família e casa. Tenho o pressentimento que 2013 será um ano e tanto!

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Eu twitto, tu twittas...

Essa tal tecnologia é uma coisa mesmo muito moderna. Estive a enamorar o Twitter. Li, pesquisei, procurei saber, descobri o telefone, enviei flores e, finalmente, resolvi tomar uma atitude. Hoje me inscrevi na rede social. Ou seja lá qual for a definição daquilo ali.

Parece mais uma masturbação de ego, à imagem e semelhança do Orkut, Facebook e Hi5. Mas como a televisão (ahn?), trata-se de uma ferramenta que há de ser avaliada em "como" se utiliza e não "o que" é.

É um mecanismo com potencial para informar e aproximar, entreter e ocupar. Depende lá o modo que isso vai ser realizado. Ou então será somente mais um meio catártico (e patético?) de busca da individualidade (do individualismo?) pícara. Eu ainda estou cético, no processo tácito de conquista.

Até sábado.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Fabuloso mundo digital

Quer brincar de visitar Lisboa? Então siga estes passos:

- No search, coloque Lisboa
- Clique (e segure) no bonequinho amarelo à esquerda do mapa
- Arraste-o até uma área azul da cidade
- Divirta-se à beça em conhecer as ruas lisboetas!

Este é o prédio onde morei de janeiro a julho (pode mexer na imagem).

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Poderoso alucinógeno


Nos últimos tempos, nos últimos textos, a palavra mais utilizada neste espaço foi saudade. De fato, sinto muita. E tenho experimentado diversos tipos, distintos sabores, variadas sensações. A saudade é um alucinógeno dos mais poderosos. É como fome: só se sacia quando come.

E se pensam que é saudade apenas do que ficou no Brasil, enganam-se. De lá, tenho enorme. Mas convivo com a saudade até do que está ao meu redor. Já penso no que não me pertence, que um dia direi adeus à paisagem que tornou-se minha também.

Por mais distante que uma terra estrangeira se faça no cotidiano – sim, é distante –, há qualquer coisa como grãos de areia que grudam-se em nós e os transportamos sem notar. Além de deixarmos pegadas...

Levo daqui a beleza de histórias simples e eternas. Mas, hoje, ainda pouco se reconhece essa força. Momentos que formarão fantasias; fantasias que revelarão contos; contos que contruíram caráteres. É para cada um que batizou minha trajetória que escrevo de coração aberto. E digo obrigado. A saudade é a cama.

Existe intensidade demais dentro de mim e a escrita acaricia o meu peito. Durmo poucas horas porque já consigo despistar o sono. Eu sonho, na verdade, acordado. E tenho saudade de dormir abraçado com a saudade.

domingo, 16 de agosto de 2009

Sou um fingidor


Muitas vezes finjo. Finjo aqui, enquanto caminho na rua, que as coisas estão em ordem. E quando saio à noite, finjo. Visto a roupa do personagem ideal e finjo segurança e serenidade. No metro, enquanto dirijo-me à praia, carrego um ar de fingimento explícito e ululante.

Eu finjo mais que muitas vezes. E finjo tão bem na escrita que chego a me enganar. Porque eu ainda sou um garoto assustado e medroso, que tem receio de magoar os outros. Receio maior de frustrar. Por isso finjo tão bem quanto poderia fingir.

No fim das contas, não passo de um conto. Uma versão criada por mim para servir-me. Às minhas andanças, estufo o peito com coragem avassaladora – e relato banalidades como se fossem épicos. Finjo tão bem que já não sei quando estou a fingir.

Também não sou tão canalha. A alegria é verdadeira. Aliás, mais que verdadeira, é o refúgio. Só não finjo quando rio e faço rir. Então procuro cada vez mais me esconder na diversão da boa piada, nas tiradas inteligentes, no escorregar ao assunto sério. Mas será isso, naturalmente, um fingimento?

Já pouco sei. E se tinha a intenção de me despir neste desabafo, passei longe do objetivo. Talvez porque eu devesse ser direto: dizer que sinto falta da família e dos amigos, mas sinto imensa falta de uma mulher ao meu lado. E logo eu, que repito – e insisto – não querer ninguém. (Já bastou o que de melhor e pior aconteceu para mim em Portugal.)

Há quem venha argumentar que tudo é no seu tempo, que no momento certo ela aparecerá, que ainda preciso evoluir nisso e naquilo. Tudo bem, vamos dizer que esses clichês de auto-ajuda estejam corretos. Apenas me sobra fingir que acredito. E seguir nas perguntas sem ter as respostas.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O romântico

É engraçado e estranho encarar, de novo, a solidão. Eu tenho ido e vindo, criado e destruído, absorvido o que o tempo me mostra, entrado pelas portas que o vento escancara, sentido a vida que lambe meu rosto, o gosto de experimentar e colecionar contos.

Mas... é simples ver-me só cheio de gente ao redor. Falta mais ou não falta nada. Parece que estou sempre a perseguir algo. O que desejo ainda não tem nome. Sou como alguém que procura incerto o objeto escondido que não sei o que é. (São frases de Lispector e Pessoa, respectivamente. Sem aspas porque não foram reproduzidas na íntegra.)

Recebi há umas semanas, de uma pessoa muito especial, a passagem abaixo. Que diz tudo o que sempre quis dizer, porém não tive a genialidade do Luis Felipe Pondé. E às vezes queria simplesmente ser alguém que conseguisse exprimir no papel as confusões que se passam na mente. Mas também queria ser Caeiro e existir... sem significar.

O romântico não é propriamente um idiota nostálgico, o romântico é um sobrevivente, sente-se como uma espécie caçada, um mutante que já nasceu num habitat hostil. Às vezes, esse tipo de ser é mais perigoso do que você, que ri tranquilo, cercado pela crença boçal de que o mundo seja seu. Os melhores entre eles aprenderam a dissimular a lágrima, mudar de assunto, fazer uma piada inteligente, fechar a porta do quarto. Quem se sabe desde o início derrotado, detém uma forma de poder invisível que o torna perigoso, justamente porque não combate pela vitória, mas sim porque sua natureza é não ter futuro.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Curtindo a vida adoidado

Bem no meio do trabalho toca uma música no mp3 e lembro dos amigos. Quase sempre ao ouvir Jack Johnson ou Beatles. E abro um sorriso de orelha a orelha. Recordo momentos. Planejo o futuro. Saber que são mesmo amigos aqueles a quem temos apreço é um grande tesouro.

Aqui o calor está de rachar. Atingiu 37ºC. Parece que o verão finalmente chegou, apesar de as minhas visitas à praia terem escasseado. Quero ver se no fim de semana desbravo outros sítios do litoral português. No fim do mês vou a Sevilla. O clima anda quente, mas meu coração permanece frio.

Saber que é tudo passageiro, conforta. A vida é movimento – ou, a parafrasear o Nando Reis: “prefiro as pernas que me movimentam”. É verdade. Eu prefiro sempre estar por aí, a sonhar e realizar sonhos. Mas cada vez sinto estar mais perto de “repousar” em Floripa. Vamos ver... ainda há muita lenha para queimar.

Tenho uma folha de caderno dedicada aos por-fazeres. Melhor: aos desejos. E são tantos. Só crescem. Também de lugares a conhecer. Incham a cada revista de viagem que folheio. Vou acumulando vontades na caixinha, junto à inquietação. Gosto de palavrar.

Às vezes acho tudo monótono. E me apetece sair sem rumo, a descobrir locais e pessoas. Tenho uma relação íntima com a pureza e esse tempo sem ponteiros. Acho que há uma linha tênue entre isso e a loucura ou a vagabundagem. Não sei, é o que me pego a pensar em alguns momentos. Será que as criações da alma são fugas da responsabilidade?

As pessoas me acham tranquilo. De fato, sou. Mas sou uma farsa. Não sei bem o que quero, qual rumo devo tomar. Apenas sinto, em muitas horas do dia, que a vida é demasiado pueril para nos atermos a certezas. Talvez não. Talvez seja eu muito pueril. (Vou beber uma cerveja gelada para curar a melancolia morna. As ações parecem sempre iguais.)

E olha, afinal, quem/o que eu sempre quis ser...

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Um eu te amo silencioso


Sou urgente. Nunca escondi. Sou um impulsivo nato, um ariano autêntico. Mas tenho lá as razões de ser. E algumas vezes até rendem bem. Era assim quando pequeno. Depois fiquei contido demais, fechado. Passei por tantas. Já disse eu te amos, já calei-me. Sorri e sofri.

É mesmo o que acontece com todo mundo. Temos nossa história própria e intransferível. Torna-se, pois, impossível desviar-se do clichê para comentar o telefonema que recebi esta tarde. Só ao perder alguém – ou na sua iminência – é que a valorizamos, a percebemos.

Num sonho tranquilo, há cerca de dois anos, ouvi do avô vivo de dois amigos: "A vida é presença e histórias". Essa frase virou meu mantra e apaziguou a inquietação perante o sentido de tudo. Mas o efeito colateral foi me tornar urgente, querer viver todas as vidas na minha vida – às vezes de forma egocêntrica, egoísta.

Foquei-me nos contos que coleciono, sempre certo de que a presença é questão de tempo. Mas o destino veio mostrar que deve-se valorizar tudo na mesma proporção, equilibrar a balança com sabedoria. A tantos quilômetros, agradeço com todas as forças que nada de grande te aconteceu.

Agradeço porque eu não sei o que seria de mim. Se soube dizer poucos eu te amos ao vivo foi porque tinha uma espécie de vergonha tola, que com o passar dos anos a gente perde. (Eu bem alertei que era impossível fugir ao clichê – afinal, não existe clichê maior que o próprio amor.)

Às vezes me sobe um medo enorme do súbito. E não vou dizer que seja algo que dê de ombros ou tire de letra. Apavora-me a ideia de estar tão longe, de apenas conferir à distância o ritmo daí. Desde que o mundo é mundo, é assim: o homem abdica para seguir. E segue para abdicar...

O silêncio, aprendo, pode construir. É modo
denso/tenso
— de coexistir
Calar, às vezes,
é fina forma de amar.
(Affonso Romano de Sant'Anna)

domingo, 9 de agosto de 2009

O meu texto de outro

Infelizmente não posso assinar n’O Jogo. Regras do estágio. Aqui, tal qual no Brasil, essa determinação varia de veículo para veículo. O jornalismo só muda de endereço. Então com receio de que o sindicato perturbe a empresa, a cúpula preferiu eliminar o meu nome das matérias.

Tudo bem. Portugal não terá registrado oficialmente em seus arquivos históricos a minha humilde contribuição. E eles perdem com isso – num acesso meu de megalomania. Como não se pode ter uma peça sem assinatura, as coisas que escrevo (pasmem!) levam o nome de outro...

É isso mesmo. A derradeira e cruel verdade. Quem escreve sabe: a gente acaba por criar uma relação cúmplice com as palavras que lá estão. Tanto que, às vezes, no jornalismo, é difícil entender o porquê de uma expressão trocada, um termo cortado, uma linha modificada pelo editor. Ainda que o novo "encaixe" soe melhor ao todo.

Porém, a escrita raramente é, para mim, um processo fluido. Também não significa que seja um processo ruim e penoso. Estar diante do texto é um pouco como estar em frente ao espelho, e meu perfeccionismo torna-se simbiótico. Acredito que exista sempre uma palavra exata para descrever o que se quer descrever (e demorei a "pescar" simbiótico, entre mímicas e caretas que faço em busca do termo ideal).

Por isso é nauseante ver o nome de um qualquer numa criação que é minha. E se achei, por uns instantes, que não importava nem um pouco com isso, estar diante do texto-espelho de identidade estranha mostrou-me absolutamente o contrário. Antes a ausência do meu nome que a história eternizar aquelas linhas como sendo de outro.

sábado, 8 de agosto de 2009

Sexo e... dormir juntos?


Por conta desta aventura atual, o desejo heróico de colecionar contos, eu ando sem tempo. Mas foi a melhor opção que podia ter. Ocupar a mente ajuda a preencher os espaços. Pelo menos por um período. Na solidão, o trabalho é a melhor terapia de sempre.

No entanto, odeio quando vou escrever uma coisa e outras me tomam. Eu disse que ando sem tempo, justo para completar que, ainda assim, consegui ir à praia na quinta. Estava de folga no estágio e saí direto do trabalho para a areia – com alguns bons minutos de deslocamento até chegar ao apreciado destino.

Correu tudo bem e como o sol põe-se apenas às 21h no verão, tive ainda a pegar um bronze, mergulhar na água e jogar frescobol. Mas piada mesmo foi uma conversa alavancada sob o calor de quase 30º C, rodeado por corpos com pouco roupa.

Estive a debater com um amigo sobre uma característica crucial de qualquer bom enlace: a intimidade. E atingimos o despretensioso conceito de que mais íntimo que o sexo é o sono depois do sexo. Afinal, pensem comigo: quem já não se pegou inquieto na cama depois de ter “esvaziado” a vontade de transar?

Desculpa os pudicos, mas é difícil que pelo menos uma vez não se tenha olhado para o lado e, com insone incômodo, perguntado: “O que faço aqui?!”. Ao desejo de dormir no próprio colchão – porque não há cama melhor que a nossa – soma-se a repentina certeza de que a tranquilidade dos sonhos vão mais à alma que a intensidade dos orgasmos.

E o papo surgiu assim, do nada, no ambiente ressonante da praia.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Primeiro de muitos

E aqui está o primeiro de muitos. Fiz o pequeno artigo à direita, sobre o Campeonato Brasileiro. Além disso, estive a produzir pequenas notas para as duas páginas e meia da edição.


segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Um texto bem apress...

Eu vou arrepender-me de um texto tão apressado e sem acabamento. Mas a felicidade é fugaz e efêmera... não posso deixá-la escapar das letras assim. (Pior que emudeci na escrita, a decidir por onde começar.)

Há dois meses mudei de emprego. E senti uma falta tremenda das pessoas conquistadas, dos amigos feitos. Sim, eu era empregado de mesa, um garçom. Se estava próximo ao jornalismo era por servir – e tomar – cafés.

Dei o passo adiante, para aliviar a carga nos joelhos e ganhar mais euros. Hoje faço clipping. Coisa que nunca tive em estágios, que é quando o estudante aprende a apalpar – no bom sentido – a notícia. Depois de quatro anos de formado é que caí nesse mundo.

Há duas ou três semanas mudei de casa. Já estava difícil de aguentar a desorganização de uma terra sem dono. Ao longo de uns anos a morar só, de uns meses a dividir apartamento com estranhos, tornei-me uma pessoa mais tolerante e maleável.

Ou isso ou você enlouquece. Às vezes é melhor tirar o corpo a pirar a cabeça. Imagine partilhar sala, cozinha e banheiro com gente que nunca se viu na vida. É por essas e outras que abandonei o antigo lugar e estou agora em um ambiente sereno, reservado.

Há algumas horas comecei a trabalhar n'O Jogo. É um diário exclusivamente esportivo, está entre os três principais de Portugal (ao lado do Record e A Bola). Fui naquela de enviar o currículo e... pronto, chamaram-me. Verdade que trata-se de um estágio sem remuneração, mas vou fazer o que sei e gosto.

Assim sendo, e tendo a noção que ainda preciso comer – é o que dizem! –, repartirei o dia ao meio. A primeira etapa vai de 6h às 15h; depois, de 15h30, 16h às 22h, 23h, talvez 24h. E estou hipnotizado, empolgado e contente demais para cansar-me. Vou mesmo encerrar por aqui...

(Pois sempre há portas que fecham para abrirem-se novas. Basta buscar.)

domingo, 2 de agosto de 2009

Sentir sem sentir


Sinto aquelas tardes preenchidas, dos segredos partilhados, olhares risonhos e gestos impossíves. Sinto-me no dia que as descobertas se descascam pouco a pouco, delicadamente. Sinto-me na noite que adentra tímida, a rasgar convenções, silenciosa como a lua nova, amarela.

Enquanto sinto, contemplo os rumos alheios e diversos; estranhos, mas tão próximos a mim. Sinto sem debruçar-me, sem arriscar-me, sem misturar a minha carne. Sinto sem sentir.

Eu tenho medo – e preciso confessá-lo. Eu me rodeio de solidões internas. Escuto a voz repetitiva da descrença e estagno na trajetória viandante. O nomadismo é o tropeço, a mudança é o ópio, o oculto é meu mundo.

Mas nada disso tem sentido. Nada disso nunca fará qualquer sentido, a não ser para mim. Porque eu carrego essa vontade, às vezes sôfrega, às vezes mágica, de penetrar corações com autêntica pureza.

Então escrevo para enganar a vontade – quando o que eu queria era nem ao menos sentir esse não-sentir.

sábado, 1 de agosto de 2009

A primeira vez


Eis a recôndita verdade, meus parcos leitores: nos tornamos uns grandes imbecis em terras estrangeiras. Uns bobos de carteirinha, daqueles de achar tudo lindo, tudo diferente, tudo especial. Por exemplo (e não me orgulho disso), hoje foi a primeira vez que vi uma barata.

Saltei-a para não espatifá-la com a sola do meu all-star. Coitada. Barata portuguesa a gente salta, tem pena e poupa da morte. Barata brasileira a gente caça até em canto de parede. E vejam só que disparate, que estupidez bovina, a que ponto cheguei para dar valor a isso.

É mesmo falta de assunto. Mas será? Justo em um dia que dispus-me a assuntar. Pois é um costume meu sair sem rumo, sem planos, sem destino. Coloco uns livros na mochila (o Pessoa sempre está lá), um bloquinho e caneta. Vou ler e escrever.

Como o clima hoje estava traiçoeiro, titubeante, fui a um centro comercial. Tomei café, li, escrevi, ouvi música, observei o movimento. Logo depois fui ao meu antigo trabalho. Visitei os amigos, ri, contei piada, atualizei-me das novidades. Então pulei para um supermercado das redondezas e abasteci a despensa.

Entre um ponto e outro, o café, a visita e as compras, a coincidência me levou sempre – ok, nem sempre – a uma linda gaja de cabelos cacheados e sandálias trançadas. Cruzamos caminhos e olhares, então surpreendi-me ao descobrir que moramos perto.

Não sou partidário da ideia de destino, isso é coisa mais da minha irmã. No entanto, melhor deixar as portas abertas e considerar qualquer possibilidade quando se vale a pena. Quem sabe não avisto, em breve, outra vez a barata?