quinta-feira, 2 de julho de 2009

Um bom papo com Nelson

— Alô?
— Olá, boa tarde. Por favor, o Nelson está?
— O Nelson? Tá sim. Tá no terreno ao lado, com a cabra vadia. Quer que eu chame?
— Se não for incomodar...

(Nééélson! Telefoooone!)

(...)

— Pois não?
— Oi Nelson. Quem fala é Gustavo, tudo bem?
— Quem?!
— Gustavo. Você não me conhece, mas sou um grande fã seu.
— Fã? Quantos anos você tem?
— 26...
— Ah, és tão novo ainda para saber essas coisas. O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: — o da imaturidade. Ele só pode ser levado a sério quando fica velho.
— Quando escreveste a sua primeira peça, o senhor tinha quase isso... Foi aos 29, não foi?
— Sim... A mulher sem pecado...
— Estou quase lá! E totalmente sem projetos e perspectivas.
— Ora, aos 26 que somos todos nós e cada um de nós? Muito pouca coisa. O jovem está sempre no dilema: — ou é um génio ou um bobo, ou um Rimbaud ou um débil mental, desses que babam. Depois é que a vida, o tempo vão retocando a nossa crassa e inepta pessoa.
— Só que a vida e o tempo estão passando...
— E tens pressa do quê? Acho a velocidade um prazer de cretinos. Eu ainda conservo o deleite dos bondes que não chegam nunca.
— Aqui em Portugal é eléctrico, Nelson. Bonde é eléctrico.
— Está em Portugal? Eu sempre senti uma ávida nostalgia assim que deixava o Rio. E o que inventa por aí?
— Vim fazer um mestrado em jornalismo, conhecer uma cultura diferente, novas formas de pensar, enquanto ainda ainda tenho disposição.
— Corajoso de sua parte. O medo costuma ser um grande e eficaz nivelador. Via de regra, só o heroísmo é afirmativo, é descarado. O herói tem sempre uma desfaçatez única. Mas a covardia, não. A covardia acusa uma vergonha convulsiva.
— Na verdade... eu só quis aproveitar o mundo, ser coerente com minha idade e o momento.
— Toda coerência é, no mínimo, suspeita.

(...)

— É... eu não sei se esta minha inquietação, essa ambição, é boa ou ruim.
— O homem não nasceu para ser grande. Um mínimo de grandeza já o desumaniza.
— Eu busco o contrário, mas é tão difícil lutar contra a insensibilidade, o caráter perecível das relações, a escassez de amor...
— Ah, realmente! Nunca a mulher foi menos amada do que em nossos dias!
— Elas também já não são como as conheceu, Nelson. Muita coisa mudou...
— Diz isso porque deve ter tido uma desilusão amorosa. Fique tranquilo porque qualquer um de nós já amou errado, já odiou errado. Mas num casal, pior que o ódio, é a falta de amor.
— Com certeza é a pior forma de solidão que há!
— A pior forma de solidão é a companhia de um paulista.
— Hahaha! Não digas isso porque tenho um grande amigo paulista. Inclusive, vai se casar daqui uns meses. Um outro grande amigo também.
— Pois alerte-os: num casamento, o importante não é a esposa, é a sogra. Uma esposa limita-se a repetir as qualidades e os defeitos da própria mãe.
— Já tinha ouvido essa. Agora, ainda sobre solidão, existe uma forma boa?
— Claro! A perfeita solidão há de ter pelo menos a presença numerosa de um amigo real.
— É... tenho me sentido mais só que se fosse vaiado por milhares de pessoas no Maracanã lotado.
— No Maracanã, vaia-se até minuto de silêncio e, se quiser acreditar, vaia-se até mulher nua. Porém não esqueça que a grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre que a grande apoteose.
— É que quando está tudo bem, raramente paramos para analisar e valorizar. Mas daqui a nada essa fase passa...
— Tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhoras que traem.
— E eu estou sempre falando nas saudades da família, na ausência dos amigos, no coração desamparado, no emprego chato e burocrático... tem sido uma prova e tanto este período. É muito fácil cair no ridículo.
— Amigo, eis a verdade: só os imbecis têm medo do ridículo.
— É... não tenho medo, mas passo por cada um. Eu preciso mesmo é retreinar meu olhar e readquirir o gosto pelo que acontece à minha volta.
— Faça isso mesmo. É um exercício importantíssimo! No dia em que a criatura humana perder a capacidade de admirar, cairá de quatro, para sempre. E o mal de todos nós, a nossa crise, a nossa doença, é o seguinte: — admiramos pouco, admiramos de menos. Em redor de nós, tudo nos convida, tudo nos induz ao espanto. E, no entanto, examine esse povo que vai passando, com algo de fluvial no seu lerdo escoamento. Ninguém admira nada, ninguém admira ninguém. Essa impotência de sentimento, esse tédio de alma, essa anestesia coletiva e alvar traduz um desinteresse vital tremendo.
— Puxa, depois dessa fiquei até sem palavras. Tenho que ir, Nelson.
— Até porque a ligação longa-distância custará uns tantos réis...
— Que nada. Uso o Voip, uma invenção transcendental!
— Há homens que, por dinheiro, são capazes até de uma boa ação.
— Não sejas tão cético, meu caro.
— Apenas creio que certas épocas são doentes mentais. Por exemplo: — a nossa.
— Gostas mesmo é de uma polêmica! Diz essas coisas para provocar!
— É o óbvio ululante...
— Um abraço, Nelson. E se cuida aí.
— Abraço e boa sorte. Afinal, sem o mínimo de sorte, o sujeito não consegue nem chupar um Chica-bon, o sujeito acaba engolindo o pauzinho do Chica-bon!
— Vira essa boca pra lá. Parece história de A vida como ela é...

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