sexta-feira, 17 de julho de 2009

Quem eu queria ser

Eu devia estar fazendo um pragmático trabalho de Gestão de Imagem, uma dessas pragmáticas cadeiras que nos deparamos em pragmáticos mestrados ministrados com certo pragmatismo acadêmico. Mas fui inventar de ter na mesa, bem ao lado do computador, um livro do Fernando Pessoa... aí já viu.

Sem inspiração – com preguiça mesmo! – para começar o fardo do dia de folga, resolvi folhear o desassossego. Como faço com alguma regularidade. E li:

Tornei-me uma figura de livro, uma vida lida. O que sinto é (sem que eu queira) sentido para se escrever que se sentiu. O que penso está logo em palavras, misturado com imagens que o desfazem, aberto em ritmos que são outra coisa qualquer. De tanto recompor-me destruí-me. De tanto pensar-me, sou já meus pensamentos mas não eu. Sondei-me e deixei cair a sonda; vivo a pensar se sou fundo ou não, sem outra sonda agora senão o olhar que me mostra, claro a negro no espelho do poço alto, meu próprio rosto que me contempla contemplá-lo.

Que isso? O gajo é muito bom! Surpreende-me sempre a sua eficácia descritiva – que me descreve, aliás. Então quando começo, não consigo parar:

Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem, são os que são absurdos – a ânsia de coisas impossíveis, precisamente porque são impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo. [...] o que fica de sentir tudo isto é com certeza um desgosto da vida e de todos os seus gestos, um cansaço antecipado dos desejos e de todos os seus modos, um desgosto anônimo de todos os sentimentos. Nestas horas de mágoa sutil, torna-se-nos impossível, até em sonho, ser amante, ser herói, ser feliz.

Ê pá... desculpa lá carregar no português europeu, mas só vestindo o sotaque dele para vibrar com esse ser que eu queria ser. Porque nenhum pragmatismo – de ação ou de emoção – me faz sentido ao ler Pessoa. A vida está muito, muito, muito além dessas falsas ocupações mundanas.

Tem-me perseguido, como um ente maligno, o destino de não poder desejar sem saber que terei que não ter. Se um momento vejo na rua um vulto núbil de rapariga, e, indiferentemente que seja, tenho um momento de supor o que seria se ele fosse meu, é sempre certo que, a dez passos do meu sonho, aquela rapariga encontra o homem que vejo que é o marido ou o amante. Um romântico faria disto uma tragédia; um estranho sentiria isto como uma comédia: eu, porém, misturo as duas coisas, pois sou romântico em mim e estranho a mim, e viro a página para outra ironia.

Uns dizem que sem esperança a vida é impossível, outros que com esperança é vazia. Para mim, que hoje não espero nem desespero, ela é um simples quadro externo, que me inclui a mim, e a que assisto como um espetáculo sem enredo, feito só para divertir os olhos – bailado sem nexo, mexer de folhas ao vento, nuvens em que a luz do sol muda de cores, arruamentos antigos, ao acaso, em pontos desconformes da cidade.

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