quarta-feira, 15 de julho de 2009

Não é quem. É quando


Eu tenho um poema. Parece pretensão começar um texto assim. Mas eu tenho um poema, que foi escrito dias antes do embarque a Portugal e fala justamente sobre o que (re)mexe comigo nove meses depois.

O poema trata de encontros e desencontros, mas não é o assunto principal. O assunto principal é o tempo. O tempo quando ele não é o mesmo para duas pessoas.

Isso é o que tem me fascinado, apesar de eu já ser um burro de carga do tema. E aqui está o poema:

Este tempo que foge pra todos
Fugiu pra gente também
Tempos distintos
Tempos aquém
De tempos em tempos
O amor vai e vem
A gente nunca sabe
Quando passa outro trem

No jogo romântico da entrega, do dar e receber, do esperar que se tenha, do ter sem espera, do cobrar e ser cobrado, do amar e não ser amado... enfim, nestas duas solidões que se abraçam e se deglutem (créditos e palmas a Drummond), o sentimento é falso protagonista.

Espera lá... nem tanto. O sentimento é daqueles protagonistas pré-definidos, a quem criam o roteiro. Mas o tempo entrou na trama também, e conquistou espaço, adquiriu importância, rouba cada vez mais a atenção.

Foi em um filme qualquer que ouvi: "Não é quem, é quando". E até pausei a película para refletir sobre o riscado. A gente está tão inserido no contexto do amor, nesse romantismo todo, que parece que a vida é uma peregrinação fluida para atingi-lo.

Estudamos, aprendemos, trabalhamos, viajamos, nos exercitamos, lemos, jogamos, comemos, nos divertimos, contemplamos, nos preocupamos... e parece que no fim das contas é o amor que esperamos bater à porta – ou à janela, talvez derrubar a estrutura com um aríete.

E eis que o tempo dita se o enlace vai ou não vai adiante. Não é o sentimento. É o tempo. Quem participa de momentos diferentes não interage. Mesmo para alguém abdicar de alguma coisa, a frequência precisa ser próxima.

"Não é quem, é quando": uma convenção que se calcifica em nós.

Um comentário:

Rafael Cury disse...

Achei tão genial que não tenho um comentário inteligente a fazer. EScrevo só para dizer que gostei. Abraço.