quarta-feira, 29 de julho de 2009

E-mail aberto a um Amigo

Olá Amigo,

Escrevo esta resposta em um parque de Lisboa, sentado na alameda, sem camisa e a ouvir Bob. Melhor que isso só se estivesses cá. Mas confesso que a escrita funciona em mim como uma aproximação, e é ao meu lado que te vejo agora.

O seu e-mail foi enternecedor. Primeiro porque sempre quis usar essa palavra. Acho-a delicadamente nobre. Segundo porque, de fato, o conteúdo mexeu comigo. Sinto uma falta do tamanho do Atlântico – falta que não é de 10 meses; arrasta-se por seis, sete anos...

Tem a raiz quando você inventou, com engenhosidade própria, aquele vestibular em Rio Grande. Organizamos a maior sequência de festas de despedida já registrada na história. Se à época buscássemos o Guiness Book, tenho certeza de que entraríamos com o recorde.

Mas dizia do adeus (breve) em meados de 2000. Voltaste logo da aventura. Então passado um ano e meio, foi a vez do P zarpar. Depois você partiu em definitivo, e trocamos o convívio por visitas esporádicas e pela ideia do reencontro em um futuro próximo. Aliás, que parece cada vez mais futuro e cada vez menos próximo.

O certo é que tenho saudade de nove anos atrás. Não dos meus 17, mas do tempo em que contávamos um com o outro com a simplicidade de poucos quilômetros de distância. Hoje são mais de 10 mil – ou 100 mil campos de futebol, para fazer aquelas comparações jornalísticas. E pensar que a certa altura achei demais os 2.027 ou os 476 quilômetros que nos separavam.

O seu e-mail ainda ecoa com firmeza. Se eu tivesse a convicção de que os nossos planos "ingênuos" se realizariam amanhã, regressava ao Brasil no fim de semana – para os festejos de adeus, pá! Sim, sou bué sentimental, com definiria um português. Mas porque com o passar do tempo a gente entende o que tem valor, o que merece "sacrifícios".

O parque, o verão, as ruas, as colinas, as experiências, os contos, as pessoas que cruzaram minha trajetória... tudo isso tem um peso infindável na jornada proposta. Só que são vocês, caramba! Ao lado do trio familiar, as pessoas mais importantes que me acompanham!

As suas saudades são e sempre serão as minhas. Em algum momento e lugar, a cerveja nos espera gelada para colocarmos a conversa em dia. Ou simplesmente para calarmos sobre os assuntos sérios e dizermos bobagens atrás de bobagens a noite inteira. Em algum momento e lugar, nos espera o terreno amplo perto da praia, a quadra de basquete, a piscina, a churrasqueira e nossos doces sonhos.

Diante de solidões dilacerantes, às vezes custa-me ter paciência. Acho que esse é grande desafio e aprendizado nas minhas andanças, a inquietação que almejo controlar, o meu pharmaco – veneno e remédio.

Quanto aos seus medos, Amigo, não os tema. Somente você pode aniquilar esses fantasmas da alma, mas deve, antes de tudo, identificá-los sem erro. Dê espaço para o sentir e não se acanhe em comunicá-lo. O que te assusta? Dedique tempo exato para ti, e lembre-se que amar é a última – e maior – das provas. Por isso mesmo a mais difícil.

Fica bem.

Abraço fraterno,
G.

Um comentário:

Vanessa Amaral disse...

Bonito isso.
Beijos,
Van.