quarta-feira, 29 de julho de 2009

E-mail aberto a um Amigo

Olá Amigo,

Escrevo esta resposta em um parque de Lisboa, sentado na alameda, sem camisa e a ouvir Bob. Melhor que isso só se estivesses cá. Mas confesso que a escrita funciona em mim como uma aproximação, e é ao meu lado que te vejo agora.

O seu e-mail foi enternecedor. Primeiro porque sempre quis usar essa palavra. Acho-a delicadamente nobre. Segundo porque, de fato, o conteúdo mexeu comigo. Sinto uma falta do tamanho do Atlântico – falta que não é de 10 meses; arrasta-se por seis, sete anos...

Tem a raiz quando você inventou, com engenhosidade própria, aquele vestibular em Rio Grande. Organizamos a maior sequência de festas de despedida já registrada na história. Se à época buscássemos o Guiness Book, tenho certeza de que entraríamos com o recorde.

Mas dizia do adeus (breve) em meados de 2000. Voltaste logo da aventura. Então passado um ano e meio, foi a vez do P zarpar. Depois você partiu em definitivo, e trocamos o convívio por visitas esporádicas e pela ideia do reencontro em um futuro próximo. Aliás, que parece cada vez mais futuro e cada vez menos próximo.

O certo é que tenho saudade de nove anos atrás. Não dos meus 17, mas do tempo em que contávamos um com o outro com a simplicidade de poucos quilômetros de distância. Hoje são mais de 10 mil – ou 100 mil campos de futebol, para fazer aquelas comparações jornalísticas. E pensar que a certa altura achei demais os 2.027 ou os 476 quilômetros que nos separavam.

O seu e-mail ainda ecoa com firmeza. Se eu tivesse a convicção de que os nossos planos "ingênuos" se realizariam amanhã, regressava ao Brasil no fim de semana – para os festejos de adeus, pá! Sim, sou bué sentimental, com definiria um português. Mas porque com o passar do tempo a gente entende o que tem valor, o que merece "sacrifícios".

O parque, o verão, as ruas, as colinas, as experiências, os contos, as pessoas que cruzaram minha trajetória... tudo isso tem um peso infindável na jornada proposta. Só que são vocês, caramba! Ao lado do trio familiar, as pessoas mais importantes que me acompanham!

As suas saudades são e sempre serão as minhas. Em algum momento e lugar, a cerveja nos espera gelada para colocarmos a conversa em dia. Ou simplesmente para calarmos sobre os assuntos sérios e dizermos bobagens atrás de bobagens a noite inteira. Em algum momento e lugar, nos espera o terreno amplo perto da praia, a quadra de basquete, a piscina, a churrasqueira e nossos doces sonhos.

Diante de solidões dilacerantes, às vezes custa-me ter paciência. Acho que esse é grande desafio e aprendizado nas minhas andanças, a inquietação que almejo controlar, o meu pharmaco – veneno e remédio.

Quanto aos seus medos, Amigo, não os tema. Somente você pode aniquilar esses fantasmas da alma, mas deve, antes de tudo, identificá-los sem erro. Dê espaço para o sentir e não se acanhe em comunicá-lo. O que te assusta? Dedique tempo exato para ti, e lembre-se que amar é a última – e maior – das provas. Por isso mesmo a mais difícil.

Fica bem.

Abraço fraterno,
G.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Para abraçar o agora

Gosto de sair mais cedo do trabalho. Propriamente porque me permito andar pela cidade-moça e cruzar com histórias alheias, inventar rostos estranhos, supor trajetos únicos. Ou apenas sento no banco do parque e ouço jazz enquanto o sol se despede do céu para a lua.

Assim, abraço o agora. Mas já há uma semana que algo, sem nome e sem forma, me inquieta. Tenho caminhado a sorrir, levando a vida de um jeito fácil – com brincadeiras e diversões, mesmo a só.

Crio cenas de filmes, escrevo roteiros mirabolantes, forneço coreografias surpreendentes a musicais silenciosos... sempre na imaginação. E serve para esquecer, por uns instantes, o vazio que me preenche. Então torno a ludibriar a melancolia justa com uma alegria ainda mais justa.

Uma amiga querida mandou esta passagem: “Para entrar no ritmo de vida, primeiro você tem que aprender a arte de se aquietar, porque quanto mais quieto você ficar, mais claramente você poderá refletir as qualidades da sua alma. Como é fácil culpar o seu ambiente, a sua situação ou as suas condições pelo estado em que você se encontra! Está mais do que na hora de parar de agir assim e entender que a culpa é somente sua. Quando você procurar e achar a paz e a quietude interiores, nada nem ninguém conseguirá perturbá-lo ou tirá-lo do eixo.”

De trilha sonora, recomendo o saxofone, o piano e a voz da Nina Simone...

sábado, 25 de julho de 2009

Seguir ou voltar?


Ela disse-me que eu era o sujeito mais nómada que conhecia. Hoje pego-me em um novo dilema: seguir ou voltar. Tenho essa incerteza presente quanto ao futuro. Porque ouvi de uma boca desconhecida que o que me faz fugir nunca me abandonará – por mais longe que eu vá.

E será mesmo que fujo? Ou será que busco? Rubem Braga já encarou esse enigma, mas não soube desvendá-lo. Prefiro crer em Rilke: "Não procure agora respostas que não lhe podem ser dadas porque ainda não as pode viver. E tudo tem de ser vivido. Viva agora as perguntas. Aos poucos, sem o notar, talvez dê por si um dia, num futuro distante, a viver dentro da resposta."

Continuar. Parar. Aos 26, as minhas andanças estão em causa. E repito a todos – a mim, mais que a todos – que ainda restam-me quatro anos para desbravar o mundo. Ao menos este mundo que se abre diante de mim, com as chances que crio. Somente uma coisa é capaz de aquietar-me: o amor sincero de uma mulher.

Talvez eu seja um sonhador – e os tempos são difíceis para os sonhadores. Talvez eu seja um romântico – e o romantismo é tão demodé. Talvez eu seja um aventureiro – e em todo aventureiro há um coração perturbado. Posso ser qualquer coisa, carregar um arquétipo, completar um grupo... nada disso me importa.

A vida é demasiada pueril para gastar com pensares e sofreres. Busco o equilíbrio exato entre os sabores e os saberes. Pois escutem: de nada adianta ter a oportunidade; é preciso mergulhar nela. Enquanto meu corpo aguentar, minha mente mantiver sã e minhas emoções não ruírem, sigo na estrada...

... à espera sem-espera que ela cruze o meu caminho.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Roda mundo, roda pião


Pode soar estranho, mas tem horas que esqueço que estou em um país estrangeiro. Não tem a ver com adaptação, imersão, rotina... ou tem a ver sim com tudo isso. Porém, simplesmente esqueço.

O idioma ajuda. Hoje já misturo portugueses a brasileiros quando o sotaque de um ou de outro não é carregado. Aliás, por falar em idioma, uma amiga sonhou em português europeu. É o que diz a sabedoria popular: isso acontece porque está bem inserido na cultura.

Eu tenho escutado muita rádio. É a melhor mídia daqui, na minha singela opinião de jornalista – mas agora todos somos jornalistas. A TV é muito quadrada; o impresso é muito arcaico. Ao lado da rádio estão as revistas.

Mas já estou escapando do que queria comentar. Ah, sim... que começo a me ambientar também com o humor. O português tem algo de escrachado, um estilo mais bonachão. Não sei bem como descrever, mas constroem umas piadas inteligentes e rápidas.

Como enfatizei ontem, ao telefone, para minha mãe: esta experiência tem sido enriquecedora. Difícil montá-la em palavras. Talvez eu até exagere, por abraçar com força demais as situações, mas é como sinto-me vivo. E, ultimamente, minha alma está receptiva.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Curiosidades lisboetas (11 - Verão)

Sabe o que notei? Que entre mortos e feridos, o Verão tem passado incólume por mim. Aliás, adoro a palavra incólume. Quando era mais novo, divertia-me com gangrena. Dizer gangrena tem lá a sua graça... e lembro que li de algum autor que o dia em que o marido ou a esposa descobrir que é cônjuge termina o casamento na mesma hora.

Bem, mas sem querer dispersar o raciocínio alheio, vamos às curiosidades número 11. Penso que possa interessar alguma viv’alma.

- Sim, as praias urbanas são cheias. Tais como as do Brasil. O povo só não tem vergonha da farofa. Levam comida e bebida sem constrangimento. Até porque, diferente do litoral tupiniquim, não há quiosques e ambulantes. Quer dizer, até tem, mas pouco.

- Vi um ou outro gajo com o esferovite a tiracolo. Desculpem, com o isopor (sim, esse palavrão esquisito significa o nosso simples isopor). Além de água e cerveja, o comerciante vendia bolas de Berlim, que nada mais é que o nosso sonho. Gordura pura na praia.

- Coisas que não podem faltar: chapéu-de-sol (guarda-sol), bola de futebol e raquetes (frescobol). Os portugueses adoram brincar com a pelota e até levam jeito para uns malabarismos. É raro ver uma pelada (ainda estou a falar de futebol, pessoal!). Já o topless é cena comum.

- Ou é nada ou é muito. Os biquinis escondem mais que devia. Se bem que tem sido tão difícil encontrar uma mulher bonita que os biquinis têm tapado o necessário. As inglesas e alemãs, então, usam quase cueca... já vi sungas menores (de homens que, digamos, não tinham lá um ar muito masculino).

- Falemos da água: gelada! E não imaginam como. Eu entro porque é incompatível comigo passar o dia na praia e não me molhar. Depois que se acostuma fica bom. Mas confesso que ou se mergulha de uma vez ou vai desistir assim que a espuma lamber o mindinho.

- Depois de matar a saudade e a vontade, começo a desbravar praias longínquas. Conheço pouquíssimo, mas já tenho minhas preferidas. É inadmissível passar um fim de semana sem pisar a areia. Sozinho ou acompanhado... importante é aproveitar o Verão – até porque daqui a pouco vem o Outono, o Inverno... brrrrr...

domingo, 19 de julho de 2009

Hey, Gu?

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Quem eu queria ser

Eu devia estar fazendo um pragmático trabalho de Gestão de Imagem, uma dessas pragmáticas cadeiras que nos deparamos em pragmáticos mestrados ministrados com certo pragmatismo acadêmico. Mas fui inventar de ter na mesa, bem ao lado do computador, um livro do Fernando Pessoa... aí já viu.

Sem inspiração – com preguiça mesmo! – para começar o fardo do dia de folga, resolvi folhear o desassossego. Como faço com alguma regularidade. E li:

Tornei-me uma figura de livro, uma vida lida. O que sinto é (sem que eu queira) sentido para se escrever que se sentiu. O que penso está logo em palavras, misturado com imagens que o desfazem, aberto em ritmos que são outra coisa qualquer. De tanto recompor-me destruí-me. De tanto pensar-me, sou já meus pensamentos mas não eu. Sondei-me e deixei cair a sonda; vivo a pensar se sou fundo ou não, sem outra sonda agora senão o olhar que me mostra, claro a negro no espelho do poço alto, meu próprio rosto que me contempla contemplá-lo.

Que isso? O gajo é muito bom! Surpreende-me sempre a sua eficácia descritiva – que me descreve, aliás. Então quando começo, não consigo parar:

Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem, são os que são absurdos – a ânsia de coisas impossíveis, precisamente porque são impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo. [...] o que fica de sentir tudo isto é com certeza um desgosto da vida e de todos os seus gestos, um cansaço antecipado dos desejos e de todos os seus modos, um desgosto anônimo de todos os sentimentos. Nestas horas de mágoa sutil, torna-se-nos impossível, até em sonho, ser amante, ser herói, ser feliz.

Ê pá... desculpa lá carregar no português europeu, mas só vestindo o sotaque dele para vibrar com esse ser que eu queria ser. Porque nenhum pragmatismo – de ação ou de emoção – me faz sentido ao ler Pessoa. A vida está muito, muito, muito além dessas falsas ocupações mundanas.

Tem-me perseguido, como um ente maligno, o destino de não poder desejar sem saber que terei que não ter. Se um momento vejo na rua um vulto núbil de rapariga, e, indiferentemente que seja, tenho um momento de supor o que seria se ele fosse meu, é sempre certo que, a dez passos do meu sonho, aquela rapariga encontra o homem que vejo que é o marido ou o amante. Um romântico faria disto uma tragédia; um estranho sentiria isto como uma comédia: eu, porém, misturo as duas coisas, pois sou romântico em mim e estranho a mim, e viro a página para outra ironia.

Uns dizem que sem esperança a vida é impossível, outros que com esperança é vazia. Para mim, que hoje não espero nem desespero, ela é um simples quadro externo, que me inclui a mim, e a que assisto como um espetáculo sem enredo, feito só para divertir os olhos – bailado sem nexo, mexer de folhas ao vento, nuvens em que a luz do sol muda de cores, arruamentos antigos, ao acaso, em pontos desconformes da cidade.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Jorge Palma, Belém, quarta-feira

Aos poucos, reaprendo a estar só. É um dos efeitos colaterais da liberdade. E dos mais impactantes – vez ou outra, nos vemos sem ninguém ao lado para partilhar uma descoberta, um sorriso, uma melancolia, uma bobagem, uma seriedade.

Não tenho receio de gastar o tempo comigo ou de enamorar a solidão. Aprecio o vazio. Mas estar sempre só nunca é bom. Ontem tive um daqueles instantes de desconforto visceral, e não foi dor de barriga. Apenas um show assistido sem companhia.

Tudo bem que centenas de pessoas prestigiavam o Jorge Palma e seus convidados. Tudo bem que o palco armado era em frente à Torre de Belém, quase a navegar pelo Tejo – de fato, um lindo cartão-postal de Lisboa. Ainda assim, havia alguma coisa ali que me deixou taciturno.

Por conta das minhas andanças, abdiquei de uma riqueza suprema: a cumplicidade. Do olhar que é porto seguro, que é ligação íntima com o passado, que só alguém que te conhece realmente consegue dar. Como o amor incondicional e incontestável dos pais e da irmã, sempre a superar problemas e dividir belezas.

Renunciei à presença apaziguadora dos amigos. Do Diogo, que conheço há 21 anos. Do Matheus, que é irmão de alma. Do Paulista, meu sábio guru. Do Felipe, engraçado e inteligente. Da Ci e da Boo, a dupla dinâmica. Da Jana e da Taty, mais que colegas: parceiras de boas histórias. Do Gruba, com seus 1,90m de pura bondade.

E quando o JP tocou a música portuguesa que mais gosto (veja abaixo), lembrei de todos esses cúmplices de duas décadas, aos quais desencostei-me. O coração ficou pequeno e frágil porque só queria fazer da letra, a realidade. Ninguém há de cravar a importância que tem de inventar com uma pessoa estimada o que ainda não se viveu.

(Enquanto isso, experiencio a quietude e tento aprender novamente com os diversos tipos de silêncio.)

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Não é quem. É quando


Eu tenho um poema. Parece pretensão começar um texto assim. Mas eu tenho um poema, que foi escrito dias antes do embarque a Portugal e fala justamente sobre o que (re)mexe comigo nove meses depois.

O poema trata de encontros e desencontros, mas não é o assunto principal. O assunto principal é o tempo. O tempo quando ele não é o mesmo para duas pessoas.

Isso é o que tem me fascinado, apesar de eu já ser um burro de carga do tema. E aqui está o poema:

Este tempo que foge pra todos
Fugiu pra gente também
Tempos distintos
Tempos aquém
De tempos em tempos
O amor vai e vem
A gente nunca sabe
Quando passa outro trem

No jogo romântico da entrega, do dar e receber, do esperar que se tenha, do ter sem espera, do cobrar e ser cobrado, do amar e não ser amado... enfim, nestas duas solidões que se abraçam e se deglutem (créditos e palmas a Drummond), o sentimento é falso protagonista.

Espera lá... nem tanto. O sentimento é daqueles protagonistas pré-definidos, a quem criam o roteiro. Mas o tempo entrou na trama também, e conquistou espaço, adquiriu importância, rouba cada vez mais a atenção.

Foi em um filme qualquer que ouvi: "Não é quem, é quando". E até pausei a película para refletir sobre o riscado. A gente está tão inserido no contexto do amor, nesse romantismo todo, que parece que a vida é uma peregrinação fluida para atingi-lo.

Estudamos, aprendemos, trabalhamos, viajamos, nos exercitamos, lemos, jogamos, comemos, nos divertimos, contemplamos, nos preocupamos... e parece que no fim das contas é o amor que esperamos bater à porta – ou à janela, talvez derrubar a estrutura com um aríete.

E eis que o tempo dita se o enlace vai ou não vai adiante. Não é o sentimento. É o tempo. Quem participa de momentos diferentes não interage. Mesmo para alguém abdicar de alguma coisa, a frequência precisa ser próxima.

"Não é quem, é quando": uma convenção que se calcifica em nós.

domingo, 12 de julho de 2009

Não se contentar


O mal da inquietação é não se contentar com um relato. O inquieto quer presenciar, quer estar lá, quer ver com os próprios olhos. Porque escutar aguça os sentidos, mas não sacia o desejo de experimentar.

Por que digo tudo isso? Porque três amigos estiveram em Barcelona na última semana – e já viram onde vou chegar. Voltaram com um monte de histórias, com diversas impressões, com enredos que chegam a ser uma tortura para mim. Tenho a alma viajante, e ouvi-los atiçou-a.

Desde então reviro-me em devaneios catalães. Estaria satisfeito com uns dias, umas semanas na cidade... mas como diria Paulinho Moska: “o muito pra mim é tão pouco”. E tracei planos de um, dois, três meses por lá.

Planos um bocado ambiciosos e distantes da lógica. Bem distantes mesmo! Pois dizem que é difícil conseguir trabalho sendo estudante. Pior: um estudante de fora da União Europeia. Além disso, não domino o castelhano. Muito menos o catalão – sou um completo analfabeto no idioma.

No entanto, as realizações têm de nascer de algum lugar. Quer seja de uma simples vontade, quer seja da mais altiva inquietação; venha das certezas de sempre ou das dúvidas de momento. Porque a vida são os contos que a gente coleciona – e a presença de quem se gosta.

Daí quando pedirem um relato meu, de Lisboa, Barcelona, Florianópolis, Brasília ou qualquer outro canto que tiver a chance de absorver, darei com prazer. Mas completarei com ênfase: não se contentem. Inquietem-se! Afinal, isso é a vida.

sábado, 11 de julho de 2009

A ernestar...

Planos? Tenho vários. Se vou ou não concretizá-los, aí são outros quinhentos. Mas nada impede de traçar objetivos, riscar vontades no papel, sonhar de olhos bem abertos. E, ultimamente, eu ando a ernestar.

Ernestar vem de Ernesto. Para ser específico: de Ernesto Constantino Nhanale, um desses sujeitos raríssimos, que só nascem de mil em mil anos. Conheci-o na faculdade, pelo mestrado de Jornalismo, e tornou-se um amigo. Um amigo e tanto.

Nas mãos de brasileiros sacanas (em especial este que vos escreve) e portugueses brincalhões, o gajo moçambicano virou ícone da nossa turma... e quiçá da Universidade Nova de Lisboa. O sucesso foi em tamanha dimensão que o homenageamos com um verbo.

Um dos hábitos de Mestre Tito é desenvolver planos mentais. Quando chegou a Portugal, ele já tinha tudo bem definido: o que fazer, quando fazer e como fazer. Um espanto!

O percurso sofreu percalços, mas nosso herói manteve-se fiel às ideias. Escorregou aqui, remodelou ali, inventou-se novamente. Sempre com grandes definições na mira. E isso é ernestar.

A esse exemplo do sábio de Maputo, criei uma lista virtual onde arrumei a minha vida até agosto... de 2010! Quer dizer, há nesse intervalo de 360 e poucos dias muita coisa a rolar: troca de casa, mudança de cidade, jornadas de fim de semana, dois meses e meio no Brasil, tese, trabalho, renovação de visto.

Mas melhor que arquitetar planos é colocá-los em prática. E vou além: melhor mesmo, bem superior a isso, é deparar-se com o imprevisível – tudo muda em segundos.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Existir!


O mundo continua a girar, e me dei conta como tudo é passageiro demais para a gente se importar. Nada – nada mesmo! – é definitivo. Troco o ponto final por reticências, vírgulas, interrogações. Justamente por saber que vitórias e derrotas são inventos do homem.

Como perdi de vista uma lição tão fundamental? Aos poucos, retomo o valor da calma, a leveza do alinhamento, a nobreza da sensibilidade. E caminho novamente seguro de meus passos, com um sorriso contemplativo que não se mostra e a plena convicção da incerteza.

Coleciono contos (mais nada) e divido com quem me toca (numa troca). Então, timidamente, redefino o destino sem medo de deixar-me levar. O estar é temporário. A dor é combustível. A coragem é descoberta.

A cada badalada, (re)aproximo-me do maior bem da vida. Que é existir.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Os medos entranhados


Afinal, eu tenho medo da rejeição. Há quem tenha medo de ser aceito. E qual é o seu medo mais entranhado? – alguma vez já pensaste nisso?

Pode dizer que seja o de ficar, pois já conheci vários com medo de partir. Medo da proteção existem muitos. Da insegurança, tantos outros. Há o medo da luz e a escuridão que mete medo, o medo do calor e do frio.

Medo de se mostrar ou de se esconder. Tantos medos à mercê. Sei de gente com medo dos olás e gente com medo dos adeuses. Medo do muito, medo do pouco, medo da entrega, medo da carência, medo de si, medo do outro.

Trombei com quem a solidão traga medo. Mas também com quem sinta medo da liberdade. Já confessaram-me medo da mentira, medo da verdade; da presença e da saudade. Eu tenho medo da frieza, e não da simpatia.

Há medo pra certeza e medo pra dúvida. Medo pra tempestade e pra calmaria. Medo até da democracia, vejam só. Medo da renúncia. Medos que vão da mudança à mesmice, do silêncio ao estardalhaço, do distante ao próximo. Tem medo para se dar e vender – e há quem tenha medo de doar, enquanto outros têm de receber.

Já vi medo de chorar e medo de rir. Medo do tempo e tempo de sobra para se ter medo. Medo da teoria, medo da prática. Medo do ridículo é imbecil, diria Nelson. E do possível, que tipo de medo ele definiria? Andam a ter medo do eterno, mas eu tenho medo é do perecível.

O que não tenho é medo de arriscar. Medo da omissão, sim. E acompanha, por aí, o medo do acerto, além do medo clássico do erro crasso. O medo de ir fundo, de manter-se no raso. Medo do junto e do separado, do lógico e do mágico. Até medo de cachorro e de gato.

E os medos repetem-se, sem darmos conta. Medos que impedem conhecer algo maior – dentro e fora de nós. Medo do abismo do desconhecido, do chão firme do desbravado. Medo de parar de fingir autossuficiência, de tocar nos mais íntimos medos da gente.

Um medo banal de alongar-me demais no texto e ninguém chegar ao fim. Fim que é sempre o início de um novo caminho – e isso dá um medo.


Ps.: Obrigado a todos que se manifestaram nestes dias de pausa necessária. Essa demonstração de carinho motivou-me mais que imaginam. Antes de qualquer coisa, escrever é decifrar-me (e vocês me ajudam na jornada).

sexta-feira, 3 de julho de 2009

*Pausa*

Este blogue tem perdido um pouco o sentido de ser. Por isso, uma pausa.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Um bom papo com Nelson

— Alô?
— Olá, boa tarde. Por favor, o Nelson está?
— O Nelson? Tá sim. Tá no terreno ao lado, com a cabra vadia. Quer que eu chame?
— Se não for incomodar...

(Nééélson! Telefoooone!)

(...)

— Pois não?
— Oi Nelson. Quem fala é Gustavo, tudo bem?
— Quem?!
— Gustavo. Você não me conhece, mas sou um grande fã seu.
— Fã? Quantos anos você tem?
— 26...
— Ah, és tão novo ainda para saber essas coisas. O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: — o da imaturidade. Ele só pode ser levado a sério quando fica velho.
— Quando escreveste a sua primeira peça, o senhor tinha quase isso... Foi aos 29, não foi?
— Sim... A mulher sem pecado...
— Estou quase lá! E totalmente sem projetos e perspectivas.
— Ora, aos 26 que somos todos nós e cada um de nós? Muito pouca coisa. O jovem está sempre no dilema: — ou é um génio ou um bobo, ou um Rimbaud ou um débil mental, desses que babam. Depois é que a vida, o tempo vão retocando a nossa crassa e inepta pessoa.
— Só que a vida e o tempo estão passando...
— E tens pressa do quê? Acho a velocidade um prazer de cretinos. Eu ainda conservo o deleite dos bondes que não chegam nunca.
— Aqui em Portugal é eléctrico, Nelson. Bonde é eléctrico.
— Está em Portugal? Eu sempre senti uma ávida nostalgia assim que deixava o Rio. E o que inventa por aí?
— Vim fazer um mestrado em jornalismo, conhecer uma cultura diferente, novas formas de pensar, enquanto ainda ainda tenho disposição.
— Corajoso de sua parte. O medo costuma ser um grande e eficaz nivelador. Via de regra, só o heroísmo é afirmativo, é descarado. O herói tem sempre uma desfaçatez única. Mas a covardia, não. A covardia acusa uma vergonha convulsiva.
— Na verdade... eu só quis aproveitar o mundo, ser coerente com minha idade e o momento.
— Toda coerência é, no mínimo, suspeita.

(...)

— É... eu não sei se esta minha inquietação, essa ambição, é boa ou ruim.
— O homem não nasceu para ser grande. Um mínimo de grandeza já o desumaniza.
— Eu busco o contrário, mas é tão difícil lutar contra a insensibilidade, o caráter perecível das relações, a escassez de amor...
— Ah, realmente! Nunca a mulher foi menos amada do que em nossos dias!
— Elas também já não são como as conheceu, Nelson. Muita coisa mudou...
— Diz isso porque deve ter tido uma desilusão amorosa. Fique tranquilo porque qualquer um de nós já amou errado, já odiou errado. Mas num casal, pior que o ódio, é a falta de amor.
— Com certeza é a pior forma de solidão que há!
— A pior forma de solidão é a companhia de um paulista.
— Hahaha! Não digas isso porque tenho um grande amigo paulista. Inclusive, vai se casar daqui uns meses. Um outro grande amigo também.
— Pois alerte-os: num casamento, o importante não é a esposa, é a sogra. Uma esposa limita-se a repetir as qualidades e os defeitos da própria mãe.
— Já tinha ouvido essa. Agora, ainda sobre solidão, existe uma forma boa?
— Claro! A perfeita solidão há de ter pelo menos a presença numerosa de um amigo real.
— É... tenho me sentido mais só que se fosse vaiado por milhares de pessoas no Maracanã lotado.
— No Maracanã, vaia-se até minuto de silêncio e, se quiser acreditar, vaia-se até mulher nua. Porém não esqueça que a grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre que a grande apoteose.
— É que quando está tudo bem, raramente paramos para analisar e valorizar. Mas daqui a nada essa fase passa...
— Tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhoras que traem.
— E eu estou sempre falando nas saudades da família, na ausência dos amigos, no coração desamparado, no emprego chato e burocrático... tem sido uma prova e tanto este período. É muito fácil cair no ridículo.
— Amigo, eis a verdade: só os imbecis têm medo do ridículo.
— É... não tenho medo, mas passo por cada um. Eu preciso mesmo é retreinar meu olhar e readquirir o gosto pelo que acontece à minha volta.
— Faça isso mesmo. É um exercício importantíssimo! No dia em que a criatura humana perder a capacidade de admirar, cairá de quatro, para sempre. E o mal de todos nós, a nossa crise, a nossa doença, é o seguinte: — admiramos pouco, admiramos de menos. Em redor de nós, tudo nos convida, tudo nos induz ao espanto. E, no entanto, examine esse povo que vai passando, com algo de fluvial no seu lerdo escoamento. Ninguém admira nada, ninguém admira ninguém. Essa impotência de sentimento, esse tédio de alma, essa anestesia coletiva e alvar traduz um desinteresse vital tremendo.
— Puxa, depois dessa fiquei até sem palavras. Tenho que ir, Nelson.
— Até porque a ligação longa-distância custará uns tantos réis...
— Que nada. Uso o Voip, uma invenção transcendental!
— Há homens que, por dinheiro, são capazes até de uma boa ação.
— Não sejas tão cético, meu caro.
— Apenas creio que certas épocas são doentes mentais. Por exemplo: — a nossa.
— Gostas mesmo é de uma polêmica! Diz essas coisas para provocar!
— É o óbvio ululante...
— Um abraço, Nelson. E se cuida aí.
— Abraço e boa sorte. Afinal, sem o mínimo de sorte, o sujeito não consegue nem chupar um Chica-bon, o sujeito acaba engolindo o pauzinho do Chica-bon!
— Vira essa boca pra lá. Parece história de A vida como ela é...