sexta-feira, 19 de junho de 2009

Alinhamento e desalinhamento

É mesmo difícil suportar o peso da vida a todo momento. Acordar de um sono bom e lembrar que a (sua) casa ainda não está pronta – e falta materiais, disposição, plano de obra, esperança.

Nietzsche dizia: “Se optar pelo crescimento, prepare-se para sofrer!”. E como dói lidar com nossas ambiguidades, encarar nossos medos, tentar emergir dos traumas. Nenhum roteiro é perfeito; nem o amor o é. É mesmo difícil suportar o peso da solidão quando o silêncio é ainda maior dentro de nós.

De tanto querer acertar, passo o tempo todo a reparar meus erros. Um amigo me leu com a clareza de um sábio e revelou-me sob um céu alaranjado:

— Gustavo, contigo parece ser tudo uma questão de alinhamento e desalinhamento. Você alinhado, ordenado, não se abala se o mundo abrir aos seus pés. Aconteça o que for, tu superas com naturalidade e calma. Agora, se estás confuso e desorientado, qualquer pedrinha no sapato é um fardo imenso.

E tudo me faz lembrar de um texto já citado aqui, do Rubem Braga.

“[O] instante de libertação é a grande recompensa do vagabundo; só mais tarde ele sente que uma pessoa é feita de muitas almas, e que várias, dele, ficaram penando na cidade abandonada. E há também instantes bons, em terra estrangeira, melhores que o das excitações e descobertas, e as súbitas visões de belezas sonhadas. São aqueles momentos mansos em que, de uma janela ou da mesa de um bar, ele vê, de repente, a cidade estranha, no palor do crepúsculo, respirar suavemente como velha amiga, e reconhece que aquele perfil de casas e chaminés já é um pouco, e docemente, coisa sua.

Mas há também, e não vale a pena esconder nem esquecer isso, aqueles momentos de solidão e de morno desespero; aquela surda saudade que não é de terra nem de gente, e é de tudo, é de um ar em que se fica mais distraído, é de um cheiro antigo de chuva na terra da infância, é de qualquer coisa esquecida e humilde. Mas então as bobagens do estrangeiro não rimam com a gente, as ruas são hostis e as casas se fecham com egoísmo, e a alegria dos outros que passam rindo e falando alto em sua língua dói no exilado como bofetadas injustas. Há o momento em que você defronta o telefone na mesa da cabeceira e não tem com quem falar, e olha a imensa lista de nomes desconhecidos com um tédio cruel.”

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