segunda-feira, 27 de abril de 2009

Fiat Lux!

Não há registro. Ou como diria aqui em Portugal, registo. Sou um homem de poucas fotos. A mais bela perdi quando absorvi-me pelo espetáculo da cena. Matheus berrou para que eu sacasse a máquina e congelasse o instante. Na areia clara das dunas de Tramandaí, um cão lépido perseguia uma gaivota freneticamente, tendo o pôr-do-sol ao fundo.

Na ânsia de que pudéssemos guardar no álbum a paisagem em movimento (afinal, ainda estávamos na Era Analógica), atrapalhei-me com a câmera. Confesso que me frustei – e, então, nunca mais tive o afã pelos cliques, flashes e enquadramentos. O cão passou, a ave voou, o sol deitou-se e a areia continuou a deslocar-se sutilmente.

Mais tarde, eu e Matheus concordamos que os melhores registros ficam na nossa memória. A imagem que fiz desse momento é, com certeza, diferente da que ele tem. A foto só iria tirar a fantasia. Talvez o cão nem fosse tão lépido assim, não se tratava de uma gaivota mas uma cambaxirra, o relógio marcasse três e vinte e dois da tarde e a areia tivesse um tom marrom.

Tudo para dizer que não há registro da minha ida ao Estádio da Luz. Fui assistir ao Benfica contra o Marítimo, clube da Ilha da Madeira, e não há uma foto sequer. Ficou mesmo a tal memória poética, ainda que o jogo fosse despretensioso e as bancadas estivessem com 1/3 de sua capacidade.

Mas clima de estádio é contagiante. Como diria o professor Ostermann, filósofo formado em jornalismo esportivo, hoje em dia há dois futebóis: o de estádio e o de estúdio. Sempre vou preferir o primeiro e o coração acelerado pelo início da partida, o percurso até se sentar e avistar o campo, o cheiro de grama úmida... Isso pulsa. É umas das sensações mais plenas que vivo.

Não há registro físico, mas não restam registos emocionais.

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